Ajahn Lee Dhammadaro (Julho-1958)
Existem dois tipos de alimento para a mente: o que lhe dá força e o que a mina. Isso se refere a:
(1) o alimento do contato sensorial — o contato que ocorre nos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e intelecto. Há seis porções desse tipo de alimento.
(2) O alimento da consciência, ou seja, a consciência do contato que ocorre em cada um dos seis sentidos. Há também seis porções desse tipo.
(3) O alimento da intenção ou concomitantes Mentais, ou seja, os pensamentos que se formam no coração, levando-o a pensar no passado ou no futuro e a saber se as coisas são boas ou ruins, agradáveis ou dolorosas.
Uma vez que sabemos que o Corpo e a Mente dependem desses tipos de alimento, devemos usar nosso discernimento para refletir sobre eles e avaliá-los cuidadosamente. O discernimento é o que forma os dentes da mente. Quando as crianças são pequenas, precisam depender de outros para picar ou coar seus alimentos; mas, quando crescem, têm seus próprios dentes e não precisam depender de ninguém. Se as pessoas forem realmente criteriosas, não precisam mastigar alimentos duros. Por exemplo, um caçador inteligente, depois de abater um animal, removerá as penas e as asas ou cortará os chifres e cascos, levando para casa apenas a parte útil. Em seguida, ele corta a carne em pedaços para que possa servir de alimento. Em outras palavras, se for inteligente, ele descarta as partes não comestíveis, pedaço por pedaço.
Da mesma forma, as pessoas inteligentes que desejam a qualidade interior da imparcialidade precisam usar o discernimento que vem da Concentração para avaliar imagens, sons, cheiros, sabores etc., de modo que essas coisas possam ter uma utilidade e não lhes causem nenhum dano. Quem come um peixe inteiro — espinhas, escamas, barbatanas, fezes e tudo mais — certamente morrerá engasgado com as espinhas. Por isso, precisamos encontrar uma faca e um cepo — em outras palavras, usar a Atenção Plena para focar, digamos, em um objeto visual, e o discernimento para considerar que tipo de objeto é. É algo com o qual devemos nos envolver ou não? Que tipo de benefícios ou malefícios ele causará à mente? Se for um objeto visual que causará danos à mente, você não deve se envolver com ele. Se for um objeto bonito, procure também o seu lado negativo. Seja uma pessoa com dois olhos.
Às vezes, um objeto parece bonito, mas não procuramos o seu lado negativo. Às vezes, parece feio, mas não procuramos o seu lado bom. Se algo parece bonito, você precisa se concentrar também no seu lado negativo. Se parece feio, você precisa se concentrar também no seu lado bom.
Se você não for seletivo com o que come, pode arruinar sua saúde. Objetos agradáveis são como açúcar e mel: certamente atrairão todos os tipos de formigas e moscas. Objetos desagradáveis são como sujeira: além de carregarem germes, certamente atrairão todo tipo de outras coisas ruins, pois estão infestados de moscas e vermes. Se não formos criteriosos, engoliremos a sujeira junto com os vermes e as partes fedorentas, e o açúcar junto com as formigas e moscas. Seu coração já está doente, e mesmo assim você continua engolindo coisas tóxicas. Quando isso acontece, ninguém pode curá-lo a não ser você mesmo.
Por essa razão, você precisa manter o coração neutro, no Caminho do Meio. Não se agrade com os objetos que você acha agradáveis; não odeie os objetos que você acha desagradáveis. Não seja uma pessoa com apenas um olho ou um ouvido. Quando você consegue fazer isso, você está equipado com discernimento. Você pode expelir objetos visuais, sons, cheiros, sabores, etc., do coração. Quando você consegue perceber que o “bem” esconde o “mal”, e o “mal” esconde o “bem” — da mesma forma que o corpo tem frente e costas —, você não deve se deixar levar por imagens, sons, cheiros, etc. É preciso analisá-los com cuidado.
A mente se alimenta de dois tipos básicos: estados mentais bons e estados mentais ruins. Se você pensa de forma positiva, fortalece a mente. Se você for criterioso, poderá desfrutar de um alimento refinado. Caso contrário, terá que se alimentar de algo grosseiro — por exemplo, você pega um caranguejo e o come inteiro cru, sem saber como cozinhá-lo e retirar a casca e as patas. O esforço da Meditação é como o fogo; a Concentração, como uma panela; a Atenção Plena, como uma tábua de cortar; e o Discernimento, como uma faca. As pessoas inteligentes usarão essas coisas para preparar seus alimentos, de modo que seu alimento — o alimento do Dhamma — permeie o coração, dando-lhe cinco tipos de força:
(1) A força da convicção.
(2) A força da persistência: O coração, quando somos persistentes, é como as rodas de um automóvel que continuam girando e o impulsionando em direção ao seu objetivo, permitindo-nos ver os ganhos que advêm da nossa persistência.
(3) A força da Atenção Plena: Ter atenção plena é como saber quando abrir e quando fechar as janelas e portas.
(4) A força da concentração: A concentração estará firmemente estabelecida na mente, quer estejamos sentados, de pé, caminhando, deitados, falando ou ouvindo. Podemos ouvir sem nos prendermos ao que é dito e falar sem nos prendermos ao que dizemos.
(5) A força do discernimento: Ganharemos sabedoria e compreensão em relação a todas as coisas, de modo que, eventualmente, alcançaremos a pureza da mente — deixando de lado todos os pensamentos do passado e do futuro e não nos agradando nem nos desagradando com quaisquer imagens, sons, cheiros, sabores, etc.

