Ajahn Mudito
Namo tassa Baghavato Arahato samā Sambudassa
Namo tassa Baghavato Arahato samā Sambudassa
Namo tassa Baghavato Arahato samā Sambudassa
Buddhaṁ Dhamaṃ Sanghaṁ Namassāmi
Um aspecto fundamental da prática meditativa é aprender a silenciar a Mente e habitar esse estado de quietude. No entanto, é importante compreender que a mente silenciosa não é uma mente inativa: mesmo nesse nível de silêncio, sensações, emoções, raiva, desejo e inquietação ainda podem estar presentes. Por isso, mesmo quando conseguimos aquietar a mente, resta um trabalho contínuo: aprender a firmar e estabelecer essa mente na estabilidade.
Assim, a constância se torna uma característica essencial. E essa constância pode ser treinada tanto durante a Meditação quanto nas atividades cotidianas. Um excelente exercício para isso é vencer a preguiça.
Ao acordar pela manhã, se surgir a preguiça de levantar, simplesmente não interaja com os pensamentos que a acompanham. Apenas perceba a sensação — uma sensação sem palavras, mas com um tom de aversão, mesclada ao desejo de ficar imóvel, de permanecer sob o cobertor, de evitar o frio ou o movimento do corpo. Nesse momento, encontre um ponto neutro dentro de si: ignore essa sensação. Não é preciso fazê-la desaparecer, nem criar uma vontade forçada de se levantar, nem inventar motivações. Basta ignorar. Não dê atenção, não siga as instruções que os pensamentos ou a sensação de preguiça sugerem.
Muitas pessoas perdem um tempo enorme tentando discutir com a preguiça, argumentar ou convencê-la. Mas nesse nível de confronto, nunca se vence. O mesmo vale para outras sensações: tentar manipular a Mente o tempo todo, forçando-a a sentir ou deixar de sentir algo, exige um esforço desgastante e, a longo prazo, torna-se insustentável. Forçar a mente a não sentir raiva, medo ou preguiça é cansativo e artificial. Além disso, faz com que a pessoa perca a naturalidade, tornando-se forçada.
Durante todos os meus anos como monge, uma das coisas que mais me inquieta é encontrar alguém com uma voz extremamente doce, mas que soa claramente forçada. Percebe-se que por trás daquela voz há um esforço constante para suprimir a raiva e aparentar bondade ou educação. Vi isso muitas vezes: um tom peculiar de voz que denuncia o fingimento. Quando ouço isso, afasto-me. É apenas uma questão de tempo até que essa máscara caia. Não se trata de uma atitude sábia, mas de esconder a sujeira debaixo do tapete. Isso não é sustentável, nem desejável — forçar a mente a sentir o que se quer não é um caminho saudável.
O mais interessante, na verdade, é cultivar bons estados mentais e permitir que a Mente se expresse de maneira espontânea, guiada por sua própria sabedoria. Quando cultivamos a mente de forma correta, naturalmente surgem: coragem, bem-querer, humildade e equanimidade. Esses sentimentos brotam de uma sabedoria bem enraizada, não de um desejo forçado. Se alguém, por puro querer, tenta se obrigar a estar calmo, pode até conseguir momentaneamente, mas isso não é genuíno. Com o cultivo adequado, a mente expressa calma naturalmente, especialmente quando a situação exige serenidade. Ela se torna dócil e suave, sem necessidade de esforço artificial.
Em geral, o que se ensina por aí — e o que muitas vezes se vê na internet — é a ideia de gerar forçosamente o oposto dos estados negativos. Mas sugiro, em vez disso, experimentar o caminho de simplesmente ignorar. Quando se tem clareza sobre o que é correto fazer, ignora-se qualquer justificativa, ideia ou sensação contrária, e age-se de acordo com o que é certo.
Um ótimo campo de treino para isso são as ações simples do dia a dia, como acordar pela manhã. Não há drama envolvido: a mente acorda, você se levanta, arruma a cama, escova os dentes, faz exercícios, organiza o ambiente e senta-se para Meditar. São tarefas sem ambiguidade, sem debate ou preocupação. Escovar os dentes, beber água, guardar o cobertor — tudo isso é direto e óbvio. Não há segredo nem espaço para discussão.
Portanto, é perfeitamente possível ignorar a sensação de preguiça e as justificativas que a mente inventa. Basta atravessá-las e dobrar o cobertor. Sim, você pode descansar, mas continue se movendo. Enquanto a mente fala, você ignora e age: se levanta, lava o rosto, segue em frente. Aprende-se a passar por cima, a ignorar. Isso é um aspecto da equanimidade (upekkhā).
Com o tempo, se cultivada com frequência, essa equanimidade torna-se uma constância. E, quando ela se estabiliza, você atinge o ápice: aquilo se torna sua natureza permanente.
Com o tempo, uma sensação específica e peculiar começa a surgir dentro de você — algo que antes não existia ou que você sequer percebia. Ao praticar com frequência, você passa a notar essa sensação com clareza.
Por exemplo: ao acordar de manhã, parece que todo o seu mundo está envolto em aversão e preguiça. Mas, bem no centro disso tudo, há um pequeno ponto — uma sensação de espaço vazio, onde a aversão está ausente. É um espaço de paz e silêncio, ainda que pequeno. Ao redor, a preguiça faz barulho, tenta convencê-lo a não levantar. No entanto, bem no centro, existe esse ponto silencioso. O aprendizado está em focar cada vez mais nesse ponto, confiando cada vez mais nele.
Para que isso seja possível, é importante que sua vida esteja bem estruturada. Se você já treinou sua vontade em boas ações — como a prática da conduta ética (sīla) —, isso ajuda. Dormir até tarde, por exemplo, não quebra preceitos formais, mas se você é uma pessoa disciplinada, enérgica e dirigente, isso é uma boa qualidade mental. Portanto, ao treinar a mente em qualidades positivas, você não precisa ficar analisando ou preocupando-se excessivamente. Você ganha a possibilidade de confiar nesse silêncio interior.
Essa confiança se fortalece quando a vida está bem organizada: sem más amizades, sem participação em atividades prejudiciais, com uma rotina nobre — acordar cedo, manter a casa limpa, cuidar da saúde. Nas interações com o mundo, sigo os cinco preceitos como referência. Fora delas, mantenho princípios como disciplina, diligência, humildade, frugalidade, atenção, bem-querer, compaixão e amizade.
Com tudo isso bem estabelecido, você pode aplicar seu método para lidar com pensamentos e emoções negativas: simplesmente passar por cima delas. Não é mais necessário fazer esforço para substituir um sentimento por outro, nem tentar convencer a Mente a não sentir raiva. Que a raiva se dane; que a preguiça se dane. Você passa por cima. Se vê alguém e sente raiva, mas a raiva diz para não cumprimentar, você não está nem aí — vai lá e dá um Bom dia.
Aí começa a surgir uma sensação de maestria: “Agora quem manda aqui sou eu.” Você deixa de ser vítima dos próprios pensamentos e estados mentais. Essa sensação é agradável, traz liberdade, segurança e tranquilidade — segurança no sentido de que você já não tem medo de si mesmo. Como costumo dizer: “O mundo é fácil, se a Mente é forte.” As pessoas são frágeis; se você desenvolve uma mente firme, o mundo se torna simples, sem grandes dificuldades.
Quando você percebe isso, fica ainda mais tranquilo. A mente, que já estava em paz consigo mesma, agora também fica em paz com o mundo. É um processo que cresce exponencialmente: cada avanço cria condições para mais avanços. Isso me lembra aquela passagem bíblica: “Ao que tem, será dado; ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.”(Mateus 13:12). Quando você começa a ganhar essa firmeza, tudo parece se encaixar, como se você entrasse em sintonia com o mundo.
Por outro lado, quando as pessoas agem movidas pelo ego, vaidade, medo ou desejo, tudo se torna difícil, complicado, cheio de atrito e sofrimento. Mesmo quando alguém reverte esse quadro, se for atenta, perceberá que esse estado de bem-estar, tranquilidade e felicidade é instável. Ele mesmo pode criar condições para o retorno do ego, do apego, da raiva ou da preguiça.
Portanto, é um trabalho constante — embora mais leve e feito em um ambiente agradável. Mas não se encerra. Não se pode largar tudo e achar que vai dar certo. Esse estado, se não for cuidado continuamente, azeda e se transforma novamente em desejo, apego ou aversão. Quem enxerga isso percebe: “Mesmo isso aqui não é estável, não é garantido, é apenas uma construção. Isso também é anattā — não é um EU, é algo criado, não é o incondicionado, é apenas algo bem feito.”
É como um carro de boa qualidade: funciona bem, mas não dura para sempre. Não é uma solução mágica. Pode até atropelar alguém ou ser destruído por um caminhão. Não resolve todos os problemas — resolve apenas aquilo para que foi feito. O mesmo acontece com as pessoas. Muitos, quando crianças ou adolescentes, imaginam que, ao crescer, tudo será maravilhoso: não vão mais obedecer horários, não precisarão ir à escola, poderão dirigir, comprar, fazer o que quiserem. Mas, ao se tornarem adultos, percebem que as coisas não são tão simples. E assim segue a jornada — sempre com atenção, sempre em movimento.
Com o tempo, aqueles problemas típicos da adolescência desaparecem – mas, em seu lugar, surgem os problemas da vida adulta. Não se trata, portanto, de ficar livre de dificuldades, mas de trocar um conjunto de desafios por outro. O mesmo acontece com a prática meditativa. Muitas pessoas alimentam a expectativa de que, quando a Mente se tornar pacífica, tudo será maravilhoso: nenhum problema restará, e será possível seguir saltitando em direção a Nibbāna. Contudo, mesmo quando a mente se aquieta, um novo leque de questões aparece – novas sutilezas, novas áreas que exigem atenção e cuidado.
Ao desenvolver uma mente mais saudável e sábia, mais alinhada com a realidade das coisas, uma grande quantidade de problemas realmente desaparece. A vida torna-se mais suave e tranquila. No entanto, isso não significa que todas as situações estejam resolvidas. Pelo menos um problema permanece: a mente continua instável. Ela não é a solução final para tudo. Mesmo essa mente agradável e sábia é instável – e, se você prestar atenção, verá que é o próprio bem-estar que ela proporciona que acaba criando condições para o surgimento de novas impurezas mentais.
Apesar disso, ainda assim é preferível. Agora você trabalha em um local agradável – bem iluminado, ventilado, com temperatura confortável –, enquanto antes o trabalho era feito em um ambiente fedido, escuro, cheio de fumaça, desagradável e quente. O sofrimento envolvido diminuiu bastante, mas o assunto não está encerrado. Ainda há o que fazer, ainda há manutenção.
É nesse ponto que a pessoa desperta para uma visão mais profunda. Ela compreende o significado disso tudo e pode começar a se inclinar verdadeiramente em direção a Nibbāna – em direção ao fim desse ciclo, sem se deixar seduzir pelas promessas de prazer das kilesās (impurezas mentais). E, mais do que isso, ela também não se deixa seduzir pelo bem-estar proporcionado pelos dhammas benéficos (akusalā dhamma). Ela não se deixa levar nem pela maldade nem pela bondade – porque até a bondade é instável, é anattā (não-eu), e, por essa razão, em algum momento, gera sofrimento.
Mesmo agora, aqui e agora, esse estado ainda produz uma certa quantidade de sofrimento. Talvez muitas pessoas não enxerguem isso, principalmente aquelas que nunca tiveram essa experiência. Mas, se alguém já viveu algo mais sutil do que isso e possui uma atenção fina, conseguirá perceber: mesmo isso aqui é sofrimento – um sofrimento bem menor do que o outro, certamente, mas ainda assim não é o mesmo que a experiência pacífica e incondicionada.
Dá para sentir claramente o sofrimento. Por exemplo, em certos estados mentais, a mente cessa completamente qualquer tipo de construção – ela não constrói nada, apenas experiencia o aqui e agora. Quando ela volta a construir, até ideias simples como “branco”, “preto”, “pequeno”, “grande” já se mostram carregadas de sofrimento. O próprio ato de separar, de nomear – “isso é um copo” – já é sofrimento. É algo que não se pode explicar com palavras; é preciso enxergar por si mesmo para perceber o quão sutil é isso. Quando o Buda afirma: “Sabbe saṅkhārā dukkhā” – “todas as formações são sofrimento” –, esse assunto vai muito mais longe do que as pessoas poderiam imaginar.
Ter esse tipo de visão pode levar a mente a se inclinar para Nibbāna. Não é algo comum, na verdade. Quando alguém começa a estudar o budismo e a ter contato com o Dhamma, não é natural sentir vontade de alcançar a Iluminação – porque a Iluminação não agrada ao ego. Não há nada na ideia de Iluminação que seja atraente para o ego. Mas, se a pessoa tem FÉ e Reverência, ela pensa: “O Buda disse que Nibbāna é algo bom”, e, com base nessa confiança, ela aspira a isso. O raciocínio e o ego, porém, jamais aceitarão essa ideia – é um tipo de coisa em que a fé funciona melhor do que a lógica.
Conforme a experiência avança, a pessoa começa a enxergar os detalhes, a reunir mais e mais informações. Como o Ajahn Jayasāro disse ontem em sua palestra, isso não é algo que leva diretamente a Nibbāna, mas sim a buscar mais informação. É uma dúvida útil – aquela que impulsiona a ação, que faz a pessoa seguir em frente, ao contrário da dúvida prejudicial, que paralisa. Assim, ela vai acumulando experiência e, aos poucos, a ideia de Nibbāna se torna cada vez mais plausível – realmente, não há nada neste mundo que realmente valha a pena ser alvo de apego.
Há uma reflexão recomendada no Visuddhimagga chamada “Sabbaloke anabhiratasaññā” – a percepção de que nada neste mundo é digno de apego. A pessoa mantém essa percepção em mente e a cultiva com frequência, principalmente à medida que aprofunda sua prática meditativa. Esse tipo de percepção é muito útil. Mesmo diante de uma experiência maravilhosa, ela ainda lembra: “Sabbaloke anabhiratasaññā” – não importa quão maravilhosa seja, essa experiência não é digna de apego.
Há relatos, como na biografia de Ajahn Maha Boowa, de pessoas que chegam a níveis em que é impossível – para uma mente comum – não se apegar a experiências tão fantásticas. Mas elas, com um cultivo mental profundo, mesmo no ápice do prazer, da paz e da felicidade, ainda lembram: “Isso não é permanente, isso não é digno de apego.” Esse é um nível de sutileza e sabedoria muito profundo, cultivado ao longo de muito tempo.
Mas é importante frisar: não se pode pular etapas. Não dá para ir direto ao desapego. Não dá, não dá. É preciso começar do nível comum – com emoções difíceis, pensamentos tolos – e, a partir daí, avançar para o lado da bondade, da mente tranquila e dos pensamentos sábios. De lá, então, vê-se o que fazer. Não adianta ser esperto demais, cheio de ganância, porque você chegará aos estágios mais avançados carregando desejo, vaidade e preguiça como combustível – e isso dificilmente dará certo. Os desafios lá na frente são muito mais sutis do que os desafios iniciais, e não há como superá-los com uma mente cheia de ganância, desejo, preguiça ou vaidade.
Se a pessoa não abandona essas qualidades desde agora, quando chegar diante das tentações e fascínios sutis, não conseguirá lidar com eles. É por isso que algumas pessoas desenvolvem problemas psiquiátricos – elas têm experiências semelhantes ao samādhi, mas não têm base para sustentá-las. A mente está cheia de ódio, raiva, vaidade, baixa autoestima que se transforma em vaidade descontrolada. Isso não serve para avançar. Não importa que a experiência seja fantástica – sem qualidades mentais sólidas, tudo isso é inútil e até danoso. Piora a instabilidade, alimenta o ego, e a pessoa fica ainda mais perdida, sem controle sobre a vaidade, o medo, a vergonha e o rancor – uma mistura tóxica.
Portanto, não tente pular etapas. É bom começar do começo, passar por cada estágio. A única justificativa para pular etapas vem do ego – e a única coisa que o ego nunca fará é chegar à Iluminação. Aprenda a estabelecer bem a sua vida, de maneira correta, e pare de esquentar a cabeça com estados mentais negativos. Acerte sua rotina. Não fique alimentando ideias e opiniões – ignore as distrações e tentações. Vá de cabeça baixa, passo a passo, sem ganância por resultados rápidos. Antes que você perceba, terá chegado lá. Invista no caminhar, no processo. Vale a pena investir nisso no dia a dia. Às vezes, as pessoas já sabem disso, mas têm ideias pré-concebidas que atrapalham. Mantenha a Mente firme, mantenha a Mente saudável. Se você tem essa segurança, essa firmeza, essa calma, encontre o ponto de firmeza e clareza mental. Isso requer uma boa fundação – bom comportamento, bons hábitos e uma rotina consistente de trabalho mental. Mas não se engane: isso ainda não é a solução final. Por enquanto, não se empolgue demais. Siga no rumo da Iluminação. Apenas ler o texto não adianta; empolgar-se também não.

