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Sīla, Samādhi, Pañña funcionam como uma só

Posted on 10/09/202610/09/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Namo Tassa Bhagavato Arahato Sammā Sambudassa
Namo Tassa Bhagavato Arahato Sammā Sambudassa
Namo Tassa Bhagavato Arahato Sammā Sambudassa
Buddhaṁ, Dhamaṃ, Sanghaṃ. Namassāmi

Quando dizemos que o treinamento budista está dividido em sīla, samādhi e paññā, isso não significa que sejam três coisas completamente separadas. Cada uma delas possui uma ênfase diferente, mas, na prática, os três aspectos estão sempre presentes e se interpenetram. Na prática de sīla, por exemplo, também está incluído um aspecto relacionado à Mente. Há tanto o aspecto de manter a mente tranquila e em paz quanto o aspecto de desenvolver uma mente hábil, inteligente e capaz de lidar adequadamente com as situações.

Portanto, dentro de sīla também existe samādhi e existe paññā. Da mesma maneira, dentro de samādhi existe sīla e paññā; e dentro de paññā também existem sīla e samādhi. A diferença é que sīla dá maior ênfase ao comportamento físico e verbal: aquilo que fazemos com o corpo e a maneira como nos comunicamos e nos comportamos. Isso começa pelos cinco preceitos, mas não se limita a eles. Também inclui coisas como procurar boas amizades, alimentar-se de maneira inteligente, cuidar adequadamente do corpo e desenvolver hábitos que favoreçam uma vida saudável e equilibrada.

Isso não significa que todas essas coisas sejam, em si mesmas, preceitos morais. Existe também um aspecto relacionado ao cuidado com o corpo e com a fala. Por exemplo, falar alto não necessariamente quebra algum preceito. Entretanto, não saber falar em um tom apropriado pode ser inadequado para determinada situação. Você pode não estar quebrando nenhum preceito simplesmente por falar muito alto, mas, se não souber utilizar um tom de voz adequado, poderá não produzir o resultado esperado e acabar gerando problemas ou conflitos com as pessoas ao seu redor.

Portanto, falar de maneira apropriada, no local apropriado, com o tom de voz apropriado e de acordo com a situação também faz parte de um aspecto de samādhi e de uma fala correta e adequada. Não chega necessariamente a ser uma quebra de preceito, mas está relacionado ao assunto. São coisas que, idealmente, deveriam ser óbvias. O problema é que existem coisas que deveriam ser óbvias, mas não são óbvias para todo mundo. Há situações que, idealmente, nem precisariam ser explicadas, mas cada pessoa vive em uma determinada condição e possui uma determinada experiência de vida. Por isso, às vezes é necessário mencionar até mesmo coisas que deveriam ser consideradas simples questões de bom senso.

Existe, portanto, um aspecto importante que consiste em cuidar de todos os assuntos relacionados ao corpo e à fala que sejam relevantes. Não se trata apenas da questão de não cometer maus atos. Existe todo um conjunto de comportamentos relacionados ao bom senso e à inteligência que fornece fundamentos importantes para que você tenha espaço e um ambiente apropriado para trabalhar com a mente. Isso requer inteligência e também uma mente relativamente pacífica. Se você tem uma mente muito agitada e muito dolorosa, não consegue realizar determinadas coisas. Por exemplo, para não usar drogas, você precisa conseguir estabilizar a sua mente o suficiente para não recorrer às drogas. Não é necessário ter uma mente perfeita para não usar drogas, mas é necessário possuir um certo nível mínimo de estabilidade mental.

Essa estabilidade mental já possui um certo aspecto de samādhi. É uma forma mais grosseira de samādhi. A mente está menos agitada, mas ainda não chegou ao ponto que normalmente entendemos como uma mente profundamente concentrada ou pacífica. Quando a mente chega a um determinado nível de tranquilidade e estabilidade que já ultrapassa aquilo que as pessoas normalmente experimentam em seu estado mental cotidiano, damos a isso o nome de samādhi.

Mas isso depende apenas do nível em que a mente se encontra. Não é que exista alguma coisa mágica ou especial, com uma natureza completamente diferente do restante. É a mesma coisa de sempre, apenas em um nível tão profundo que deixa de ser uma experiência comum para a maioria das pessoas.

Por isso, damos um nome diferente e chamamos de samādhi. É simplesmente a Mente ficando cada vez mais tranquila, cada vez mais estável, cada vez mais harmoniosa, mais saudável e mais pacífica. Da mesma forma, para conseguir manter sīla, é necessário possuir algum nível dessa estabilidade mental e dessa tranquilidade. A mente não pode ser excessivamente dolorosa.

Quando a mente está muito dolorosa, ela não consegue manter os preceitos. Em geral, as pessoas quebram os preceitos justamente por causa disso: elas quebram os preceitos para tentar aliviar algum tipo de sofrimento que estão experimentando.

Se há alguém incomodando a pessoa, por exemplo, ela pode querer eliminar aquela fonte de incômodo. Pode matar aquele ser, aquele animal, aquele inseto ou até mesmo aquela pessoa. Isso pode ser uma tentativa de abafar ou eliminar o sofrimento que está sentindo.

Da mesma forma, quando uma pessoa possui um desejo muito forte de obter alguma coisa, pode acabar roubando. O desejo está tão intenso que ela está disposta a agredir outra pessoa para conseguir aquilo que quer. Isso vem de uma mente agitada. A mente está queimando.

A mente está queimando de desejo, de ganância e de insatisfação. Está queimando em um nível tão intenso que a pessoa se torna capaz de agredir outra pessoa para obter aquilo que deseja, tomar aquilo que não lhe pertence e assim por diante. Portanto, para conseguir realmente manter sīla de maneira saudável, e para que sīla cumpra o seu papel dentro do Nobre Caminho Óctuplo, precisa existir também esse aspecto de tornar a mente mais saudável.

Não é possível manter os preceitos morais apenas por meio de uma espécie de castração ou simplesmente bloqueando os desejos e bloqueando a raiva, como se fosse uma coleira prendendo um cachorro. Dessa maneira, isso não se transforma em um fundamento adequado sobre o qual o Nobre Caminho Óctuplo possa ser construído. Porque isso não pacifica a mente. Se você fizer dessa maneira, a mente não se torna mais pacífica e não desenvolve qualidade. Isso apenas evita determinados maus atos e, embora isso tenha seu valor, não é suficiente. Apenas não fazer mau kamma — karma, em sânscrito — não é suficiente.

Você pode começar proibindo a si mesmo de realizar maus atos, mas precisa, posteriormente, conseguir abandonar o desejo de realizar esses maus atos. Qualquer que seja a causa que esteja levando você a realizá-los, essa causa precisa ser abandonada. E a causa está sempre relacionada à mente. Existe um aspecto de sofrimento, de caos, de dor e de desorganização na mente. A mente, de maneira bastante primária, simplesmente não funciona direito. Ela não está funcionando de maneira adequada. Quando a mente não funciona direito, a pessoa tenta tampar o buraco com coisas que vêm de fora. Mas também existe um aspecto relacionado à visão incorreta. Nesse caso, entramos na parte da sabedoria.

A pessoa possui determinada opinião, mas essa opinião não é válida ou não está de acordo com a realidade. Às vezes, as pessoas quebram os preceitos justamente por terem uma visão incorreta ou um ponto de vista incorreto. Elas acham que fazer determinada coisa é bom, quando, na realidade, fazer aquela coisa é prejudicial. Isso gera mau kamma, mina a situação da pessoa no mundo, destrói as condições que sustentam sua situação no mundo e produz consequências negativas. Portanto, também existe um aspecto de compreender o que é certo e o que é errado.

Se a pessoa trabalha nisso, ela desenvolve sīla, tendo o comportamento corporal e verbal como ponto de referência. Mas precisa compreender que, dentro dessa prática de corrigir e melhorar o comportamento, o resultado deve ser alcançado por meio da melhora da própria mente.

Não se trata apenas de ficar proibindo a si mesmo de fazer as coisas que deseja fazer. É preciso realmente abandonar aquilo que causa esses desejos maléficos. Esses hábitos mentais prejudiciais podem ser uma opinião incorreta ou simplesmente um sofrimento grosseiro da mente. A mente simplesmente sofre. Então surge o impulso de encontrar alguma coisa que alivie esse sofrimento.

É mais fácil tomar drogas. É mais fácil roubar aquilo que quero. É mais fácil mentir para os outros. É mais fácil trair minha esposa ou meu marido. Esse é o caminho mais óbvio, mais fácil e mais simples. A pessoa simplesmente passa por cima das consequências e escolhe aquilo que parece mais fácil.

Enquanto a pessoa não tiver a visão de que esse trabalho de moralidade — sīla — também envolve samādhi e paññā, envolve inteligência e envolve uma mente harmoniosa, ela não conseguirá desenvolver um sīla verdadeiramente nobre. Isso requer uma purificação da mente. E não é uma purificação da Mente diferente daquela que acontece quando você dá maior ênfase a samādhi.

Por exemplo, chega uma determinada época em que essa parte de sīla já está bem estabelecida. A mente não busca mais agredir, não busca mais roubar e não busca mais cometer más ações. Ainda assim, talvez ela não esteja alcançando níveis profundos de paz e bem-estar. Nesse momento, tendo a parte de sīla já bem estabelecida, ela se torna praticamente automática. Torna-se normal. Você não precisa mais fazer esforço para manter os preceitos. Isso se torna simplesmente uma questão de reconhecer a própria natureza: “Minha natureza é não roubar.”

A ideia de roubar ou furtar não ocorre mais. A ideia de agredir fisicamente outra pessoa já não ocorre também. A ideia sequer passa pela cabeça. A mente desenvolveu mecanismos mais sábios para lidar com o desconforto. Ou, principalmente, a mente deixou de criar um desconforto exagerado. Ela não cria tanto desconforto. Portanto, não existe mais necessidade de agredir os outros, roubar, mentir e assim por diante. A mente possui recursos melhores do que esses. Quando chega a esse nível, a pessoa pode ficar tranquila, porque existe segurança de que essa parte está bem estabelecida e firme. Então ela pode voltar mais a sua atenção para a prática de samādhi.

É por isso que é, de certa maneira, sem sentido uma pessoa dizer: “Pratico meditação há vinte anos, mas nunca consegui experimentar nenhum estado profundo de meditação.” Você olha para o modo de vida da pessoa e percebe que os fundamentos não estão presentes. A pessoa pode estar sentada meditando há vinte anos, mas onde estão os fundamentos? Se a pessoa continua praticando de maneira grosseira, se continua se comportando de maneira inadequada e se as causas e condições necessárias não estão presentes, não há como esperar determinado resultado. Esse é um dos problemas que surgem quando se enxerga apenas uma parte da prática.

No Ocidente, as pessoas tendem a dar mais ênfase à meditação. No Oriente, muitas vezes as pessoas dão mais ênfase aos atos e gestos, tanto ao aspecto de moralidade (sīla) quanto ao aspecto de caridade e generosidade. São partes mais relacionadas ao corpo e ao comportamento.

Quando se dá muita ênfase às partes relativas ao comportamento, existe um certo problema: isso pode gerar determinadas distorções. Pode gerar muita superstição, muitos rituais e, às vezes, doações que não são realmente inteligentes. A pessoa faz uma doação porque quer receber bom kamma. Então ela nem olha para a situação e pergunta: “Vocês realmente precisam disso?” Às vezes, os mosteiros ficam apinhados de coisas que, na verdade, nem são necessárias. Em alguns casos, ninguém sabe mais o que fazer com aquelas doações.

Havia no mosteiro de Ajahn Poh Piak que possuía tantas imagens do Buda que existia um andar inteiro cheio delas. Aquele andar havia sido construído para acomodar monges que estivessem visitando o mosteiro. Funcionava como uma espécie de dormitório para monges visitantes. Mas as pessoas foram colocando uma imagem do Buda, depois outra imagem do Buda, depois mais outra imagem do Buda. No final, havia tantas imagens que praticamente não existia mais espaço para os monges se deitarem. Havia apenas imagens do Buda. Quando morei lá e vinha visitar o Brasil, eu sempre trazia uma imagem do Buda comigo, porque havia tantas imagens sobrando que trazê-las era também uma maneira de aliviar um pouco o espaço.

Acho que, desde aquela época, já trouxe umas três ou quatro imagens do Buda para o Brasil, junto com a minha bagagem. Então, quando as pessoas dão muita ênfase a essas partes mais relacionadas ao comportamento, aos gestos e assim por diante, isso pode gerar determinadas distorções. Mas, quando as pessoas dão muita ênfase apenas à parte da mente, também podem surgir certas distorções e determinadas patologias que não são saudáveis.

A pessoa fica ali tentando sentar para meditar, sentar para meditar, sentar para meditar, mas não cria nem trabalha os fundamentos. Ela continua traindo a esposa, continua mentindo, continua tirando vantagem dos outros, continua enganando as pessoas para obter vantagens e continua querendo ser esperta. Como se diz no Brasil, o pessoal ainda quer ser “espertão”. Só que, dessa maneira, a própria mente vai sendo sabotada. A pessoa quer sentar para meditar e quer que a mente fique pacífica, mas isso não acontece. Não vai acontecer, porque os fundamentos não estão presentes. Não existe como esperar determinado resultado sem as causas e condições necessárias. Isso também gera uma distorção na percepção da própria prática. A pessoa não obtém resultado, não avança e, depois de algum tempo, começa a acreditar que a prática não funciona.

Mas o problema pode estar na ausência dos fundamentos.

Se você construiu bem esse fundamento de comportamento, estará muito mais preparado para colocar ênfase diretamente na prática de meditação. Como falei, se você fez bem essa parte do comportamento, ela já estará incluindo certo aspecto de samādhi e certo aspecto de sabedoria. As características de samādhi e os princípios da sabedoria já estarão presentes ali, mesmo que de maneira menos explícita. Então, quando chega o momento de realmente dar ênfase a samādhi, você pode dizer:

“Essa parte de sīla está bem estabelecida. Agora vou realmente sentar em meditação, aprender a lidar com a mente e trabalhar diretamente com a mente.” É como sentar frente a frente com a própria mente. Você aprende a trabalhar diretamente com ela, sem passar por intermediários. Quando você chega a essa parte tendo construído bons fundamentos, já possui algumas noções de como fazer isso e já observou alguns padrões da própria mente. E não é muito diferente daquilo que você fez anteriormente. Por exemplo, você pode ter sentido desejo de trair sua esposa e ter conseguido abandonar esse desejo usando sabedoria e habilidade para trabalhar com a própria mente. Em vez de beber cachaça para abafar o desejo, você olhou para a mente, trabalhou com ela e apaziguou aquela “queimação”. Você aprendeu a fazer isso. Então, quando vai sentar em Meditação, o princípio não é completamente diferente.

Você pensa: “Eu já sei o que fazer. Já fiz isso antes. Agora vou fazer isso em um nível mais sutil e em uma situação mais propícia.” É o mesmo princípio. Não é algo completamente diferente. Portanto, você não chega à meditação de mãos vazias. No geral, porém, no Ocidente, muitas pessoas chegam à meditação de mãos vazias porque não tiveram interesse na parte dos preceitos, na parte da caridade, de dāna — generosidade ou doação —, da Fala Correta, de procurar um modo de vida correto, de procurar boas amizades e de evitar ambientes não saudáveis. Elas não construíram esses fundamentos. Então vão diretamente sentar em meditação e chegam ali completamente perdidas, sem saber o que fazer. Não é realmente uma situação ideal.

Mas também não é necessariamente pior do que as pessoas ficarem apenas fazendo doações e rituais. Ambos os caminhos possuem seu lado bom e seu lado ruim. Eventualmente, pessoas que talvez tenham um pouco mais de visão começam com interesse em meditação, mas, aos poucos, começam também a expandir essa visão e a enxergar o valor do restante. Elas saem desse mundo de mindfulness e vipassanā entendido de maneira isolada e começam a abranger uma visão mais completa daquilo que o Buda ensinava e do que, de fato, constitui o caminho para a Libertação.

Não se trata de ficar obcecado por um único aspecto. É como tentar correr uma corrida pulando em um pé só, quando você possui duas pernas. Para que ficar pulando em um pé só? A outra perna está disponível. Por que não usá-la? As pessoas ficam tão obcecadas com determinados conceitos que se recusam a usar a segunda perna.

“Eu vou pular em um pé só porque a segunda perna é a perna esquerda. A esquerda não é tão boa quanto a direita. Então vou usar apenas a direita. Quero somente o melhor. A melhor é a direita. Então a perna esquerda que se dane.” É esse tipo de pensamento obsessivo que pode aparecer. Existe uma tendência bastante ocidental de pensar: “Eu quero somente a essência. Não quero nada que esteja ao redor dela.” Quando pensamos em medicamentos, por exemplo, as pessoas podem querer apenas o princípio ativo e nada mais. Mas aquele princípio ativo, na natureza, existe dentro de um contexto. Há vários ingredientes juntos. Ele está dentro de uma folha.

Aquela folha não possui somente um princípio ativo. Existem várias outros princípios medicinais dentro dela. A folha pode ser fervida em água quente e tomada quente. O próprio calor também pode produzir algum efeito. Existe todo um conjunto de fatores. As pessoas possuem, às vezes, essa tendência de dividir e separar as coisas. Então, quando chegam à prática de meditação, querem dividir e separar tudo e não querem fazer nada que não seja exatamente a “essência” do assunto. E, dessa maneira, acabam jogando fora muitas coisas que são importantes e que eram necessárias para que determinado resultado pudesse se manifestar. Da mesma forma, quando você realmente se envolve com a Meditação, também existem aspectos de sīla que continuam sendo úteis. Você aprende a trazer a mente de volta. A mente vai para um lado e você a traz de volta. Ela quer ir para outro lado, mas você não a acompanha. Você permanece aqui. Então existe o aspecto de sīla. Existe o aspecto de disciplina. A mente também tem muito a ver com vencer a preguiça.

Porque sāti, manter a Mente presente, aqui e agora, envolve também vencer a preguiça. O problema da delusão da mente é que ela funciona automaticamente e não exige esforço. Você não precisa fazer nada. É só deixar a mente escorregar. Ela vai para os pensamentos, para as lembranças e para as fantasias. É automático. Você não precisa comprar nada, não precisa ligar o telefone celular e não precisa fazer esforço algum. É só largar a mente. Ela vai sozinha.

Portanto, a pessoa precisa desenvolver diligência e disciplina para trazer a mente de volta e mantê-la no momento presente. Se a mente começa a escorregar, você a traz novamente para o momento presente. A pessoa precisa desenvolver um aspecto muito importante de vencer a preguiça, vencer a inércia e ganhar disciplina. Só que essa disciplina se torna mais sutil. Não pode ser uma disciplina aplicada de maneira agressiva, porque, nesse caso, você perturba a mente. Você consegue manter a mente no momento presente, mas ela nunca se pacifica porque você está usando agressão para mantê-la ali.

Portanto, é uma disciplina, mas agora precisa ser uma disciplina mais hábil. Não é exatamente a mesma disciplina que você usou para não roubar uma caneta quando foi a uma loja. Você vê uma caneta ali e pensa: “Não posso roubar essa caneta. É vergonhoso fazer uma coisa feia dessas, roubar a caneta de outra pessoa.” Quando você vai lidar diretamente com a mente, porém, não pode ser tão agressivo. É preciso ter uma disciplina mais suave. É uma coisa que se torna mais sutil. O princípio é o mesmo, mas agora você precisa aplicá-lo com muito mais sutileza.

É necessário conseguir trabalhar com a mente e ter firmeza, mas sem agressividade. Então o trabalho começa a ficar mais sutil e refinado. Mas o princípio de sīla continua presente.

Continua presente o princípio da disciplina. Continua presente o princípio de abrir mão. Você quer determinada coisa, mas pensa: “Eu não vou fazer aquilo.” Você não vai simplesmente fazer tudo o que quer. Por exemplo: “Quero pensar nessa fantasia que fico mastigando todos os dias. Mas não vou fazer isso. Vou abrir mão dessa fantasia. Vou permanecer aqui, neste exato momento, no meu corpo, no meu objeto de meditação.”

Existe aí um aspecto de renúncia, que é muito característico de sīla. Existe um aspecto de disciplina, que também é muito característico de sīla. Existe um aspecto de vencer a preguiça, que também é muito característico dessa disciplina. Todos esses aspectos se encaixam. Todos eles se permeiam. Sīla está permeado por paññā e samādhi. Samādhi está permeado por sīla e paññā. Paññā também está permeado por sīla e samādhi. Portanto, quando a pessoa dá ênfase excessiva à sabedoria, também podem surgir distorções.Ela pode ficar presa no mundo das ideias, dos livros, das teorias, das explicações, dos termos e dos conceitos, negligenciando o restante.Não existem fundamentos para que aqueles conceitos se tornem realidade.

Não existem fundamentos para que aquelas teorias sejam colocadas em prática de maneira que produzam resultados. Então essa pessoa fica muito obcecada com leitura, ideias e inteligência.

Isso também pode gerar uma determinada patologia, da mesma forma que as outras duas ênfases podem gerar suas próprias distorções. A pessoa que dá muita ênfase às práticas de meditação pode acabar desenvolvendo determinada distorção. A pessoa que dá muita ênfase às práticas corporais, às coisas relacionadas a gestos e fala, também pode acabar desenvolvendo determinadas distorções e certas patologias. A pessoa que dá muita ênfase à inteligência, às ideias, aos estudos e aos conceitos também pode acabar gerando determinadas distorções. Portanto, nenhum desses aspectos, isoladamente, é perfeito.

Nenhum deles, isoladamente, é a solução final. Todos eles são saṅkhāras. Todos são imperfeitos. São apenas recursos. São apenas apoios. Por isso, ninguém está em uma situação em que possa simplesmente abrir mão de algum deles. Você começa pelo aspecto que mais lhe agrada ou que lhe seja mais acessível. Não importa se são os livros, a prática de meditação ou os rituais e preceitos. Não importa. Comece por onde estiver disponível. Mas, depois de começar, você precisa expandir. Eventualmente, a prática precisa abordar todos os aspectos do Nobre Caminho Óctuplo.

Não existe essa ideia de: “Só isso aqui é importante. O restante é irrelevante.” Isso é conversa de quem nunca colocou a prática realmente em funcionamento. As pessoas podem falar isso apenas na teoria, e, no mundo das ideias, certas coisas podem parecer fazer sentido. Mas, quando você coloca em prática, percebe que não funciona dessa maneira. É preciso ter essa noção também. Então, no final de toda essa explicação, a mensagem que considero mais importante é: não precisa ficar se preocupando demais em decidir qual prática é inferior e qual é superior.

Não precisa ficar pensando: “Esta prática é mais importante, aquela é menos importante.” Não precisa ficar com ganância de fazer a prática que considera mais importante e deixar a outra para trás. Na verdade, não existe isso. Todas elas estão conectadas. É como uma bola. A bola não possui uma parte que seja mais importante e outra que seja menos importante. É a mesma coisa.

A parte de cima está relacionada à parte de baixo. A parte de baixo está relacionada à parte do meio. Qualquer aspecto de um círculo pertence ao mesmo círculo. Você pode simplesmente mudar a posição dele. Ele pode estar virado para baixo ou virado para cima. Imagine, por exemplo, uma bola colorida. A parte de cima é vermelha. A parte do meio é azul. A parte de baixo é branca. Você pode colocar a parte branca para cima e dizer: “Bom, agora a parte de cima é branca. Então vou começar por aqui.” Mas, na verdade, isso é apenas uma questão de posição. Só porque a parte branca está em cima não significa que ela seja mais importante do que a parte que estava embaixo. Se você furar a bola embaixo, ela vai esvaziar. Se furar em cima, também vai esvaziar. Não faz diferença. A bola esvazia de qualquer maneira. Portanto, a parte de cima é apenas uma coincidência. Por acaso, a bola está posicionada daquela maneira e a parte branca está em cima. É só isso. Não existe nada de especial nisso. Da mesma forma, no Ocidente, as pessoas podem ter mais interesse em samādhi.

No Oriente, as pessoas podem ter mais interesse em sīla e dāna. Tudo bem. Em alguns lugares, como no Sri Lanka, pode haver maior interesse por livros e pelo estudo teórico do Dhamma. Não importa. No final das contas, todos precisam realizar o mesmo trabalho. Todos precisam expandir sua prática e incorporar os demais aspectos. Não dá para permanecer apenas de um lado. Todo mundo tem o mesmo trabalho a fazer: expandir e incorporar os demais aspectos do Nobre Caminho Óctuplo e desenvolver uma prática mais integral e completa. Mesmo que você tenha mais facilidade com um aspecto do que com outro, isso não muda o fato de que os demais aspectos também precisam ser desenvolvidos. Era só isso.

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