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Hiri (vergonha) e Ottappa (medo de errar)

Posted on 26/07/202626/07/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Abhidhammata Sangaha – Narada Thera

Aquele que possui Hirī recua diante do mal, assim como a pena de um galo se encolhe instintivamente quando exposta ao fogo. Aquele que não possui Hirī é capaz de cometer qualquer tipo de maldade sem sentir o menor remorso, pois lhe falta esse freio interno.

Ottappa, por sua vez, é comparado a uma mariposa que tem as asas chamuscadas pelo fogo. Uma pessoa que teme o fogo jamais tocaria nele, pois reconhece o perigo. No entanto, a mariposa, por não ter consciência das consequências e ser atraída pelo brilho da chama, acaba se queimando. Da mesma forma, uma pessoa que não possui Ottappa comete o mal sem hesitar e, como resultado, acaba sofrendo em estados de infortúnio.

Esses dois termos — Hirī e Ottappa — aparecem frequentemente associados nos ensinamentos budistas. No entanto, é importante distinguir Hirī da timidez comum, e Ottappa do medo comum que se sente em relação a qualquer pessoa. Esse medo comum, inclusive, é considerado um dos dez exércitos de Māra, ou seja, um obstáculo ao crescimento espiritual. Não se espera que um budista tema qualquer indivíduo, nem mesmo um deus, pois o Budismo não se fundamenta no medo do desconhecido ou de entidades externas.

A origem dos dois fatores também é diferente: Hirī surge de dentro (interior), enquanto Ottappa vem de fora (surge do exterior). Para ilustrar essa diferença, pode-se imaginar uma barra de ferro com uma extremidade aquecida pelo fogo e a outra extremidade suja de imundície. Ninguém tocaria na extremidade suja por sentir aversão, nem na extremidade quente por sentir medo.
O Hirī é comparado ao primeiro caso (aversão ou nojo) — a aversão à impureza moral — e o Ottappa, ao segundo — o receio diante do perigo real (se queimar).

A grande escritora budista Sra. Rhys Davids descreve de forma clara a diferença entre esses dois componentes mentais correlatos. Segundo ela, Hirī e Ottappa, conforme analisados por Buddhaghosa, apresentam pontos de considerável interesse ético. Juntos, eles compõem o aspecto emocional e conativo daquilo que na modernidade chamamos de consciência moral, assim como Sāti (a Atenção Plena) representa o seu lado intelectual.

O primeiro termo equivale à vergonha (lajjā), e o segundo, à angústia (ubbego) diante da prática do mal. O Hirī tem sua origem no interior; o Ottappa surge do exterior. O Hirī é autônomo (attādhipati), ou seja, tem como referência a própria pessoa; o Ottappa é heterônomo, influenciado pela sociedade (lokādhipati). O primeiro fundamenta-se na vergonha; o segundo, no pavor (ou medo). O primeiro caracteriza-se pela constância; o segundo, pelo discernimento do perigo e da natureza temível do erro (ou remorso).

A fonte subjetiva de Hirī é quádrupla: trata-se da consideração pelo que é devido em virtude do próprio Nascimento, da Idade, do Mérito e da Educação. Assim, aquele que possui Hirī pensará: “Apenas gente de condição inferior — como pescadores, pessoas miseráveis, cegos e ignorantes — cometeria tal ato”, e então se abstém de agir mal.
A fonte externa de Ottappa é a ideia de que “a comunidade dos fiéis (Saṅgha) o censurará”, levando a pessoa a se abster por receio da reprovação alheia.

Se um homem possui Hirī, ele é, como disse o Buda, o seu próprio melhor mestre, pois age com base em seus próprios princípios. Para aquele que é sensível a Ottappa, os mestres da FÉ são os melhores guias, pois ele se orienta pela referência externa.

Em um parágrafo complementar, as características desses fatores — como consistência e modo de atuação — são explicadas da seguinte forma: em Hirī, reflete-se sobre o valor do próprio nascimento, do professor, da linhagem e dos colegas de estudo; já em Ottappa, sente-se pavor diante da autocrítica, da censura alheia, do castigo e da retribuição em outra vida. Por fim, Hirī e Ottappa são considerados os dois fatores dominantes que regem o mundo. Nenhuma sociedade civilizada pode existir sem eles, pois são eles que mantêm a ordem moral tanto no plano individual quanto no plano coletivo

(*) – do Livro MANUAL DO ABHIDHAMMA – Abhidhammattha Sangaha (Narada Thera) – 1.956 (2.500 e.B.)

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