Palestra Ajahn Mudito
Fui a uma conversa entre dois historiadores que estavam discutindo um assunto. Um deles falou: será que as pessoas, será que as sociedades estariam melhores se não houvesse história — ou melhor, se a história fosse apagada? As pessoas estariam melhores ou piores? A ideia por trás disso é que muitas guerras, muita violência e a criação de inimizades existem porque as pessoas se apegam ao passado. Veja o exemplo da Irlanda. Isso é algo que vai se propagando, progredindo através dos tempos. As pessoas vão retomando aquela briga por séculos. Ficam vingando coisas que não aconteceram com elas. Coisas aconteceram com outras pessoas que viveram no passado, e a pessoa no presente pega aquilo e diz: “Isso é meu, é a minha história. Eu fui ofendido, eu vou me vingar.” Mas não foi você; na verdade, foi uma pessoa lá atrás, há duas gerações. Então as pessoas ficam retomando, tomando para si aquela dor, e assim vão prosperando, propagando e promovendo aquela violência, dando continuidade a ela.
A ideia seria: não seria melhor se não houvesse história, se não lembrássemos a história? Ouvi isso e pensei: caramba, até que ponto as pessoas se distanciam do assunto. É uma proposta bastante irrealista. Não tem como apagar a história, todos sabem disso. Mas podemos pensar que já houve sociedades no passado que tentaram. Nos países comunistas, é muito comum essas histórias: eles tentam manipular a história e dizer o que querem. Hoje em dia mesmo, na Coreia do Norte, você vê como eles manipulam tudo. Então existe um esforço — ainda hoje existe, e a Coreia do Norte é um bom exemplo. Os países comunistas do passado também passaram muito tempo tentando apagar e manipular a história. Os Estados Unidos, depois da guerra civil, tiveram aqueles estados que eram a favor da escravidão. Esses estados conseguiram lavar a história e distorcer tudo, passando a ideia de que estavam lutando por outra coisa, quando na verdade lutavam para continuar a escravidão. Depois que perderam a guerra, conseguiram distorcer a história e passar um pano branco por cima. Foi uma campanha que teve sucesso. Então não é impossível apagar ou distorcer a história.
Foi então que me ocorreu uma ideia. Ninguém menciona a Mente. As pessoas acham que, para resolver o problema da violência, devemos perder a capacidade de lembrar o passado. Ninguém pensa: “Bom, e se eu conseguisse lembrar o passado e ainda assim não me tornar uma pessoa violenta?” Ninguém pensa nisso. A ideia não ocorre às pessoas porque elas estão tão distanciadas da mente. Em termos práticos, elas vivem como se não houvesse nada a ser feito. “A gente é do jeito que é e não há nada a ser feito.” É como uma pessoa jogada no rio ou no mar, e não lhe ocorre que ela pode nadar. Ela pensa: “Bom, estou aqui no mar, então tenho que ficar à mercê das correntezas. Se eu me jogar para o oceano, vou para o oceano, e o oceano me joga para a praia; vou para a praia e faço o quê? Não há nada que se possa fazer.” Mas não lhe ocorre que ela tem braços e pernas. Ela poderia fazer um esforço para nadar, poderia esperar a hora certa, poderia observar o ciclo da maré e ver qual é o momento apropriado, quando vale mais a pena fazer esforço. Isso não ocorre às pessoas. E essas são pessoas estudadas, são doutores, professores de faculdade, historiadores — e não lhes ocorre que existe uma Mente. Que, na verdade, a Mente é a chave de tudo.
As pessoas estão dispostas a especular sobre apagar a história, mas ninguém pensa: “E se eu pudesse desenvolver essa minha mente? E se eu desenvolvesse essa sabedoria de forma que, mesmo lembrando o passado, mesmo ciente do que ocorreu, eu não deixasse essa memória se tornar rancor? Eu tenho inteligência suficiente, sabedoria suficiente para fazer contato com o passado e não deixar minha mente reagir automaticamente, seguindo cegamente.” Isso não ocorre. As pessoas não entendem que existe uma mente, ou não acreditam que essa mente possa ser melhorada. Simplesmente dizem: “Bom, é assim mesmo, fazer o quê?” E não são pessoas tolas; são pessoas inteligentes, com mestrado, doutorado, experts nesses assuntos. Não é falta de raciocínio, é falta de contato com o assunto. As pessoas não fazem contato, então não entendem que existe algo que pode — e deve — ser melhorado.
Então é realmente como Luang Por Lian fala: a escuridão é a coisa mais assustadora neste mundo. Mas não é escuridão no sentido de falta de luz. É a escuridão de *avijjā*, a ignorância. O Buddha dizia que não há nenhuma correnteza tão forte como a correnteza dos desejos. Mas eu acho que o Tempo poderia dizer — não sei se me lembro dele ter dito isso, mas acho que seria apropriado também dizer: não há escuridão tão escura como a escuridão da ignorância. É realmente impressionante. Pessoas existem, funcionam, têm nome, têm braços, têm pernas, mas não conseguem perceber a presença da Mente. Elas a usam, é como um peixe dentro d’água. O peixe andando dentro d’água não enxerga que ali tem água; ela simplesmente fica invisível para ele. Mas, na verdade, ele está imerso. As pessoas também. O que define a sua existência é a própria mente. A Mente define a sua própria existência, e ainda assim as pessoas não enxergam a mente. Não estão cientes de que ela existe, não sabem do que se trata. Então tentam todos os tipos de coisas malucas para resolverem os problemas, e não lhes ocorre trabalhar onde está o problema.
Você me lembra também quando eu era garoto. Comecei a seguir os cinco preceitos. Parei de beber. Seguindo os preceitos, parei de beber. Lembro que fomos a uma festa, e uma moça veio me oferecer bebida. Eu falei: “Por que você não bebe?” Ela perguntou: “Você não gosta de beber? Você não quer beber?” Eu falei: “Não, eu não estou com vontade de beber, não quero mais beber, parei de beber.” Ela disse: “Mas beber é tão bom! Quando bebo, me sinto melhor.” Aí eu falei: “Você se sente melhor quando está bêbada? Tudo bem, eu vou tentar me sentir melhor sem estar bêbado.” Eu falei isso para ela, e veio aquele silêncio. Ninguém mais falou, a conversa morreu na hora. Eu disse: “E se eu conseguisse estar bem sem estar bêbado? Isso não seria melhor?” Silêncio. Aquela garotada toda falando, a conversa parou na hora, todo mundo ficou em silêncio. Ninguém tinha pensado nisso, a ninguém nunca ocorreu.
Esse pensamento nunca ocorreu. Então, se você pensar: por que as pessoas se sentem melhor quando estão intoxicadas? Porque elas ficam burras. Quando ficam burras, sentem-se melhor. Porque, quando estão em plena consciência, elas são horríveis: agridem-se com memórias, com expectativas, com desejos, com raivas e ofensas que foram feitas e que não foram feitas, pessoas que disseram e que não disseram, pessoas que disseram que não queriam, que disseram que queriam que fosse assim e não é, que queriam que não tivesse sido assim mas foi. As pessoas se agridem o tempo todo. Com impaciência, com tédio, com desejos, com raivas. Então, quando a mente é dolorosa, quando você intoxica a mente, ela fica burra — e fica melhor. “Que alívio! Parei de me agredir durante alguns minutos, que alívio!” Mas não é porque a mente ficou mais sábia; ela ficou mais burra. Para uma pessoa dolorosa, a burrice é um alívio. Para uma pessoa sábia, a burrice é sofrimento. Porque uma pessoa sábia, quando está com a mente normal, está bem. Claridade mental é sinônimo de bem-estar para uma pessoa sábia. Para uma pessoa doentia, a claridade mental é sinônimo de mal-estar. Então elas escolhem a cegueira, escolhem a ignorância.
É por isso que, dos cinco preceitos, existe o preceito de não intoxicar a Mente. As pessoas não entendem o que está sendo feito. Tem até professores de meditação que não entendem isso. Quando a pessoa só ensina esse tipo de *vipassanā*, *mindfulness*, é só um anestésico para a mente. Não chega a ter efeito real em termos de transformar a Mente. Então a pessoa não entende de que forma isso se conecta, não entende ainda, não explica, não tem a compreensão do que está sendo feito. Não intoxicar a mente — onde isso se conecta com o restante do que está sendo feito? Onde isso se conecta com essa percepção de responsabilidade pessoal e poder? “Eu sou capaz de melhorar a minha mente.” Essa é uma fé importantíssima. As pessoas têm que ter fé. “Eu consigo, é possível ser feito. A mente pode ser trabalhada.”
Essa pessoa entende essa capacidade de melhorar a mente e toma para si essa responsabilidade. Intoxicar a mente é insano, completamente maluco. Por que eu haveria de fazer isso? É o oposto do que estamos buscando. Então as pessoas não têm fé. As pessoas não têm fé, não têm compreensão. É pior do que não ter fé: as pessoas nem sequer consideram o assunto. Não lhes ocorre. Não passa pela cabeça delas: “Talvez eu pudesse melhorar a minha mente.” As pessoas preferem especular. Para essas pessoas, é mais factível especular sobre “será que não poderíamos apagar o passado?” — essa ideia tão abstrata, tão ridícula — do que pensar: “Será que não poderíamos melhorar a Mente aqui e agora?”
É um outro mundo isso. É como se nem ocorresse a elas que essa seja uma ideia viável. Mas essa pessoa entende esse assunto e tem a disposição, a humildade de botar a mão na massa. Não será demais, na verdade. Não será demais. É algo bastante simples, porque a mente não é um fenômeno físico. Então ela é totalmente maleável. E nem é um trabalho muito difícil ou muito doloroso se você tiver bom humor, humildade e boas qualidades mentais. Não será demais também. Mesmo que seja um fenômeno pegajoso — os maus hábitos mentais são pegajosos, são insistentes —, você consegue com bom humor, paciência, perseverança, inteligência e criatividade. Não é nada demais também; pode até ser divertido. Se você tiver uma atitude correta, é até divertido fazer esse trabalho. E quanto mais você faz o trabalho, mais você experiencia bem-estar. E é algo bastante visível e claro. Então não é algo que você vai fazer e só depois de morrer vai colher os frutos. Você consegue enxergar aqui e agora o resultado disso, o benefício de ter uma mente saudável. É interessante refletir sobre isso. Ver como você vê, como as pessoas existem e não enxergam. Como é perfeito o truque das kilesās.
Consegue enxergar a pessoa ao mesmo tempo que ela ainda enxerga? É uma coisa realmente fantástica. Como eu falo: os Arahants não têm nada demais, os Arahants são pessoas normais. Porque é incrível a nossa ignorância — isso sim é realmente incrível e fantástico. Os Arahants são normais, é só isso, não têm nada demais. Nós é que nos tornamos esquisitos a ponto de sermos pessoas incríveis. É uma coisa fantástica como conseguimos cegar a nós mesmos. Como conseguimos sabotar a nós mesmos e ainda assim existir. É algo que faz você dizer: é incrível que as pessoas estejam vivas, mas totalmente às cegas. Então é realmente curioso.
A ideia de tomar para si a responsabilidade vai contra a versão de ego que as pessoas construíram. Não é nem que vá contra o ego em si, sabe? Você poderia construir uma versão do seu ego em que isso seja ok. Mas as pessoas criaram uma versão de ego que não é compatível com essa ideia. Então não é impossível. Você pode ter uma existência em que esse fator é relevante. “Eu vou levar isso aqui como algo importante.” Dá para você fazer, gente, não é difícil fazer isso. Não vai ser compatível com a preguiça, com a comodidade, com a vaidade. “Tudo é culpa dos outros.” Essa vaidade, esse conforto de que “não é culpa minha, é culpa dos outros, é culpa deles” — não vai ser muito compatível com isso. Você vai ter que abrir mão desse prazer. Essa preguiça, essa vaidade de “eu estou certo e vocês estão errados, a culpa é de vocês, a culpa não é minha”. Vai ser incompatível com isso. Então as pessoas simplesmente não querem abrir mão. Ou também não têm fé em si mesmas. Não têm fé em si mesmas.
Mas se as pessoas estivessem pelo menos abertas à ideia. Se fosse possível as pessoas pararem e pensarem a respeito, refletirem. E, tendo refletido, tiverem a humildade de dizer algo como: “Eu consigo fazer isso.” Eu digo: a humildade de falar “eu consigo fazer isso” — não é vaidade, é humildade, porque a maioria das pessoas tem a vaidade de dizer: “Não, eu sou especial, eu sou muito ruim, sou diferente. Eu sou tão ruim que para mim não serve.” Então há uma certa vaidade: “Eu sou especial, eu sou especial em ser ruim. Mas ainda assim sou especial.” Ninguém diz: “Eu sou normal. É difícil, é chato, mas eu consigo fazer, como as pessoas normais conseguem fazer.” Não, no meu caso é especial, o meu caso é especial, no meu caso não dará certo.
Estava conversando com Luang Por Piak, também nessa viagem na Austrália, sobre esse negócio de gringo fazer perguntas. Perguntas que duram 10, 15 minutos para conseguir fazer uma pergunta: a pessoa fica explicando, explicando, e não faz a pergunta. E ficamos sentados esperando: quando é que virá a pergunta? Aí estávamos comendo e rindo sobre esse assunto. E tem esse negócio também das pessoas: “Não, o meu problema é especial, tem que explicar para você. Luang Por, você não sabe como é o problema, meu problema é diferente, vou te explicar.” Aí o Luang Por fica aceitando, nada de fazer a pergunta. É uma vaidade. É uma coisa assim, um ego. É uma coisa muito engraçada. Então tem essa vaidade: “O meu caso é especial, vou explicar para você porque você não vai entender, meu caso é muito diferente.”
Na verdade, você ouve o mesmo de sempre: confusão mental, vaidade, preguiça, medo. É o de sempre. As pessoas não entendem que elas são normais. Mesmo quando é para ser ruim, elas querem ser especiais. Elas não querem ser normalmente ruins, querem ser especialmente ruins. O ego é burro a esse ponto, veja só. O ego é burro a esse ponto. A pessoa se afunda mais só para poder ser especial, só para poder consumir a vaidade de ser especial. A pessoa prefere pular de cabeça. Está todo mundo na fossa, né? “Não, isso não está bom o suficiente, eu quero ser especial.” Ela pula de cabeça na fossa só para poder ser especial. Então as pessoas são assim.
Essa é a escuridão que o Luang Por Lian fala a respeito. A escuridão que é a coisa mais assustadora do mundo. Não há nada mais assustador do que a escuridão — a escuridão do ego, a escuridão da ignorância, *avijjā*, em linguagem Pāli. Por outro lado, se a escuridão é a coisa mais assustadora do mundo, então a visão é a coisa mais reconfortante do mundo, a que mais traz alento, segurança e bem-estar. É a visão.
Então, como falei, poderia ser tão simples. Imagine um local de guerra, com uma guerra passada de geração em geração. Aquela guerra, aquela violência, poderia parar num instante. As pessoas falam: “Chega! Tudo bem. Aquela pessoa fez aquilo. Eu não vou fazer nada.” Custaria só isso. As pessoas falam: “Tudo bem, não vou fazer nada a respeito.” Isso já quebra o ciclo. Demoraria um instante para acabar com a guerra. Essa guerra do Trump e o Irã: é só o cara falar “tá bom, deixa pra lá”. E pronto, acabou. Não tem nada ali. Não tem nada. É só o cara falar “deixa pra lá”, pegar os navios e vir embora. Acabou. Era só isso. Não há muito mais do que isso. É uma coisa criada, inventada. E é uma coisa que, se você simplesmente parar de inventar, deixa de existir. Não tem nada real. É só a invenção da cabeça das pessoas.
Então poderia ser simples assim, se as pessoas tomassem as rédeas de suas próprias mentes. Poderia ser simples. Poderia ser muito simples. Mas também há um outro lado dessa moeda. Há o lado da escuridão, mas há também o lado da luz. A escuridão está presente o tempo todo, mas a luz também está disponível o tempo todo. É como aquele desenho do Pica-Pau: “Não, doutor, não consigo enxergar meus olhos.” É só você abrir o olho. Abre o olho e está sem enxergar. Está curado, é só abrir os olhos. Você passou a seguir. Então, também é assim. Você aprende a olhar, abre os olhos, está ali, está o tempo todo. Como eu digo sempre: a verdade não está escondida em local nenhum. A verdade é evidente o tempo todo. Nós é que estamos de olhos fechados. Então não é um trabalho para descobrir a verdade, não é um trabalho para buscar a verdade. É só um trabalho para parar de fechar os olhos. É só isso. Não tem muito mais que isso. Tem um pouco de estratégia para fazer isso, porque você criou toda uma estrutura de suporte para existir com os olhos fechados. Então você tem que ir aos poucos mudando.
Não pode simplesmente chutar o pau da barraca e desmoronar tudo, porque você ainda tem necessidade de continuar existindo, de falar com as pessoas, de ganhar dinheiro, de trabalhar. Você tem que existir como ser humano. Não dá para chutar o pau da barraca e desmoronar tudo, senão você não consegue nem comer, nem tomar banho. A pessoa fica totalmente destruída. Então você tem que fazer com bom querer, inteligência, paciência, de forma gradual. Vai fazendo aos pouquinhos, vai melhorando, abandonando, construindo uma casa melhor, derrubando a casa pior, para você não ficar sem ter onde morar. Se você derrubar sua casa atual sem ter construído uma boa antes, você ficará sem teto. Então você vai aos pouquinhos, como é a nossa própria vida. Não é uma estratégia viável. Não tem como você construir uma vida fora de você. Então o que você faz? Você vai reformando a casa. Vai tirando a madeira podre, vai colocando madeira nova, vai tirando a tinta tóxica — a tinta feita com chumbo. Você vai raspando e depois passa a tinta sem produtos tóxicos. Vai tirando e trocando, trocando. Vai fazendo aos pouquinhos.
Você não pode querer ser preguiçoso e derrubar a casa de uma vez, porque você não tem habilidade em construir. Porque derrubar, destruir é fácil; construir não é tão fácil. Então essa pessoa, que não tem habilidade em destruir e é cheia de ego, cheia de vaidade, pega e derruba a casa. Preguiça de lidar com isso. “Ah, eu vou derrubar tudo.” E aí fica ali morando, tomando chuva, tomando sol. Não tem a mesma capacidade de construir que tem de destruir. Então a pessoa tem que ter humildade. E, segurando as rédeas, não deixando o ego se empolgar demais, porque no começo o ego fica empolgado em preservar — preservar a ignorância, a vaidade, a raiva, o ódio, a preguiça, a ganância. Aí, dependendo de como você atua, ele vira: “Não, agora eu vou destruir tudo isso. Vou destruir.” A pessoa quer destruir tudo. Mas aí fica sem casa. Não dá para fazer assim também.
A pessoa tem que ter humildade. Por isso que, em geral, recomendo às pessoas: “Ajahn, o que que eu faço?” “Vai meditando, vai praticando, vai meditando, vai estudando, vai recitando os cânticos, vai participando dos retiros. Não faça nada não.” A pessoa tem essa pressa: “Eu quero me livrar, como faço para me livrar dessa raiva?” “Não, você não é livre dela, não. Vai vivendo com ela. Vai olhando para a cara dela, vai aprendendo a lidar com isso.” É que essa atitude é egoísta, preguiçosa ou gananciosa de querer ficar perfeito. Tenha a humildade de ser defeituoso. E vai trabalhando em vez de confiar, em vez de passar a tarefa para o desejo, para a vaidade, para a pressa, para a preguiça de lidar com o problema. Passe a tarefa para a aspiração pelo bem. Aspirar pelo bem, com essa confiança, é um deleite. Deleite pelo bem, deleite pela sabedoria, deleite pela visão clara. Aversão à escuridão, aversão à ignorância, aversão à violência e ao egoísmo. É que nem você sabe: você bota as coisas no lugar certo, e elas começam a funcionar. Elas começam a se transformar sem ter que botar o ego no meio. Sem ter que botar o desejo, a vaidade, a preguiça, a pressa, a impaciência, a ganância no meio. Então você consegue trabalhar de maneira suave. Sem essa toxicidade do ego.
Então é realmente complicado, mesmo quando as pessoas querem melhorar. É o ego que salta à frente e tenta tomar a liderança do projeto de ficar iluminado. O projeto de ficar iluminado é o ego: “Eu vou cuidar disso aqui, com licença. Saia da frente, deixa que eu cuido disso.” Só desejo, aversão, raiva, tentando ficar iluminado. Então é realmente complicado, né? Mas existem opções. Existem maneiras suaves de fazer isso, existem maneiras inteligentes de fazer isso. Quem tiver sabedoria faz; quem não tiver sabedoria não faz. Vai sofrendo um dia; um dia as pessoas acordam. O sofrimento também tem o seu papel, também cumpre o seu papel. Então não é a culpa ficar muito preocupada, muito agitada a respeito. Por isso, é só mais e mais manifestações do ego. Você tem que saber dar um passo atrás e olhar a coisa pelo que ela realmente é, e não pelo que ela diz ser. Então a pessoa fica agitada, querendo se livrar da raiva. Mas, na verdade, aquilo é só raiva. É raiva sentindo raiva da raiva. “Eu tenho raiva da raiva e quero que a raiva desapareça.” Mas isso é raiva de novo. Então, se você fica ouvindo a conversa, fica meio perdido. Mas você dá um passo atrás e fala: “Ah, não, é só o ego mesmo.
É só a idade, é só raiva. Não tem nada mais aqui.” Não cai no truque; quando cai no truque, fica difícil se livrar da raiva. “Ajahn, como me livro da raiva?” Você vai criando condições, trabalhando aos poucos, abrindo espaço para a sabedoria, tirando energia, trazendo tranquilidade, paz. Vai fazendo aos pouquinhos, vai regando, vai regando, e a plantinha vai crescendo. Se você apreciar o processo, não tenha pressa. Tenha gratidão e apreciação pelo processo. Está perfeito.

