Ven. Kiribathgoda Gnanananda Thero
Raro é nascer Humano
Temos a capacidade de desenvolver ações meritórias dentro de nós. Se não seguirmos o Dhamma nesta vida, essa capacidade de desenvolver Ações meritórias desaparecerá. Se não desenvolvermos essa capacidade, ela desaparecerá.
Aqui está um exemplo para refletir. Quando ações meritórias foram feitas numa vida passada, podem dar resultados positivos em muitas vidas futuras. Algumas ações até darão resultados de renascer como humano por até sete vidas consecutivas. Agora, todos nós vivemos neste mundo humano. Para renascermos como humano, deve ter havido ações meritórias feitas em nossa vida passada que nos ajudaram.
Portanto, nunca se deve desacreditar a importância dos méritos a serem feitos. Claramente, renascemos como seres humanos devido a méritos anteriores. Algumas pessoas dirão: “Não há necessidade de acumular méritos, basta apenas fazer ações saudáveis.” Essas pessoas acumularão vastas quantidades de deméritos ao negligenciarem as ações meritórias. Renascemos no mundo humano nesta vida. Digamos que também tenhamos nascido no mundo humano antes desta vida.
Suponhamos que, devido a ações meritórias realizadas no passado, tenhamos renascido no mundo humano seis vezes seguidas, e esta vida é o sétimo nascimento consecutivo como humano. Isso significa que este será o último nascimento humano resultante desses méritos anteriores.
Se todos os méritos anteriores foram usados neste nascimento e novos méritos não foram acumulados, então onde acabaríamos na próxima vida? Acabaríamos num dos quatro destinos ruins. Plano dos titãs (tipo anjos briguentos), Plano dos Fantasmas famintos (têm pescoço fino, e não podem comer), Plano do reino Animal (nascer um animal, pode ser um gafanhoto ou um elefante) e o Plano dos Infernos (estados de sofrimento, com lava e fogo, que não queimam, mas sentes como se fosse fogo de verdade)
Nesse caso, quando teríamos a oportunidade de voltar ao mundo humano?
Quando renascemos num mundo inferior, a capacidade de acumular méritos é impossível. Pense nestes fatos com muito cuidado! Quando a maioria das pessoas morre, os seus méritos chegaram ao fim e não acumularam quaisquer novos méritos para o nascimento futuro. Não há méritos suficientes para renascer como humano.
Essa pessoa acabará como fantasma faminto, animal, titã ou no inferno como um ser infernal. Nesses mundos, ele não terá qualquer oportunidade de acumular méritos. Terá ele a oportunidade de voltar ao mundo humano novamente?
Esta é a razão pela qual o Buda Supremo pregou que não é fácil renascer como humano depois de cair num destino ruim. O Buda ensinou sobre uma tartaruga de um olho só que vivia no fundo do grande oceano e subia à superfície da água apenas uma vez a cada 100 anos. A probabilidade de essa tartaruga subir à superfície e olhar para o céu através de um pequeno buraco num colar de madeira flutuante é maior do que a de nascer como um ser humano.
O que isto significa? Significa que estamos a morrer e a deixar o mundo humano sem mais méritos para levar para o próximo nascimento. Basta olhar para este mundo humano! Os humanos estão a acumular méritos dia e noite?
As pessoas realizam continuamente ações não saudáveis através do corpo, da fala e da mente, e acumulam deméritos. Não restam novos méritos para o nascimento futuro. Esse é o perigo! Os méritos passados para nascer como humano nesta vida amadureceram e chegarão ao fim. As faculdades sensoriais, usadas ou não usadas, também não serão deixadas (para nascimentos futuros). As faculdades espirituais têm a mesma natureza. Se não forem usadas, também desaparecem e se extinguem.
Mencionei antes, o fantasma que tinha um corpo longo com rosto de porco e uma boca cheia de vermes. Se esse ser fantasmagórico não tivesse cometido más ações na sua vida passada, poderia ter tido a oportunidade de alcançar algum tipo de realização espiritual naquela vida. Em vez disso, caiu no inferno e no mundo dos fantasmas. Esta é a triste realidade.
Embora vivamos juntos como humanos, estamos a viajar individualmente nesta jornada. Em algum momento desta longa jornada do saṁsāra, encontraremo-nos novamente.
Certa vez, o Rei Milinda questionou o Arahant Nāgasena Bhante sobre o encontro entre o Buda Supremo e Devadatta. O rei perguntou se o encontro entre o Bodhisatta e Devadatta acontecia frequentemente nesta jornada do saṁsāra. O Arahant Nāgasena Bhante disse que não acontecia com muita frequência. Encontravam-se apenas de vez em quando. Durante o resto das suas vidas, o Bodhisatta (antes de se tornar Buddha) estava a cumprir os pāramī para alcançar o estado de Buddha.
A partir disto, podemos compreender quão longa é a jornada do saṁsāra. O Buda Supremo podia ver com sabedoria que mesmo uma pessoa que possuía fortes faculdades espirituais para compreender o Dhamma tinha o potencial de as perder, sem alcançar o Caminho.
Um caso semelhante aconteceu com o Rei Ajātasattu. Embora as suas faculdades espirituais para se tornar um entrante da correnteza (Sotāpañña) estivessem maduras, devido a sua associação com um amigo mau, perdeu a oportunidade de compreender o Dhamma.
Da mesma forma, há muitas pessoas que perdem a oportunidade de acumular méritos devido a visões erradas. Dizem: “Não precisamos de méritos; faremos apenas ações saudáveis.” No fim, essas pessoas acumularam apenas deméritos, com pouco mais alcançado.

