Ajahn Thanissaro
A Virtude nas Regras
As regras e as qualidades de caráter que fazem parte do treinamento do Buda na virtude são melhor compreendidas quando observamos as instruções que ele deu aos seus discípulos monges. Esse é um ponto que muitas vezes é deixado de lado nos escritos budistas modernos.
Como algumas pessoas comuns — que não são monges — conseguem alcançar diferentes níveis de despertar espiritual, muita gente acaba pensando que o treinamento dado aos leigos é o modelo principal, e que o treinamento dos monges seria algo a mais, ou até desnecessário. A escolha de se tornar monge é frequentemente vista como uma questão de gosto pessoal: a vida monástica seria como um “belo recipiente” para a prática, uma opção para quem aprecia coisas como incenso, cânticos e mantos.
Porém, os textos antigos (o Cânone) deixam claro que a vida de monge foi feita para quem quer se dedicar totalmente à prática espiritual, sem ter que lidar com as responsabilidades e os dilemas morais que a vida em sociedade traz.
É como se preparar para correr uma maratona: é possível terminar a prova mesmo carregando peso extra, mas é muito mais fácil se você não se sobrecarregar desnecessariamente. A vida monástica é justamente isso: permite que você percorra esse caminho com o mínimo de peso possível.
A ideia da corrida não aparece nos textos antigos, mas o Buda usava outras imagens para dizer a mesma coisa. Ele repetia com frequência que a vida em família é apertada e empoeirada, enquanto a vida monástica é como um espaço aberto e livre (Majjhima Nikāya 36). Em outra comparação, ele dizia que o chefe de família é como um pavão, que voa devagar, enquanto o monge é como um ganso selvagem, que voa rápido e vai longe (Samiutta Nikāya 1:12).
O treinamento em virtude dado aos monges representa o ideal do Buda. Mesmo que você não possa seguir esse ideal completamente, é útil conhecê-lo, pois assim você percebe onde está se limitando quando não o segue — ou quando não consegue segui-lo.
Uma parte do treinamento monástico que muitas pessoas não entendem bem é o conjunto de regras de treinamento (chamadas sikkhāpadā), que faz parte da seção do Cânone conhecida como Vinaya, o código de disciplina. O Buda dava tanta importância a essa parte que ele não chamava seu ensinamento apenas de “budismo” ou mesmo simplesmente de “Dhamma”, mas sim de “este Dhamma-Vinaya”.
A palavra Vinaya vem de um verbo que significa “subjugar”. As regras do Vinaya são um treinamento para controlar os desejos e paixões que geram impurezas na mente. O núcleo dessas regras é um código básico chamado Pāṭimokkha, que os monges ouvem a cada quinze dias. Essas regras cobrem muitas proibições diferentes: desde coisas graves como assassinato, roubo e relações sexuais (celibato), até normas de etiqueta sobre como comer e vestir os mantos. Além do Pāṭimokkha, há 22 capítulos com centenas de outras regras que orientam todos os detalhes da vida em comunidade — desde como usar o banheiro e limpar a própria cabana até como administrar os assuntos do grupo.
A punição por quebrar uma regra varia de acordo com a gravidade da falta. A mais severa é a expulsão definitiva da vida monástica. Há também penalidades intermediárias, como um período de penitência. E a punição mais leve — que se aplica à grande maioria das regras — é simplesmente confessar o erro para outro monge.
As regras têm um papel importante: elas nos lembram que a luta pelo despertar não é contra o desejo de modo geral, mas contra desejos específicos e prejudiciais que aparecem no dia a dia — tanto os grandes desejos quanto os pequenos desejos. Algumas regras tratam de detalhes minuciosos porque desejos pequenos, se não forem percebidos e controlados, podem crescer. As regras ajudam a garantir que o seu desejo de agir com sabedoria seja algo sincero e real, e não apenas uma intenção vaga e sem conteúdo.
Praticar as regras também é uma ótima oportunidade para desenvolver qualidades mentais que serão úteis na meditação. É preciso desenvolver:
- atenção plena (sāti) para manter as regras sempre presentes na mente;
- vigilância para verificar se suas ações estão de acordo com as regras;
- ardor para se conter sempre que surgir a vontade de quebrar uma regra, e para se motivar a segui-las da melhor forma possível.
Essas três qualidades ajudam na prática da Atenção Plena correta, que é a base para o treinamento da Concentração Correta no desenvolvimento da mente.
Seguir regras que você sabe que são boas para você a longo prazo também desenvolve um tipo de discernimento prático. Como o Buda ensinou, a capacidade de se convencer a não fazer algo que você gosta, mas que trará prejuízo no futuro, é uma medida do seu discernimento. O mesmo vale para a capacidade de se convencer a fazer algo que você não gosta, mas que trará benefícios duradouros (Aṅguttara Nikāya 4:115). Assumir as regras de treinamento dá a você experiência prática em usar esse tipo de discernimento — que não se baseia no prazer imediato, mas na busca pela felicidade a longo prazo.
No entanto, seguir regras só vai desenvolver seu discernimento dessa forma se as regras forem claramente feitas para promover o seu bem-estar duradouro. É por isso que o Vinaya apresenta as regras mostrando como e por que elas são úteis.
Cada regra do Pāṭimokkha vem com uma história de origem. A primeira parte da história conta o incidente em que um monge agiu de modo errado, levando o Buda a criar a regra. Algumas dessas histórias são sérias — como a de um monge que matou animais. Outras, porém, são mais engraçadas, e de propósito, mostrando como o comportamento do monge foi tolo de um jeito muito humano. Esse toque de humor na disciplina ajuda o leitor a se colocar não ao lado do monge que errou, mas ao lado do Buda, que critica essa tolice.
Quando o Buda ficou sabendo do mau comportamento, ele chamou o monge e perguntou se ele realmente agiu daquela forma. O monge confessa que sim. Então o Buda o repreendeu. Essa repreensão é a segunda parte da história de origem, e é nela que o Buda explica os motivos para criar a regra.
Abaixo está um exemplo de uma das repreensões mais severas do Buda, dirigida a um monge que teve relações sexuais com sua ex-esposa. O que chama a atenção — considerando o que já foi dito sobre paixão e desencanto — é que esses dois temas aparecem desde o começo da advertência. O Buda queria que seus seguidores avaliassem seu comportamento à luz dos grandes objetivos da prática: controlar a paixão e alcançar a liberdade que vem com o desencanto.
Ele disse: “Homem inútil, o que você fez é inadequado, sem propósito, impróprio e indigno de alguém que segue a vida contemplativa; é errado e não deveria ser feito…
Não ensinei o Dhamma de muitas formas visando o desencanto, e não a paixão? A libertação, e não o aprisionamento? A liberdade do apego, e não o apego?
No entanto, mesmo tendo ensinado o Dhamma para o desencanto, você voltou seu coração para a paixão; tendo ensinado para a libertação, você voltou seu coração para o aprisionamento; tendo ensinado para a liberdade do apego, você voltou seu coração para o apego.
Homem inútil, não ensinei o Dhamma de muitas maneiras visando o enfraquecimento da paixão, o fim da intoxicação, o controle da sede, a remoção do apego, o rompimento do ciclo, a destruição do desejo, o desencanto, a cessação, o Nibbāna? …
O que você fez não inspira FÉ nas pessoas que ainda não têm FÉ, nem aumenta a fé daqueles que já creem. Pelo contrário, isso gera desconfiança nos que não têm FÉ e faz com que alguns dos que creem fiquem em dúvida.”
Em seguida, o Buda passou a falar sobre as qualidades pessoais: aquelas que um monge que segue a disciplina deve abandonar e aquelas que deve cultivar.
“Então o Abençoado — tendo repreendido de várias maneiras o Venerável Sudinna[1], tendo falado contra ser um fardo para os outros, ser exigente, arrogante, insatisfeito, enredado e preguiçoso; e tendo, ao contrário, elogiado não ser um fardo para os outros, ser modesto, contente, cuidadoso, austero, amável, humilde e enérgico; tendo dado um discurso sobre o que é adequado e apropriado para os monges — dirigiu-se então aos monges.”
Foi nesse momento que o Buda estabeleceu a regra de treinamento, depois de primeiro explicar suas razões para isso.
“Neste caso, monges, estabelecerei uma regra de treinamento tendo em vista dez objetivos: a excelência da Comunidade, o bem-estar da Comunidade, o controle dos insolentes, o bem-estar dos MONGES que estão aqui, a prevenção de impurezas presente, e a prevenção das impurezas que possam surgir no futuro, o despertar da Fé nos que não a têm, o aumento da FÉ nos que já creem, a manutenção do verdadeiro Dhamma e o fortalecimento da disciplina.” — Pr 1
Essas razões podem ser divididas em três tipos principais:
1. Garantir a paz e o bem-estar dentro da própria Comunidade de monges.
2. Fortalecer e proteger a fé dos leigos, que são os que sustentam os monges com doações. (As histórias mostram que os leigos costumam generalizar: um monge age mal, e eles já pensam: “Todos os monges são assim?”)
3. Ajudar cada monge a controlar e prevenir as impurezas mentais dentro de si mesmo.
Portanto, as regras não servem apenas para o bem-estar do grupo, mas também para o bem-estar de cada indivíduo. Quando um monge conhece as razões por trás de cada regra, ele consegue se convencer de que é do seu próprio interesse segui-la. Assim, ele usa a sabedoria do Buda para desenvolver a sua própria sabedoria. Ao mesmo tempo, age com compaixão por si mesmo, pelos outros monges e pela Comunidade como um todo — agora e no futuro.
[1] “Burdensome”, em inglês. A palavra “burden” significa “fardo”. Uma pessoa “burdensome” é uma pessoa que é um fardo para os outros, que exige muito, pede muito, precisa de muito, etc. O oposto é“unburdensome”, na linha seguinte, traduzido como “não ser um peso para os outros”.

