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Bons amigos para a Mente

Posted on 04/09/202604/09/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Namo Tassa, Baghavato, Arahatô, Sāma, Sambudassa
Namo Tassa, Baghavato, Arahatô, Sāma, Sambudassa
Namo Tassa, Baghavato, Arahatô, Sāma, Sambudassa
Buddhaṁ Dhamaṃ, Sanghaṁ, Namassāmi.

Os primeiros versos do Maṅgala Sutta falam sobre evitar más companhias, buscar a companhia de pessoas sábias e afastar-se de pessoas tolas. Esses princípios, porém, não se aplicam apenas às relações externas; podem também ser estendidos aos nossos estados mentais. Trata-se de uma maneira inteligente de compreender a interconexão entre a Mente e a forma como lidamos com ela, observando quais tipos de estados mentais são compatíveis com a sabedoria e quais estão alinhados com a falta dela.

Por exemplo, quando você está com raiva, toma boas ou más decisões? Quando age movido pela ganância, pela inveja ou pelo medo, suas escolhas são acertadas ou erradas? A inveja, por exemplo, turva a visão da realidade, assim como o medo nos leva a interpretar situações de maneira equivocada. Por outro lado, quais estados mentais permitem enxergar as coisas com clareza? Quais nos levam a distorcer o mundo ao nosso redor?
Essas são perguntas que você pode observar no dia a dia, sem precisar aceitar passivamente o que os outros dizem.

Se você se dispuser a prestar atenção, verá exemplos cotidianos. Imagine que alguém perde um objeto e, imediatamente, a Mente conclui: “Alguém me roubou”. Essa conclusão, muitas vezes, é alimentada pela raiva ou pela desconfiança. No entanto, ao examinar com calma, a pessoa pode perceber que o objeto apenas foi colocado em local desconhecido. Se a mente estiver inclinada à inimizade, a tendência será suspeitar dos outros; mas, se estiver estabelecida na amizade, a reação será diferente: “Talvez eu tenha deixado em outro lugar” ou “Alguém deve ter pego por engano e colocado em outro local”. Assim, a linha de raciocínio muda completamente.

Ao observar esses padrões, você percebe quais pensamentos, em geral, acertam mais e quais erram mais. Não se trata de negar que roubos possam ocorrer, mas de reconhecer qual Estado Mental permite enxergar a situação com clareza, sem pular para decisões precipitadas ou preconceituosas. Pergunte-se: que tipo de estado mental lida com uma situação de forma sábia, sem gerar rancor ou raiva, e sem levar a decisões equivocadas? Comece a observar isso com frequência, persistência e insistência.

Com o tempo, sua mente naturalmente perderá o encanto por estados mentais nocivos e desenvolverá apreço pelos estados benéficos. Isso ocorre de forma espontânea; não é necessário forçar a mente, apenas mostrar a ela os resultados. Por exemplo: “Estou vendo? Por eu estar com raiva, cheguei a uma conclusão equivocada” ou “Por eu estar com desejo, tomei uma decisão errada”. Às vezes, até estados como a compaixão (karuna) podem levar a equívocos, mas a ideia é encontrar o ponto médio. No início, você verifica qual abordagem dá mais certo ou, pelo menos, menos errado. Como seres humanos, estamos sujeitos a errar, mas alguns caminhos são claramente menos prejudiciais.

Ao observar com frequência, a mente começa a sentir um certo desencanto pelos estados que geram erros e um apreço pelos estados mentais que geram menos problemas. Naturalmente, surge uma sensação de cuidado: quando um estado mental nocivo aparece, a mente alerta: “Cuidado, vou cometer um erro agora”. Isso porque a raiva, o rancor ou o preconceito aumentam as chances de interpretar mal uma situação, de falar algo inadequado ou de agir precipitadamente.

Você não precisa se forçar a não sentir raiva ou rancor; apenas observe e confie no processo. Como seres humanos, temos duas características vitais: inteligência e desejo pelo bem-estar. Essas qualidades, presentes na maioria das pessoas, são a razão pela qual o Buda ensinou o Dhamma prioritariamente para os humanos. Ao unir inteligência e desejo de ser feliz, não é necessário fazer mais nada; esses dois fatores interagem automaticamente. Quando você dá espaço para sua inteligência discernir o que é certo e errado, e existe o desejo pelo bem-estar, a mente começa espontaneamente a se afastar de estados nocivos e se aproximar dos benéficos.

No entanto, mesmo os estados mentais benéficos não são 100% garantidos; eles dão menos problemas, mas ainda assim são desejáveis, pois não agridem a mente. Eles não criam rancor ou atrito, permitindo que a mente fique suave, tranquila, alegre e contente. Com mais felicidade, a mente se torna mais estável, e essa estabilidade abre espaço para a sabedoria. A sabedoria, sim, resolve os problemas de forma mais consistente. A compaixão, a paciência e o contentamento, embora não infalíveis, são preferíveis à raiva, à impaciência e à ganância, pois não queimam a Mente.

Ao buscar estados mentais benéficos e evitar os danosos, a mente se pacifica, tornando-se mais tranquila, suave e maleável. Com isso, ela fica mais perceptiva e sensível, capaz de notar coisas que antes passavam despercebidas. Em vez de fugir para fantasias, passado ou futuro, a mente consegue permanecer no presente. Então, a sabedoria surge naturalmente, permitindo enxergar as coisas como realmente são. Quanto mais clara é essa visão, mais fácil é discernir o certo do errado. Na verdade, a vida é extremamente óbvia; o problema é que a mente, inflamada por ódio, medo, vaidade, inveja ou ganância, não consegue enxergar o óbvio. Essa inflamação torna a mente dolorosa, levando-a a fugir para fantasias para evitar o contato com o aqui e agora.

Mas, com a observação frequente, a inteligência e o desejo pelo bem-estar interagem, gerando desencanto pelos estados nocivos e apreço pelos benéficos. A mente fica mais atenta e cuidadosa, reconhecendo que, quando está com raiva ou ganância, as chances de errar são grandes. Com essa consciência, a pessoa se torna mais hábil e começa a abandonar esses estados. Por exemplo, se você precisa corrigir alguém, mas está com raiva, pode esperar que a raiva passe antes de falar. Se for hábil, pode até abandonar a raiva imediatamente. Falar sem raiva aumenta a chance de ser ouvido e de resolver o problema de forma clara e eficaz.

Assim, você começa a ver os resultados: é melhor não sentir raiva, estabelecer a mente na tranquilidade, tratar os outros com respeito e cultivar amizade. Mesmo em situações difíceis, como ao lidar com um profissional que fez um serviço mal-feito, é possível estabelecer a conversa em termos de amizade, em vez de superioridade ou hostilidade. Amigos também podem discutir problemas. No entanto, em alguns casos, pode ser necessário impor mais energia e deixar claro que há um erro a ser corrigido. A sabedoria está em escolher a abordagem correta no momento certo.

Estados mentais maléficos nunca dão certo de verdade: mesmo que resolvam algo externamente, destroem internamente, gerando rancor e irritação. Os estados benéficos, embora não infalíveis, costumam dar certo tanto externa quanto internamente, preservando o bem-estar. A sabedoria, por sua vez, garante acertos internos e externos, resolvendo problemas sem inflamação interior. É bom para todos: para você, para o outro e para a situação como um todo.

Pense nos estados mentais como amigos ou maus amigos. Procure evitar os maus amigos e conviver com os bons. Mas não é possível evitar 100% os estados nocivos sem recorrer a manobras danosas ou à estupidez. Uma pessoa sã e inteligente sentirá raiva ocasionalmente, mas, com sabedoria, não levará essa raiva a sério. Ela surge, é notada e vai embora, como uma reação passageira: “Não gostei”. É simples. Se você não se identifica com a raiva, ela não se transforma em algo maior. A pessoa sábia não vira raiva; apenas a observa.

A vida é simples, mas as pessoas tendem a complicá-la, movidas pelo desejo de drama, importância ou mistério, muitas vezes alimentado pelo senso de “EU“. Se você não é viciado nessa sensação, pode deixar as coisas serem simples. Quando são simples, são fáceis e não geram estresse. Tenha paciência e FÉ na observação, na inteligência e no desejo pelo bem-estar. Confie que, ao dar espaço para sua inteligência observar a mente, uma transformação natural ocorrerá. Não é necessário forçar a compaixão ou abandonar a raiva à força; basta prestar atenção com frequência, desde o momento em que acorda até as tarefas cotidianas, observando as reações da mente.

Com o tempo, a inteligência surge e, associada ao desejo pelo bem-estar, a mente abandona o nocivo e desenvolve o benéfico. Se, por acaso, você ler sobre os ensinamentos do Buda e reconhecer neles sua própria experiência, isso pode despertar uma inclinação natural para estudar e praticar o Dhamma. Os resultados surgirão naturalmente, e a confiança no que o Buda ensinou se fortalecerá. Não se trata de acreditar por obrigação, mas de sentir uma confiança sincera e honesta, baseada na inteligência e na sabedoria, não no medo, no desejo ou na vergonha.

O direito de duvidar e investigar é fundamental, assim como a paciência para construir uma prática sólida e duradoura. Os resultados, quando alcançados, são duradouros, pois não há pressa; eles se estabelecem de Verdade, transformando a Mente de forma autêntica e profunda.

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