Ajahn Phut Thaniyo
Como lidar com pensamentos e sentimentos quando eles surgem
Um obstáculo significativo que todo praticante de meditação deve enfrentar é o fluxo constante de pensamentos que surge durante a prática. Sejam histórias do passado, preocupações com o futuro ou diversos sentimentos que surgem no presente, esses pensamentos tendem a nos afastar da paz interior e nos deixar desanimados.
Ajahn Phut ofereceu um princípio vital para lidar com esses pensamentos: “Não tente forçar os pensamentos”. Tentar parar de pensar é como tentar represar um rio; quanto mais você o bloqueia, mais pressão se acumula. Lutar contra os pensamentos só deixará a mente mais estressada e agitada.
O caminho que ele ensinou é o de ser meramente um “conhecedor” ou um “observador”. Quando um pensamento surge, nossa única tarefa é simplesmente conhecê-lo. Conhecer que você está pensando isso, conhecer que você está sentindo isso, sem julgar o pensamento como bom ou ruim, sem tentar analisar sua causa e, mais importante, sem se perder e pensar junto com a história.
Ele usou uma analogia: deixe os pensamentos passarem como se você estivesse sentado na margem de um rio observando as folhas flutuarem, uma a uma. Você simplesmente as vê ir e vir, sem pular na água para pegá-las. Quando fazemos isso com nossos pensamentos, os pensamentos que surgem não terão poder para dominar nossa mente. Eles surgirão, existirão e cessarão de acordo com sua própria natureza. Para dar outro exemplo que torna isso mais claro: podemos olhar para o nosso próprio corpo e contemplar suas várias partes separadamente — cabelo, pelos do corpo, unhas, dentes, pele — e observar qual parte é o verdadeiro “EU”, qual parte é verdadeiramente bela. Observar dessa maneira, sem julgamento, nos permitirá ver a realidade de que o corpo é simplesmente uma coleção de elementos, não o eu cativante que antes pensávamos que fosse. Observar os pensamentos usa o mesmo princípio: observar sem se apegar a eles como se fossem nossos.
No início, acompanhar e estar consciente dos nossos pensamentos pode não ser contínuo. Podemos nos perder neles de vez em quando. Quando percebemos isso, gentilmente trazemos a mente de volta à sua base, seja através da respiração ou da repetição de “Buddho“. Praticar esse acompanhamento e essa consciência dos pensamentos com frequência fortalecerá nossa atenção plena.
Quando a atenção plena é forte, a mente começa a perceber uma certa verdade: os pensamentos não são o nosso eu. A razão pela qual a atenção plena nos permite ver essa verdade é que, quando ela é forte o suficiente para nos permitir ser um “observador” capaz de observar continuamente os pensamentos, começamos a presenciar um fenômeno por nós mesmos. Vemos os pensamentos surgirem e desaparecerem por si mesmos, sem o nosso comando ou controle. Um pensamento agradável surge espontaneamente; um pensamento triste surge espontaneamente, e então ambos desaparecem. Observar esse processo de pensamentos surgindo e desaparecendo repetidamente é o que dá origem à sabedoria, ou à percepção de que “isso não sou EU, isso não é o meu-EU, isso não me pertence”. Porque se fosse realmente nosso, deveríamos ser capazes de comandá-lo: “Pense apenas em coisas boas, não pense em coisas ruins”. Mas, na realidade, não podemos fazer isso.
Ajahn Phut descreveu esse estado: quando a Atenção Plena é forte, a mente se separa. A mente conhecedora passa a existir como uma parte separada da parte que pensa e cria. É como ter duas mentes em uma só pessoa. Essa clara percepção de que o “conhecedor” é separado do “conhecido” (isto é, o pensamento) é a experiência direta que põe fim a toda dúvida de que os pensamentos não são o nosso EU. Nós somos meramente aqueles que conhecem e veem os pensamentos. Quando a sabedoria percebe isso, a mente começa a afrouxar seu domínio e apego aos pensamentos, e o sofrimento que surge das criações da mente diminui.
Ajahn Phut enfatizou que essa prática pode ser realizada a qualquer momento da vida diária. Enquanto trabalha, quando outro pensamento surge, simplesmente reconheça-o e retorne à tarefa em questão. Enquanto conversa, quando surge um sentimento de raiva ou desagrado, reconheça esse sentimento antes de agir de acordo com ele. Essa atenção plena constante aos pensamentos e sentimentos é a essência da Meditação da Visão Clara (vipassana-kammathana) na prática.
Portanto, quando qualquer pensamento ou estresse surgir durante o dia, não tente suprimi-lo ou afastá-lo. Simplesmente permita-se reconhecer sua existência com uma mente neutra. Apenas observe-o, e ele gradualmente se dissipará e desaparecerá por si só. Este é o verdadeiro caminho do desapego, que trará uma paz e leveza incríveis aos nossos corações.
Conclusão: A luz interior
A partir de todos os ensinamentos de Ajahn Phut Thaniyo, podemos ver que a prática do Dhamma ou a Meditação não são separadas da vida. Pelo contrário, são intrínsecas a cada uma de nossas respirações. É a prática de tomar consciência do nosso próprio corpo e mente como eles realmente são.
Meditar não é apenas sentar com os olhos fechados; é estar plenamente consciente de cada ação. Podemos praticar meditação enquanto estudamos, trabalhamos ou até mesmo enquanto descansamos. Contanto que tenhamos a intenção de estar presentes no momento atual, sem deixar a mente divagar demais para o passado ou o futuro, isso é prática do Dhamma.
Diversas técnicas, como a repetição de “Buddho” ou a atenção plena à respiração, são meramente ferramentas para apoiar a mente inicialmente, para ancorar a mente divagante. Quando a mente começa a se acalmar e estabilizar, podemos abandonar essas ferramentas e usar a atenção plena e a sabedoria para observar diretamente os estados que surgem em nosso corpo e mente.
Quando um pensamento surgir, simplesmente reconheça-o no momento oportuno, sem se apropriar dele ou lutar contra ele. Quando vários sentimentos aparecerem, simplesmente reconheça-os com um coração neutro, observando-os surgir e desaparecer. Praticar dessa maneira nos levará gradualmente a compreender a lei natural de que todas as coisas são Impermanência (anicca) , Insatisfação (dukkha) e Não-EU (anatta) .
Os benefícios da prática da meditação no dia a dia não se limitam a momentos passageiros de paz. Ela fortalece, estabiliza e torna nossa mente poderosa. Leva-nos a ter mais compaixão por nós mesmos e pelos outros. E, mais importante, proporciona a sabedoria necessária para solucionar problemas e viver neste mundo com felicidade e sem sofrimento.
Que estes ensinamentos compilados sejam como uma pequena luz para guiá-lo na jornada de volta ao seu eu interior, para descobrir a verdadeira paz e felicidade que existe no coração de cada pessoa.

