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Nossa prática e o ensinamento (Dhamma)

Posted on 17/08/202617/08/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Chah

“A razão fundamental para estudar o Dhamma — os ensinamentos do Buda — é buscar um meio de transcender o sofrimento e alcançar a paz e a felicidade. Quer estudemos fenômenos físicos ou mentais, a mente (citta) ou seus fatores psicológicos (cetasikā), é somente quando fazemos da libertação do sofrimento o nosso objetivo supremo que estamos no caminho certo; nada menos que isso. O sofrimento tem uma causa e condições para a sua existência.

Por favor, compreenda claramente que, quando a mente está imóvel, ela se encontra em seu estado natural e normal. Assim que a mente se move, ela se torna condicionada (saṅkhāra). Quando a mente é atraída por algo, ela se torna condicionada. Quando surge a aversão, ela se torna condicionada. O desejo de mover-se daqui para ali nasce do condicionamento. Se a nossa consciência não acompanhar essas proliferações mentais no momento em que ocorrem, a mente as perseguirá e será condicionada por elas. Sempre que a mente se move, naquele instante, ela se torna uma realidade convencional.

Por isso, o Buda nos ensinou a contemplar essas condições oscilantes da mente. Sempre que a mente se move, ela se torna instável e impermanente (anicca), insatisfatória (dukkha) e não pode ser tomada como desprovida de um “eu”(anattā). Essas são as três características universais de todos os fenômenos condicionados. O Buda nos ensinou a observar e contemplar esses movimentos da mente.

O mesmo ocorre com o ensinamento da originação dependente (paṭicca-samuppāda): a ignorância (avijjā) é a causa e a condição para o surgimento das formações volitivas karmicas (saṅkhāra); que, por sua vez, são a causa e a condição para o surgimento da consciência (viññāṇa); que é a causa e a condição para o surgimento da mentalidade e da materialidade (nāma e rūpa), e assim por diante, tal como estudamos nas escrituras.

O Buda separou cada elo da corrente para facilitar nosso estudo. Essa é uma descrição precisa da realidade, mas, quando esse processo realmente ocorre na vida cotidiana, os estudiosos não conseguem acompanhar o que está acontecendo. É como cair do topo de uma árvore e despencar até o chão: não temos ideia de quantos galhos passamos durante a queda.

Da mesma forma, quando a Mente é subitamente atingida por uma impressão mental, se ela se compraz nela, então se deixa levar por um bom humor. Ela a considera boa sem estar ciente da cadeia de condições que levou a isso. O processo ocorre de acordo com o que está delineado na teoria, mas, simultaneamente, vai além dos limites dessa teoria. Não há nada que anuncie: “Isto é delusão. Estas são formações volitivas do kamma, e aquilo é a consciência”.
O processo não dá aos estudiosos a chance de recitar a lista enquanto ele acontece a sua frente.

Embora o Buda tenha analisado e explicado a sequência de momentos mentais com detalhes minuciosos, para mim isso se assemelha mais a cair de uma árvore. Enquanto despencamos, não há oportunidade de calcular quantos pés e polegadas já caímos. O que sabemos é que atingimos o chão com um baque e que dói! Com a Mente ocorre a mesma coisa.

Quando ela se deixa levar por algo, do que temos consciência é da dor. De onde vieram todos esses sofrimentos, dores, pesares e desesperos? Eles não vieram de uma teoria em um livro. Não existe lugar algum onde os detalhes do nosso sofrimento estejam registrados. Nossa dor não corresponderá exatamente à teoria, mas ambas percorrem o mesmo caminho. Portanto, o estudo teórico, por si só, não consegue acompanhar a realidade. É por isso que o Buda nos ensinou a cultivar, por nós mesmos, o conhecimento claro.

O que quer que surja, surge dentro desse conhecimento. Quando aquilo que conhece, conhece de acordo com a verdade, então a mente e seus fatores psicológicos são reconhecidos como algo que não nos pertence. Em última análise, todos esses fenômenos devem ser descartados e lançados fora como se fossem lixo. Não devemos nos apegar a eles nem atribuir-lhes qualquer significado.”

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