Tipitaka
A escolha de Ānanda como atendente do Buda
Conta-se que, durante vinte anos, o Buda não ficou plenamente satisfeito com nenhum de seus atendentes. Certa vez, diante de uma assembleia de monges, o Buda declarou que já estava envelhecendo e que gostaria de ter um assistente pessoal fixo — alguém que respeitasse seus desejos em todos os aspectos. Ele mencionou que alguns atendentes anteriores haviam desobedecido, e que em certas ocasiões chegaram a deixar cair sua tigela e seu manto e simplesmente foram embora, abandonando-o.
Diante disso, vários grandes discípulos se ofereceram para o cargo, mas todos foram recusados. Apenas Ānanda, que era primo do Buda, permaneceu em silêncio. Quando perguntado por que não se oferecia, respondeu que o Buda saberia melhor quem escolher. O Buda, então, deixou claro que desejava Ānanda como atendente. Ānanda concordou, mas impôs oito condições.
Condições para evitar suspeitas
Ānanda pediu que o Buda nunca lhe oferecesse:
- alimentos de qualidade superior que tivesse recebido;
- vestimentas que o senhor Buda tivesse recebido;
- uma residência separada e especial (“aposento perfumado”) de Buda;
- inclusão nos convites pessoais que o Buda aceitasse.
Ele explicou que, se o Buda fizesse isso, algumas pessoas poderiam acusá-lo de servir por interesse material — por roupas, boa comida, hospedagem e prestígio social.
Condições para facilitar seu serviço e aprendizado
Ānanda também solicitou ao Abençoado:
- permissão para aceitar convites em nome do Buda;
- autorização para levar ao Buda os visitantes que viessem de longe;
- liberdade para expor todas as suas dúvidas sobre o Dhamma ao Buda, a qualquer momento;
- que o Buda repetisse para ele qualquer ensinamento dado em sua ausência.
Segundo Ānanda, essas concessões eram necessárias para que as pessoas confiassem nele e reconhecessem que o Buda realmente o considerava. Sem esses privilégios, dizia ele, muitos questionariam qual a vantagem de tal serviço. O Buda aceitou todas as condições.
Um detalhe curioso sobre o manto
Mais tarde, Ānanda aceitou um dos dois mantos oferecidos por Pukkusa, o Malla, ao Buda. O comentarista Buddhaghosa explica que isso ocorreu porque o período de serviço de Ānanda já havia terminado, e ele quis evitar a acusação de que, mesmo após 25 anos servindo o Buda, jamais havia recebido qualquer presente. Diz-se também que Ānanda ofereceu esse manto ao Buda posteriormente.
Vinte e cinco anos de dedicação
A partir de então, durante 25 anos, Ānanda serviu ao Buda com devoção total. Seguia-o como uma sombra: levava-lhe água e palito de dentes, lavava-lhe os pés, acompanhava-o em suas caminhadas, varria seus aposentos e cuidava de todos os seus afazeres. Durante o dia, estava sempre atento e antecipava os menores desejos do Mestre. À noite, com um cajado e uma grande tocha, dava nove voltas ao redor do aposento do Buda para manter-se desperto e disponível, sem jamais perturbar o sono do mestre.
Cuidados nos momentos difíceis
Muitos exemplos dessa dedicação são registrados, especialmente nos últimos dias do Buda, como narrado no Mahāparinibbāṇa Sutta. Ānanda tinha a mesma idade do Buda (nasceram no mesmo dia), e é tocante ver esse servidor idoso e extremamente devotado cuidando do primo ilustre: buscando água, dando banho, massageando o corpo, preparando a cama e recebendo as últimas orientações sobre assuntos importantes. Diz-se que, quando o Buda adoecia, Ānanda também sentia os efeitos, por empatia. Ele notava cada mudança no corpo do Buda — como o brilho no rosto após a visita de Janavasabha ou o esmaecimento da tez pouco antes da morte, perceptível quando o Buda vestiu o manto dado por Pukkusa.
O episódio do elefante Nālāgiri
Certa vez, por ordem de Devadatta, os tratadores soltaram o elefante Nālāgiri, enfurecido por embriaguez, no caminho do Buda para que o pisoteasse. Ao ver o animal avançando, Ānanda imediatamente se colocou à frente do Buda. Por três vezes o Buda ordenou que ele se afastasse, mas Ānanda — normalmente tão obediente — recusou-se. Conta-se que o Buda, usando seus poderes sobrenaturais, fez o recuar a terra sob os pés de Ānanda, tirando-o da trajetória do elefante. Nessa ocasião, foi proferido o Cūlahamsa Jātaka, mostrando que Ānanda, em vidas passadas, já havia sacrificado a própria vida para salvar o Buda. O relato do Cullavagga sobre esse incidente não menciona essa história anterior, na qual Ānanda teria sido companheiro do Buda em outra existência.

