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Relação entre Prazeres sensoriais e violência no mundo

Posted on 30/10/202630/10/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Da maneira como o mundo atual é — o que significa dizer, da maneira como as pessoas atualmente são —, você pode quase sempre contar que prazeres sensuais estarão associados à violência. A busca por prazeres sensuais, o deleite em prazeres sensuais, estão sempre vizinhos da violência. Isso porque as pessoas desejam prazeres sensuais e não têm muito apreço pelos prazeres que vêm da mente nobre, da mente bem feita, da mente saudável, da bondade, da sabedoria.

Então, havendo desejo por prazeres sensoriais e não havendo apreço por sabedoria e bondade — e existindo, fisicamente, o acesso aos prazeres sensoriais através do corpo —, a receita é perfeita para a violência. Quando as pessoas roubam, elas roubam para isso: roubam para poder consumir prazeres sensuais. Roubam celular na rua, com agressão, e quando é diretamente violência sexual, é diretamente isso. Em 99% dos casos, está sempre vinculado a isso — ao desejo por experienciar prazeres sensoriais.

Isso quer dizer prazer dos ouvidos, do paladar, do olfato, da visão ou prazer mental. Prazeres que a mente produz, vinculados a bens materiais, vaidade, orgulho ou simples possessividade também. As pessoas gostam de ter por que dá prazer a elas saber que têm aquele objeto; isso as deixa felizes, dá uma sensação boa.

Muitos desses objetos são desenhados para gerar um prazer sensorial. Como exemplo, ter um automóvel: ele é desenhado tanto para gerar um prazer sensorial visual como também do toque, da sensação quando você dirige — a vibração do motor, o som, a sensação de peso na estrada conforme você vai manobrando o carro. Há carros desenhados especificamente para isso, alguns carros esportes, para dar uma sensação agradável à pessoa.

Não é algo apenas para transportar uma pessoa. Ele é feito para dar tanto uma sensação de vaidade como uma sensação de prazer visual e de prazer auditivo — algumas das marcas mais famosas se preocupam com o barulho que o motor faz. Ou então a sensação física do peso, quando o carro faz curvas e você tem aquela sensação de estar grudado ao chão, ou então quer derrapar um pouco mais, velocidade, freio, com o interior do carro todo decorado com material específico. Tudo isso é um prazer sensorial, tudo isso são formas de dar prazer à pessoa que compra aquele carro.

Os Tipos de Violência e o Dinheiro como Ferramenta

É óbvio que existe a violência física, a agressão. Mas também existe a violência econômica, a violência política, a violência de enganar os outros — não sei que tipo de violência se chamaria essa. Mas enganar alguém é uma violência: você está tirando algo daquela pessoa, está tomando algo que não lhe pertence. É muito parecido com roubar. Se você engana uma pessoa ao fazê-la pagar por um negócio que ela não precisava ter pago, é muito parecido com roubar — você tirou algo que não lhe pertencia, separou a pessoa daquilo que era dela e tomou para si mesmo por desejo. Desejo de comprar prazeres sensoriais, desejo de comprar estímulos sensoriais.

Por isso o dinheiro é uma coisa tão cobiçada. O dinheiro é uma carta coringa: com ele você pode comprar qualquer prazer sensorial. Antigamente as pessoas trocavam bens materiais — trocavam um quilo de arroz por um quilo de sal. Aquele arroz vai dar um prazer chamado paladar; vai dar nutrição, é óbvio, mas também vai dar um prazer de paladar. Se você trocar uma peça de ouro, por exemplo, vai dar um prazer visual — um enfeite, um vaso feito de ouro. Ninguém vai se preocupar em usar um vaso de ouro para colocar água; geralmente é mais um enfeite.

Mas o dinheiro serve para qualquer coisa. Você pega o dinheiro e compra o prazer que quiser, na hora que quiser. Na hora, ele se transforma em prazer. Se você estiver com fome, compra comida. Se quiser ouvir uma música, compra — antigamente você comprava um disco; hoje em dia compra uma assinatura de algum serviço para ouvir música. Se quiser assistir a um filme, vai ao cinema; se quiser ouvir música, vai ao show. E em tudo você lida com dinheiro. Ele está disponível, é uma ferramenta excelente para obter prazeres sensoriais: casa, carro, roupa, comida, sexo, viagens — tudo isso é dinheiro. O dinheiro é a chave para obter todos esses prazeres.

E vira também poder. Vira cirurgia plástica, salão de beleza, academia, roupas, saúde — tudo isso passa por ter dinheiro. Então o dinheiro acaba virando objeto de desejo da nossa sociedade atual. As pessoas querem dinheiro desesperadamente.

Aí surge aquela frase em inglês, meio famosa — não sei se no Brasil falam tanto assim: “o dinheiro é a raiz de todos os males”. Ou aquela outra: “o dinheiro faz o mundo rodar”. Mas não é bem isso. Na verdade, é o desejo — desejo por estímulos sensoriais, por prazeres sensoriais. O dinheiro é apenas a ferramenta moderna, inventada recentemente, para disponibilizar esses prazeres.

Como falei, é uma carta coringa: com ele você obtém qualquer um deles — qualquer prazer do paladar, do ouvido, da visão, mental, do tato. Qualquer prazer que você queira comprar, você compra com dinheiro. Mas o dinheiro em si não é nada. É apenas uma coisa para facilitar as trocas de mercadoria, uma ferramenta de facilitação. A chave não é ele; a chave é o desejo — o desejo que existe na mente das pessoas, o desejo de experienciar prazeres.

Dualidade Prazer-Dor e a Natureza Insaciável dos Prazeres Sensoriais

Mas se você olhar e seguir a trilha mais adiante, na verdade não é o desejo que é a chave. É a dualidade: prazer (sukha) e dor (dukkha).

Quanto mais as pessoas experienciam prazeres, mais dor elas experienciam. Isso quer dizer que, para um ser humano que não tem sabedoria — uma pessoa normal de hoje em dia —, o que ela conhece como mecanismo para aliviar o sofrimento é buscar os prazeres sensoriais. Então, quanto mais dor ela experiencia, mais desejo por prazeres sensoriais ela tem.

Se uma pessoa não experienciar nenhum tipo de dor, ela também não terá nenhum tipo de prazer; não terá desejo por prazer, terá um bem-estar. Mas não terá desejo pelo prazer. Ainda mais quando o tipo de prazer buscado — os prazeres sensoriais — eles mesmos acabam causando mais dor. Então, na verdade, a pessoa teria até aversão a prazeres sensoriais se estivesse realmente bem. Supondo que a pessoa estivesse perfeitamente feliz, os prazeres sensoriais seriam repulsivos para ela.

Porque, apesar de terem um pouco de prazer, eles também vêm com a dor associada. Tanta dor para obter esses prazeres, que requerem preocupação, trabalho e esforço. E a natureza deles é impermanente: eles não se mantêm. Não importa quão agradável seja a sensação, eles não se sustentam; não há como repeti-los infinitamente. Depois de três ou quatro vezes, ficam monótonos, ficam irritantes, e aquilo que era prazer vira dor se você repete frequentemente. Há também a natureza da impermanência, da instabilidade do mundo: aquilo que antes trazia prazer se transforma e vira dor.

Por exemplo, o rosto agradável, o rosto belo da nossa juventude: ele vai mudando e chega uma hora em que agora gera vergonha e nojo. A pessoa fica com raiva de si mesma. Seu rosto está feio, e agora não é mais bonito; então ela sente vergonha do próprio rosto. Aquilo que era fonte de alegria, de vaidade, de prazer, agora vira fonte de vergonha. Então as pessoas tentam esconder, pintam, puxam, esticam, plastificam, injetam, fazem tudo para tentar esconder aquilo que está feio. Têm vergonha, têm aversão ao próprio rosto. O rosto dá um desprazer; olhar para si mesmo dá uma sensação de aversão, de vergonha. Então aquilo que dá prazer é algo que acaba virando dor.

Há a impossibilidade de sustê-lo: você não consegue manter aquele estímulo para sempre. Mesmo que consiga mantê-lo para sempre, depois de um tempo ele passa a ficar irritante — mesmo que fosse o exato mesmo estímulo de antes. Hoje em dia a música está gravada num mecanismo, então vai ser sempre a mesma música; a guitarra nunca vai ficar desafinada. Mas ainda assim ela passa a ser irritante: antes era agradável, e na vigésima vez que você ouve a música, ela começa a irritar, começa a agredir, começa a doer.

Terceiro: mesmo que você consiga mantê-lo de maneira constante, supondo que ele não fique irritante por alguma razão, ainda assim aquilo que era a sua fonte de prazer muda. O exemplo mais óbvio é o rosto da gente na nossa juventude. Mas mesmo o aparelho de som, eventualmente, quebra. Hoje em dia acho que não é tão progressivo como antigamente — a fita cassete ia ficando abafada, ia ficando com chiado, e o disco começava a pular; hoje em dia ele vai aos poucos quebrando, estragando. Mas ainda assim, aquilo que era a sua fonte de prazer agora é uma fonte de pesar: “quebrou o meu rádio”, “quebrou o meu aparelho que tocava a música”. A pessoa sente pesar. Por quê? Porque tudo é impermanente (aniccā).

Perspectiva Meditativa: Do Êxtase ao Nibbāna

Então, se a pessoa tivesse bem-estar interior, esse tipo de prazer seria algo sujo para ela: “puxa, não quero experienciar isso”. Ela sentiria aversão.

Mesmo com meditação, você pode enxergar isso um pouco, dependendo de quanto avança com a sua prática. Por exemplo, você passa por uma experiência de êxtase muito forte. A primeira vez parece algo fantástico, maravilhoso: “não tem nada melhor nesse mundo, essa é a coisa mais incrível que experimentei na minha vida”. Mas se você repete aquilo com frequência e vai notando, começa a perceber que é uma queimação, uma irritação na mente. Aí você consegue adiantar um pouco mais a sua prática e diferenciar uma coisa mais pacífica. Aí aquele êxtase parece algo grosseiro: “não quero experienciar mais isso; aquela sensação de paz é muito mais agradável, é tranquila, não tem essa característica de queimação”. E assim por diante.

Aí começam a entrar aqueles níveis bem surreais dos suttas que o Buddha fala: a percepção de formas — a percepção de formas internamente, mas não percebendo formas externamente; a percepção de que o espaço é infinito; a percepção de que a mente é infinita; a percepção do nada; a percepção da nem-percepção, nem-não-percepção. O negócio vai entrando num nível: “meu Deus, o que é isso?” Quando vai ficando cada vez mais sutil, a percepção de formas começa a irritar a mente. “Se eu parar de fazer esse truque de definir coisas — definir que isso é um objeto, aquilo não é um objeto —, se eu parar de fazer isso, fica ainda mais pacífico.”

A percepção de que o espaço é o vazio — outra forma de dizer isso é a percepção de espaço infinito: é tudo vazio, não há forma nenhuma. Mas se você não cria a percepção de formas, então é como se não soubesse que nenhum objeto físico existe; então somente não percebe. É vazio, tudo vazio. Isso é mais tranquilo. Na verdade, ainda é uma interpretação; a mente é que está percebendo tudo isso. Você para de interagir com o mundo fora. Antes, o estágio anterior era “o espaço é infinito”. Aí você dá mais uma ajustadinha: “não, a mente é infinita”. Mas não sei — estou só especulando, interpretando o que está nos textos; não tenho esse tipo de experiência. Mas dá para imaginar como é. Só vai ficando cada vez mais refinado, vai parando de construir de uma maneira mais sutil, até um ponto em que não cria mais a ideia de espaço, nem a ideia de mente infinita. Abandona a ideia de mente. Não percebe nada. Nem a percepção, nem a não-percepção.

É uma coisa que não tem como a mente tentar adivinhar o que é. Até aquele ponto que o Buddha chamou de *Nibbāna*. A coisa para de queimar. Dá para dar uma ideia: quando falei da parte mais grosseira, *pīti*, o êxtase, você começa a perceber essa característica de queimação — é a mesma coisa agradável, mas tem uma queimação por trás. Imagine a pessoa ir até o ponto em que acaba todo e qualquer queimação: é *Nibbāna*. Não queimação, não queimar. *Nibbāna*. Caramba. Deve ser muito sutil. Ele dizia: *Nibbāna*, *paramaṃ sukhaṃ* — Nibbāna é a felicidade suprema.

O Relato de Luan Por Piak e a Grande Compaixão

Mesmo Luan Por Piak relata essa experiência: quando, na noite em que resolveu permanecer com o monge, decidindo que não ia mais voltar para a vida laica, a mente dele ficou pacífica de tal forma que, quando emergiu daquele estado de *samādhi*, a ideia que surgiu espontaneamente em sua mente foi: “nem que as pessoas trouxessem uma montanha de ouro e colocassem na minha frente, eu não trocaria essa experiência nem por uma montanha de ouro”. Nada nesse mundo que o mundo possa me oferecer me convenceria a abrir mão desse bem-estar.

Então dá uma ideia de que tipo de experiência esses mestres têm, que tipo de experiência um Arahant, o Buda, experiencia. E aí ele decide, por compaixão, ensinar as demais pessoas. Gostaria que as demais pessoas pudessem experienciar isso. É algo que realmente gera — uma experiência tão agradável como essa deve realmente gerar uma sensação de compaixão muito grande. Quanto mais maravilhoso, mais vontade você tem de que as pessoas experienciem isso. Mahā karuṇā, a grande compaixão, o grande compassivo — a grande compaixão do Buddha provavelmente também está vinculada a isso.

E aí você vê como, quanto mais a mente da pessoa se inclina em direção a esse tipo de felicidade, mais a mente da pessoa se afasta da violência, da agressão.

Os Preceitos Morais como Par Perfeito

Então os preceitos morais cabem perfeitamente: são o par perfeito para esse tipo de desenvolvimento da mente. Os preceitos morais são um fardo para quem deseja prazeres sensoriais, porque limitam as suas ferramentas de obter prazeres sensoriais. Mas se você abandona os prazeres sensoriais, os preceitos morais são perfeitos, não incomodam nada. Eles só me proíbem de fazer mais coisas — me proíbem de comer cocô. Ótimo, eu não queria comer mesmo; justamente não estava querendo comer, e agora que você me proibiu, está melhor ainda. Não incomodam nada.

É um par perfeito, dá uma estrutura perfeita para a pessoa existir no mundo de maneira pacífica e tranquila. Mas é um incômodo para quem quer prazer sensorial. Então os cinco preceitos, ou os dez, ou os oito — cinco, oito, dez, duzentos e vinte e cinco, vinte e sete — criam uma barreira, e a pessoa fica ali se esfregando contra aquela barreira, sentindo atrito. Queria passar, mas a barreira está ali. Gera uma certa queimação, um certo atrito, um certo desconforto.

Mas a pessoa sábia, que pelo menos tem boa vontade, pode tomar esse atrito como um ponto de referência. Há aquela história, vinculada a outros instrumentos do Buda, em que ele diz: alguém que te aponta um defeito deveria ser tratado como um grande amigo que te apontou um tesouro escondido. Porque, se a pessoa tem boa vontade, ela quer melhorar; então, quando você vê um defeito, aquela é uma oportunidade de trabalhar. Porque um dos maiores obstáculos é justamente essa falta de visão. Às vezes as pessoas vêm falar comigo, pedir conselho — é incrível como as pessoas não enxergam. Está óbvio, está bem ali, e a pessoa não enxerga. Você aponta: “não, não, isso não”. “É assim, está aqui.” “Não, imagina.” Mas se a pessoa está pegando fogo lá, eu estou sentindo uma queimação: “você está em chamas”. “Não, não, não.” “Mas eu estou vendo, você está em chamas.” “Ah, que bobagem, deve ser outra coisa, deve ser um negócio que eu comi.” As coisas às vezes são bem ridículas.

Mas se a pessoa tem boa vontade, quando ela enxerga algum defeito, se ela tem algum problema — que bom. Por mais que enxergar um defeito seja desagradável, como falei, a chave é justamente essa boa vontade. Se a pessoa tem boa vontade, por mais desagradável que seja enxergar um defeito, para aquele desejo de melhorar, enxergar um defeito é uma oportunidade. Então: “que bom, que bom que enxerguei um defeito agora, posso trabalhar nisso”. Porque ela entende que um dos maiores obstáculos é a falta de visão, a cegueira.

É como uma pessoa cega — completamente cega. Aí você faz uma operação nela para que possa enxergar, só que bem de frente está um chiqueiro. Você liga o aparelho: “pronto, agora você pode ver”. Ela vai ver um monte de cocô, aqueles porcos fedidos. Ainda assim ela vai ficar feliz, porque pelo menos está vendo. Por mais que seria melhor que fosse uma paisagem agradável — tudo bem, eu olho o chiqueiro, mas pelo menos curou a minha cegueira. Porque os mesmos olhos que conseguem enxergar o chiqueiro conseguem enxergar a paisagem. Então vamos uma coisa de cada vez: primeiro curar a cegueira, depois a gente olha a paisagem. Vamos começar pela cegueira. Se a pessoa consegue enxergar, ela já tem pelo menos essa felicidade: “puxa, consegui enxergar algo que estava escondido, e agora tenho a oportunidade de abandonar, de corrigir esse mau hábito”.

O Atrito dos Preceitos Revela o Desejo e a Raiva

Então os preceitos também criam atrito, criam desconforto. Mas você olha esse atrito, olha esse desconforto e percebe: isso não é causado pelos preceitos, é causado pelo desejo, é causado pela raiva. A minha raiva quer agredir as pessoas, mas os preceitos me proíbem agredir. Então, se não abandono os preceitos, abandono a raiva. Meu desejo é obter tal coisa, então vou contar essa mentirinha aqui para poder obter aquilo que quero — mas os preceitos não permitem mentir. Se abandono o desejo de obter aquilo que queria, não abandono a prática dos preceitos.

Os preceitos servem como um excelente ponto de referência: expõem aquilo que é escondido. Então, para uma pessoa que tem essa boa vontade, os preceitos são uma bênção. Me ajudam, facilitam o trabalho de purificar a mente, porque vão demonstrando: sempre que você enxerga atrito, aqui tem algo para trabalhar. Você treina abandonar o desejo, treina abrir mão, desapegar. Treina, ensina a sua mente a sentir contentamento. Ensina a sua mente a abrir mão daquilo que ela queria. Ensina a sua mente a abrir mão das suas opiniões — muitas dessas más ações que a gente comete estão vinculadas a uma opinião, estão embasadas por uma opinião. Mas se aquela opinião me leva a agredir, me leva a mentir, me leva a roubar, essa opinião está errada. Não importa quanto ela pareça correta, quanto ela pareça fazer sentido.

Os preceitos dão esse ponto de vista: claro, é o preto no branco. Você não quebra os preceitos, é só isso. Já as opiniões: “veja bem, mas talvez sim, talvez não”; “você olha nesse ponto de vista, mas nessa outra cultura é aceitável, depende da sociedade”. Já os preceitos, não: é isso aqui. Você não rouba, você não agride, você não mata, você não fala mentiras, não intoxica a mente. É muito simples.

As pessoas só conseguem complicar isso quando têm desejo (*chanda*). Você começa: “não, veja bem, mas se eu tomar e não ficar embriagado…” Se as pessoas abandonassem o desejo, seria muito simples. Se você não abandona o desejo, você vai: “veja bem, se eu matar — assim — se eu só colocar a armadilha mas não empurrar a pessoa na armadilha, tudo bem”. Você começa a ficar cutucando, tentando achar uma maneira de obter aquilo que quer. Mas não é essa a maneira de praticar os preceitos. A maneira de praticar os preceitos é abandonar: abandonar os desejos, abandonar a raiva, desenvolver humildade, abrir mão das suas opiniões quando essas opiniões levam à maldade. Então você abre mão da sua opinião, renuncia, recua. Assim fica fácil seguir os preceitos.

Reflexão sobre a Violência na Época Atual

Refletir sobre essa questão da violência acho que é muito interessante também. A época atual é época de eleição, está tudo muito agressivo: violência verbal, violência física, violência econômica, violência política, violência ideológica. As pessoas humilham umas às outras com a sua ideologia, humilham, agridem. O ambiente é tóxico. Mas por trás de tudo isso não está certo e errado. O que está por trás de tudo isso não é a pessoa estar agredindo outra porque “estou certo e você está errado”. O que está por trás é desejo por poder, desejo de estar certo, a sensação de estar certo. Quando se fala de político, ele quer fama e poder — é só uma forma de obter prazer, pelas coisas que cobiça. Atrás de tudo isso tem o desejo e o prazer. Atrás disso estão as kilesās (impurezas mentais).

Sempre é bom estabelecer alguns pontos de referência para estar no mundo atual e ter compreensão do que está acontecendo. Ajuda a desmistificar o que está acontecendo no mundo. As pessoas complicam para justificar a sua maldade, complicam para satisfazer o desejo de ser superior, justificando assim a maldade. Se a coisa é simples, não há como complicar. Simplificar é bom para que fique mais claro.

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