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Conhecer o Dhamma não é o mesmo que realizá-lo

Posted on 05/11/202605/11/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Walter Nguyen

CONHECER O DHAMMA NÃO É O MESMO QUE REALIZÁ-LO

Na época do Buda, havia um monge ancião chamado Potthila. Embora ainda não tivesse alcançado nenhum Fruto Nobre, ele era um excelente professor do Dhamma, cujos ensinamentos eram precisos e profundos. Muitos monges recém-ordenados, graças às instruções e à orientação adequada do ancião Potthila na prática, alcançaram rapidamente o Fruto Nobre.

O Buda era uma pessoa muito séria, que raramente fazia brincadeiras ou usava expressões bem-humoradas. No entanto, sempre que se dirigia ao ancião Potthila, Ele acrescentava a palavra “vazio” ao seu nome. Por exemplo, Ele dizia: “Venha cá, Potthila Vazio!” ou “Potthila Vazio, faça isto pelo Tathagata!”. Dessa forma, o Buddha referia-se a ele, repetidamente, como “Potthila Vazio”.

O Buda buscava, deliberadamente, despertar o orgulho e o senso de vergonha no ancião, pois sabia que Potthila nutria um apego muito sutil. O ancião Potthila era extremamente habilidoso em ensinar o Dhamma, possuía um vasto conhecimento do Budismo e era respeitado por muitas pessoas. Ele considerava o ensino do Dhamma a principal tarefa de sua vida. Ele acreditava que continuar ensinando e ajudando os outros a praticar era o suficiente. O Buddha reconheceu que era aí que ele estava estagnado e sabia que precisava encontrar uma maneira de ajudá-lo a superar isso.

Ao chamá-lo repetidamente de “Potthila Vazio”, o Buddha desafiava diretamente sua autossatisfação e seu apego. Aquilo que o ancião considerava sua maior força, sua maior conquista e o trabalho de sua vida do qual mais se orgulhava, era precisamente o que o Buddha lhe recordava ser “vazio” — enquanto ele próprio ainda não tivesse realizado a verdade.

A princípio, o ancião Potthila não se importava em ser repreendido pelo Buda. Contudo, quando os outros monges também ouviram a forma como o Buddha se dirigia a ele, ele começou a sentir vergonha. Por fim, ele compreendeu que o Buddha usava a palavra “vazio” para lembrá-lo de suas próprias limitações. Ele, então, pediu permissão ao Buddha para deixar a grande assembleia e seguir para uma floresta onde trinta Arahants praticavam meditação juntos. Ao chegar, o Venerável Potthila prestou homenagem ao Arahant mais antigo e solicitou orientação para sua prática. No entanto, o monge mais velho não atendeu ao seu pedido diretamente; em vez disso, orientou-o a procurar o monge seguinte. O segundo monge, por sua vez, encaminhou-o ao terceiro, e este, ao quarto. O processo continuou até que o Venerável Potthila fosse finalmente direcionado a um jovem noviço. Notavelmente, embora fosse ainda muito jovem, esse noviço já havia alcançado o estado de Arahant.

O Venerável Potthila seguiu essas instruções pacientemente, prestando homenagem a cada monge, do mais antigo ao mais jovem dos noviços. Ele não demonstrou orgulho nem ressentimento por ter de buscar orientação junto a alguém muito mais jovem e com menos tempo de ordenação monástica. Isso revelou sua admirável virtude, humildade e ausência de ego (de um EU).

Ao encontrar o jovem noviço, o Venerável Potthila pediu-lhe, respeitosamente, que o ensinasse a praticar. Sua atitude na busca pelo Dhamma era de extrema humildade. Naquele momento, o noviço estava sentado à beira de um lago. Ele disse ao Venerável Potthila: “Se você realmente deseja praticar, então pule no lago!”

O Venerável Potthila obedeceu prontamente, sem a menor hesitação. Ainda vestindo suas túnicas, ele saltou diretamente para dentro do lago. Isso demonstrou sua disposição em seguir instruções e desapegar-se do ego. Ele não se sentiu ofendido, não questionou a ordem, nem pensou que sua posição de maior antiguidade o isentasse de ouvir um jovem noviço.

Diante disso, o noviço pediu-lhe que saísse do lago e retornasse à margem, dando-lhe, então, uma instrução: “Imagine uma casa com seis portas. O vento pode entrar e sair, a chuva pode penetrar, e os ruídos externos podem chegar ao interior, impedindo que a pessoa lá dentro se concentre. Portanto, feche cinco das portas e deixe apenas uma aberta.”

O Venerável Potthila compreendeu imediatamente o significado profundo desse ensinamento. Após prestar homenagem ao noviço, encontrou um local plano sob a sombra fresca de uma árvore, sentou-se e iniciou sua prática. O que significava fechar cinco portas e deixar apenas uma aberta? Isso significava manter a atenção voltada para o corpo como um todo, conhecendo-o claramente e contemplando sua natureza impermanente, sem permitir que a mente divagasse em direção a outros objetos.
Naquela ocasião, embora estivesse longe, o Buda percebeu que o Venerável Potthila havia cumprido as condições necessárias para alcançar um Fruto Nobre. O Buda surgiu diante dele, irradiou luz e recitou o seguinte verso:

“Por meio da meditação, a sabedoria surge;
Sem a meditação, a sabedoria declina.
Conhecendo estes dois caminhos
Que conduzem ao declínio ou à libertação,
Esforce-se diligentemente
Para aumentar a sua sabedoria.”

Imediatamente após ouvir o Buda recitar este verso, o Venerável Potthila alcançou o estado de Arahant.

REFERÊNCIAS:
Potaliya: Um chefe de família leigo que recebe instruções do Buda no Potaliya Sutta (MN 54) .
Potthapada: Um asceta errante que dialoga com o Buda sobre a natureza da percepção no Potthapada Sutta (DN 9) .

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