Bhikkhu Bodhi
O centro dos ensinamentos do Buddha, a estrutura das Nobres Verdades, começa com dukkha, a verdade do sofrimento. Dukkha é o espinho cravado em nossa carne, o enxame de pernilongos picando nossos braços e pernas, a sombra que nos segue mesmo quando nos banhamos à luz do sol. O sofrimento, no entanto, não é a palavra final que o Buddha nos deixa. É apenas o ponto de partida, que destaca a dura verdade de que nossa “casa está em chamas”, de que nossas vidas estão sempre entrelaçadas com dor e desânimo enquanto vagamos pelo deserto do nascimento e da morte repetidos. O Buddha começa com a verdade do sofrimento porque essa é a lição que temos de aprender. Mas sua intenção é nos guiar em direção ao fim do sofrimento, e é isso — a bem-aventurança da libertação — ou seja atingir Nibbana, como meta final.
Esse objetivo deve ser alcançado seguindo um caminho precisamente ajustado — um caminho com muitas facetas — e uma qualidade que permeia todo o caminho, do início ao fim, é a alegria. A alegria tende a ser negligenciada nos relatos contemporâneos do buddhismo, que frequentemente retratam o Dhamma como uma disciplina austera de resignação sombria, em vez de um caminho para uma liberdade efervescente. Caminhar pelo caminho é alegre: é um processo de avançar na direção de uma extensão aberta, não contaminada pela cobiça, raiva e delusão. Mas a alegria é também um dos fatores da prática, contribuindo para o seu desdobramento sequencial.
Podemos ver o papel da alegria nos leva direção à libertação em uma série de termos expostos no Upanisa Sutta, um discurso no Samyutta Nikāya (SN 12.23). O discurso apresenta a conhecida fórmula da originação dependente, que geralmente termina com o nascimento como condição para a velhice, doença e morte. Mas, neste sutta, diz-se que o nascimento é a condição — não para a velhice e a morte — mas para o sofrimento (dukkha). O sofrimento então se torna a condição para a Fé (saddhā), e inicia uma série positiva que ascende através de estágios cada vez mais elevados, culminando na libertação da Mente de suas impurezas.
A palavra em Pāli saddhā, traduzida como “Fé”, não significa uma crença acrítica em doutrinas inverificáveis, mas uma confiança solene nos guias aos quais recorremos como nosso refúgio: confiança no Buddha como nosso mestre, confiança no Dhamma como a verdade libertadora, confiança na prática como o caminho para sair do dilema existencial. De acordo com o sutta, a fé dá origem à alegria. A alegria traz deleite, e do deleite emergem, por sua vez, a tranquilidade, a bem-aventurança, a concentração e a sabedoria. Por fim, da sabedoria vem o desapego, e a seguir, a libertação.
A fé é, portanto, o portal do caminho buddhista, mas, uma vez que a fé tenha surgido, ela deve ser cultivada — fortalecida, consolidada e impulsionada em direção à alegria. É ao nos engajarmos em práticas saudáveis, empreendidas através da fé, que intensificamos a alegria inicial que acompanha o ato de FÉ e a elevamos ainda mais. As fontes antigas resumem essas práticas salutares como doação, observância dos cinco preceitos e Meditação — dāna, sīla e bhāvanā. É importante notar que o sucesso na meditação repousa sobre a prática da doação e da observância dos preceitos, que servem como base. Mas a doação e a observância dos preceitos — experienciadas subjetivamente como generosidade e virtude moral — podem se tornar temas de recordação e, assim, objetos de meditação. Como objetos de meditação, eles podem dar origem à alegria e desbloquear o processo que culmina na libertação.
Um meio de gerar tal alegria é a recordação da generosidade. A generosidade se torna base para a alegria porque derruba as barreiras que erguemos entre nós e os outros. Ordinariamente, sob a influência da avidez e da delusão, nossas mentes criam um muro de separação entre nós e os outros. Olhamos para as outras pessoas através da janela dessa prisão — a fortaleza do ego — e as vemos como competidoras na luta para sobreviver.
A prática da generosidade derruba o muro de separação e abre novas perspectivas das quais podemos reconhecer nossas conexões com os outros. A generosidade, assim, inspira bondade e compaixão; ela nos permite nos identificar com aqueles que estão em necessidade e move nossos corações a agir em benefício deles. Através da generosidade, transcendemos a visão estreita e restritiva da mente, escalamos as alturas e adquirimos aquela visão que nos inspira a agir para a felicidade e o bem-estar dos outros.
Mas a generosidade deve ser desenvolvida em estágios. Inicialmente, quando sentimos pela primeira vez a inclinação para doar (dana), a disposição inata para o interesse próprio pode intervir e tentar nos convencer de que agir sobre nossos impulsos generosos será prejudicial a nós mesmos. Embora devamos nos recusar a ouvir essas sugestões, também devemos reconhecer que elas contêm um núcleo de verdade. Não podemos começar com grandes atos de total autossacrifício, abandonando completamente tudo em prol dos outros. Na prática da generosidade, a chave para o sucesso é começar com pequenas doações. Quando doamos com moderação e, em seguida, refletimos sobre nosso ato de doação, sentiremos uma onda de alegria, com a convicção de que demos um passo decisivo — mesmo que pequeno — em direção ao crescimento. Isso abre espaço para uma generosidade maior, criando uma disposição mais forte para expandir nossa capacidade de doar cada vez mais.
A generosidade é alegre em si mesma, mas, quando praticada a partir da fé, na convicção de que é um degrau em direção à libertação, pode se tornar um tema de recordação. Refletimos sobre nossos atos de doação, não para reforçar nossa autoestima, nem para ganhar elogios e honra, mas para gerar uma alegria. Regozijamo-nos com a realização de que estamos desmantelando a barreira da preocupação consigo mesmo que nos separa dos outros; alegramo-nos com nossa capacidade de nos identificar com a dor dos outros e ajudar com recursos. Tal reflexão faz com que uma onda de alegria se eleve de dentro e abre caminho para estágios mais elevados de felicidade. Isso, por sua vez, pode levar à concentração e à compreensão profunda e, eventualmente, à sabedoria que arranca pela raiz todo o apego.
Podemos gerar alegria salutar não apenas nos regozijando com nossa própria generosidade, mas também nos regozijando com a bondade dos outros, especialmente com sua generosidade. Este é um aspecto de muditā, a alegria altruísta. Com muita frequência, quando testemunhamos os outros realizando ações boas, podemos ver isso como um golpe em nossa autoestima, com o receio de que eles sejam melhores do que nós. O cultivo de muditā supera essa tendência tóxica. Ela remove a inveja e nos permite compartilhar da bondade dos outros, regozijando-nos com as boas ações.
Quando tomamos conhecimento da compaixão (karuna) e generosidade (dana) de doadores, quando testemunhamos o serviço da equipe e membros, podemos fazer uma pausa por um momento e nos alegrar com sua bondade. Transformamos, assim, essa reflexão em um exercício meditativo que se expande. Começamos gerando alegria na generosidade e compaixão de nossos amigos e colegas. A partir daí, estendemos a alegria de forma mais ampla, daqueles que conhecemos para outros que não conhecemos, mas sobre os quais ouvimos falar, e então para aqueles dos quais nem mesmo ouvimos falar, mas que podemos imaginar. Por fim, no nível mais amplo, podemos nos regozijar com a bondade e a generosidade de todas as pessoas de boa vontade em todo o mundo.
Alegrar-se com a bondade gera um efeito de ressonância: fortalece a alegria em nossos próprios corações, fundamenta nossa vida em uma base de alegria e nos ajuda a espalhar alegria para todos que nos cercam.

