Ajahn Munindo
Gotas do Dhammapada – Verso 2, 3, 4, 5, 377, 401
(Verso 2)A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o seu criador, pois são todos forjados pela mente. Se uma pessoa fala ou age com uma mente pura, a felicidade segue-a como uma sombra que jamais a abandona.
(Verso 2) A mente é o precursor de todos os estados de ânimo. É ela que lidera o caminho. Quando falamos ou agimos a partir de um estado mental puro, a felicidade seguir-nos-á tal sombra que nunca nos abandona. (Ajahn Munindo)
Comnetários – Já alguma vez tentaram fugir da vossa própria sombra? Por mais que tentem ela nunca vos deixa. Qualquer ação realizada através do corpo, da fala ou da mente, se feita a partir de uma motivação pura, conduzirá certamente a uma felicidade maior. Vale a pena lembrarmo-nos disto quando tivermos a intenção de fazer algo bom e estivermos prestes a mudar de ideias por acharmos que não vale a pena o esforço.
Não importa o quão pequeno e aparentemente insignificante o acto seja, ele dará azo à felicidade. Valerá a pena.
(Verso3) “Ele abusou de mim, ele bateu-me, ele dominou-me, ele roubou-me”. Aqueles que abrigam tais pensamentos não acalmam o seu ódio.
(Verso 4) “Ele abusou de mim, ele bateu-me, ele dominou-me, ele roubou-me”. Aqueles que NÃO abrigam tais pensamentos acalmam o seu ódio.
(Versos 3-4) ‘Eles abusaram de mim, maltrataram-me, molestaram-me, roubaram-me’, quando oferecemos guarida a este tipo de pensamentos mantemos o ódio vivo.
Ele abusaram de mim, maltrataram-me, molestaram-me, roubaram-me’, quando não oferecemos guarida a este tipo de pensamentos, o ódio extingue-se. (Ajahn Munindo)
Comentários – De uma maneira ou de outra todos sofremos injustiças nas nossas vidas. Por vezes a dor é muito profunda e pode perdurar por anos. Os ensinamentos do Dhamma enfatizam, não tanto a dor, mas sim a nossa relação com esta. Enquanto estivermos possuídos pelo ódio e pela resistência, a nossa inteligência fica comprometida. Ainda que acções possam ser levadas a cabo, se os nossos corações não estiverem livres de ódio, não poderemos saber qual será a ação correta a tomar.
O Buddha incita-nos a libertarmo-nos dos nossos pensamentos de ódio. É preciso força, paciência e determinação para abandoná-los. Não o fazemos por alguém nos dizer que o devemos fazer mas sim porque percebemos as consequências de ficarmos agarrados a esses pensamentos.
(Verso 5) Neste mundo o ódio nunca é apaziguado pelo ódio. O ódio é apaziguado unicamente através de não-ódio. Esta é uma lei eterna.
(Verso 5) O ódio nunca é vencido pelo ódio. Mas somente pelo amor. Esta é uma lei eterna. (Ajahn Munindo)
Comentários – Derrotar o ódio através de ‘somente amar’ pode ser visto como um ideal elevado. Podemos achar essa ideia utópica ou julgarmo-nos demasiado limitados para tal (e com isso ‘desculpamo-nos’). É certo que existe uma parte de nós que diz ‘Sim, é possível’, mas também existe a outra parte que diz ‘Sim, mas se…’ Para o Buddha não existem quaisquer tipos de qualificações – o ódio simplesmente nunca resulta.
O que significa a palavra ‘amor’? Gerar uma receptividade incondicionada? E as percepções que temos daqueles que despoletam o ódio dentro de nós? Onde é que essaspercepçõesexistem? A compaixãotemopotencialderecebertudo isto na consciência, integralmente e até mesmo carinhosamente. Esta é uma lei eterna.
(Verso 377) – Assim como a trepadeira de jasmim larga as suas flores murchas, da mesma maneira, ó monges, largai totalmente a luxúria e o ódio!
(Verso 377) – Assim como o jasmim larga as suas flores velhas, deixai também vós, ó bhikkhus, o desejo e o ódio caírem por terra. (Ajahn Munindo)
Comentários – Na altura em que Ajahn Chah se encontrava em Londres, na Vihāra de Hampstead, os monges estavam descontentes com o barulho que vinha do bar do outro lado da rua. Ajahn Chah disse-lhes que a causa do sofrimento era o facto de eles dirigirem a sua atenção para ‘perturbar’ o som. O som por si só é apenas som. O sofrimento apenas surge quando saímos do nosso centro e criamos um problema acerca da realidade, adicionando-lhe algo. Quando nos apercebemos da nossa ‘quota-parte’ nos nossos problemas, passamos a ver as nossas dificuldades de uma maneira diferente. Em vez de atribuirmos a culpa a algo ou a alguém, simplesmente ‘vemos’ o que estamos a fazer nesse exacto momento.
Não entremos numa luta contra o ódio… Se formos cuidadosamente moderados e reflectirmos com sabedoria, o ódio cairá por terra. De início apercebemo-nos disto somente depois de já termos reagido e criado sofrimento. Com a prática apanhamo-lo mais rapidamente! Um dia iremos aperceber-nos da situação no exacto momento em que estivermos prestes a criar o problema.
(Verso 401) Como água sobre uma folha de lótus, ou um grão de mostarda na ponta de uma agulha, é aquele que não se apega aos prazeres sensuais – a esse chamo de homem santo.
(Verso 401) Tal como a água desliza pela folha de lótus, também os prazeres sensuais não se prendem a um grande ser.
(Ajahn Munindo)
Comentários – Um ‘grande ser’ é grande por ser livre de obstruções na sua relação com a vida. Nós não somos tão grandiosos pois somos apanhados na teia dos nossos sentimentos e fazemos da vida um problema. Criamos obstruções pela maneira como lidamos com os oito dhammas mundanos: elogio e crítica, ganhos e perdas, prazer e sofrimento, fama e insignificância (críticas). Devido à ilusão lidamos com esses oito ventos mundanos distraidamente – indulgenciando naquilo que gostamos e resistindo ao que não gostamos. A sabedoria, por sua vez, vê simplesmente a realidade do mundo sensorial. Ela conhece o espaço no qual todas as experiências começam e terminam. Tal conhecimento significa que um grande ser não tem sequer de tentar desapegar-se. Toda a tendência para se agarrar a algo desaparece automaticamente. Ele (ou ela) experiencia o prazer sensual mas não o sobre ou subvaloriza.

