Ajahn Jayasaro
Ajahn Chah nos ensinava a ter constantemente em mente que somos “samanas”(1); deixamos para trás a vida doméstica em favor de uma existência dedicada com determinação à paz e ao despertar. Ele dizia que agora devemos morrer para nossos velhos hábitos, comportamentos e valores mundanos, e nos render a um novo padrão mais elevado. Mas como exatamente seguimos o caminho do samaṇa? No “Ovada Pātimokkha” (2), o Buda estabeleceu as diretrizes mais básicas e importantes para o caminho do Samana, e ali encontramos que a não-violência é o princípio que ele mais enfatizou. Por meio do nosso modo de vida como samanas, oferecemos ao mundo o presente da não-violência. As pessoas podem se inspirar em como vivemos nossas vidas, podem ser indiferentes, ou podem até nos desprezar, mas quaisquer que sejam as diversas reações que as pessoas possam ter a um monge budista, o medo dificilmente estará entre elas. As pessoas veem um monge budista e sabem que ele não é perigoso para elas. Os animais veem um monge budista e sentem que ele não é uma ameaça para eles. Isso é algo singular.
É muito incomum, não é, ser tão escrupuloso e tão cuidadoso até com o menor tipo de criatura — não apenas seres humanos, não apenas os tipos fofos e adoráveis de criaturas como pôneis de Shetland e gatos peludos, mas até centopeias venenosas, lagartixas e formigas que mordem. Você descobre que depois de manter os preceitos do Vinaya sinceramente por um tempo, a ideia de privar até mesmo uma cobra venenosa ou um pequeno inseto venenoso de sua vida se torna quase inconcebível. Com o cultivo de sīla (conduta virtuosa, ética) e mettā-bhavana (o desenvolvimento da bondade amorosa), isso simplesmente deixa de ser uma opção. Por meio da nossa prática como samanas, somos capazes de observar quão intimamente a devoção aos preceitos morais está ligada a ser verdadeiramente benevolente e altruísta. Se continuarmos a prejudicar outros seres por meio do corpo e da fala, nossas expressões de mettā permanecem vazias e não podem nos levar à paz. Ao mesmo tempo, se tentarmos manter um nível estrito de sīla sem um espírito de boa vontade e compaixão, sem um coração gentil e perdoador, então podemos facilmente cair nas armadilhas da autojustiça, de um falso senso de superioridade e do desprezo pelos que não são virtuosos. Isso é o que se chama perder o fio da meada.
Nossa prática de sīla e mettā começa a amadurecer quando não consideramos que nossa vida e nosso conforto tenham qualquer significado mais último do que o de uma mosca doméstica ou um mosquito. Por que nossa vida deveria ser mais valiosa do que a de um mosquito da malária? Não consigo pensar em nenhuma razão lógica. O Buda disse que, como todos os seres vivos desejam ser felizes e temem a dor assim como nós, devemos nos abster de todas as ações que privam os seres da felicidade ou aumentam sua dor. Sīla é uma oferenda de dana (generosidade), um presente de destemor e proteção a todos os seres sencientes. Para viver nossas vidas dentro dos limites definidos pelos preceitos, a atenção plena ao nosso compromisso deve ser constantemente mantida; sensibilidade e habilidade são continuamente necessárias. Com sabedoria e compreensão da lei do kamma, abstemo-nos de matar, prejudicar e ferir qualquer ser senciente por meio de nossas ações, Mente e fala. Gradualmente, com nossas boas intenções não traídas por nossas ações, somos capazes de domar nossas mentes indisciplinadas.
O “não-fazer” ou abster-se é um tipo de criatividade. Esta manhã eu estava falando a um grupo de estudantes de arte. Mencionei a eles o quanto admiro as pinturas a pincel chinesas. Nessas obras de arte, apenas uma porção muito pequena da tela é pintada; o efeito e o poder da imagem são transmitidos pela relação entre a forma pintada ou a área pintada e aquilo que não é pintado. Na verdade, a grande área em branco da tela branca é o que dá aos traços de pincel pretos seu poder e beleza. Então, se você dissesse a um pintor de paisagens chinês: “que desperdício de papel bom, há uma grande área branca ali que você não pintou de jeito nenhum”, ele provavelmente bafaria com desdém. Mas em termos de comportamento humano, às vezes não vemos isso. Acho que raramente se aprecia que certas coisas que fazemos têm peso, beleza, integridade, nobreza, precisamente por causa de outras coisas que não fazemos. E que a abstenção hábil de ações, de certos tipos de fala, ou de certos tipos de proliferação ou imaginação — isso é a criatividade.
Artistas e escritores mencionam isso frequentemente. Eles tendem a concordar que a arte está na edição — naquilo que é deixado de fora. Muitos escritores dirão que é muito mais difícil escrever em estilo simples do que em um estilo ornamentado e complicado. A simplicidade é uma habilidade a ser aprendida; ela não vem facilmente. E este é outro aspecto de nossa vida, não é, fazer da simplicidade um padrão ao qual retornar. Devemos buscar não apenas nos abster do imoral, mas também do desnecessariamente perturbador. Podemos medir nossa prática por quão simples é nossa vida. Podemos nos perguntar: Minha vida está ficando mais complicada? Se estiver, então talvez precisemos restabelecer nossa atenção no básico. Quadros precisam de molduras. Precisamos de limites sábios para nossas ações. Caso contrário, nossas vidas ficam desordenadas e nossas energias se dissipam.
Apreciar a beleza austera do simples, alegrar-se com a simplicidade, conduz a mente à paz. O que poderia ser mais simples do que o objeto de samatha na meditação? Quer seja o processo respiratório ou a palavra Buddho, a experiência de unificar a mente na meditação vai contra toda a tendência à proliferação mental e emocional (papañca). Por meio da meditação, adquirimos o gosto pela simplicidade em todos os aspectos de nossas vidas. Na esfera externa, em nossos relacionamentos com os outros e com o mundo físico, contamos com certos princípios duradouros que sustentam a simplicidade que buscamos. O mais importante deles é a não-opressão em relação a si mesmo e aos outros.
Como samanas, buscamos imbuir nossas ações de reverência pela vida, de um espírito de bondade, benevolência e altruísmo. E aprendemos a tornar essa reverência pela vida sem qualificações. A santidade da vida, e o potencial de todos os seres para o despertar, formam a base dos 227 preceitos do código monástico budista. Quando Ajahn Chah perguntou a Ajahn Mun sobre a disciplina e expressou seus medos de que havia simplesmente regras demais para torná-la um guia prático de conduta, Ajahn Mun apontou para hīri (um senso de vergonha em relação a ações prejudiciais) e ottappa (um medo inteligente das consequências de ações prejudiciais) como o coração da disciplina monástica. Desenvolva essas duas coisas, ele disse, e sua prática do Vinaya (as regras e disciplina dos monges) será impecável. Os comentários afirmam que esses dois dhammas se baseiam, respectivamente, no respeito por si mesmo e no respeito pelos outros. O respeito pela vida, a nossa e a dos outros, é o fundamento da conduta nobre. Então treinamos para fortalecer nossa devoção à não-violência — não-violência para com os outros, não-violência para consigo mesmo — para ter sempre em mente o bem-estar de si e dos outros. Quanto mais você se abre para a natureza penetrante do sofrimento, mais compaixão surge, mais cuidado você tem com a qualidade de suas ações. Você percebe que, sempre que você não é parte da solução, então você está fadado a ser parte do problema.
Na verdade, o bem-estar de si e dos outros é complementar. Se realmente entendemos qual é o nosso próprio bem-estar, então não negligenciamos o bem-estar dos outros, porque ao ajudar os outros crescemos em virtude. Se realmente entendemos qual é o bem-estar dos outros, não negligenciamos nosso próprio bem-estar, porque quanto mais pacíficos e sábios somos, mais somos capazes de verdadeiramente beneficiar os outros. Quando parece haver um conflito entre o nosso bem-estar e o dos outros, geralmente é um sinal de confusão sobre a natureza do bem-estar.
Um segundo princípio fundamental subjacente às nossas vidas como samanas é o do contentamento. Somos ensinados a cultivar gratidão e apreço pelos mantos, alimento de esmola, moradias e medicamentos que recebemos, qualquer que seja sua qualidade. Vamos contra o desejo mundano pelo maior, pelo mais fino e melhor. Estamos dispostos a nos contentar com o segundo melhor ou o terceiro melhor. Descobrimos que podemos ser felizes com o pior, com as coisas que ninguém mais quer. Essa é uma descoberta maravilhosa. Tudo o que nos é dado, lembramos a nós mesmos, é bom o suficiente. “Mendigos não deveriam ser exigentes.” Mesmo os requisitos mais grosseiros que usamos foram oferecidos livremente com fé, e foram purificados pela benevolência do doador. É nossa responsabilidade fazer uso dos requisitos que nos são dados com atenção plena e sabedoria. O Buda disse que o mérito ganho pelo doador é diretamente afetado pela pureza da Mente com que recebemos e fazemos uso de seu presente. Nossa vida, mesmo na solidão, está assim sempre sendo afetada e afetando os outros.
Estar contente significa que não desperdiçamos nosso tempo tramando para conseguir coisas que não temos ou não temos direito de ter. Isso libera o corpo para atividades mais saudáveis e libera a mente para pensamentos mais saudáveis. Como samanas, não cobiçamos os requisitos de outros monges com olhos estreitos e cobiçosos. Nem sequer tocamos nas posses dos outros, a menos que tenhamos sido convidados a fazê-lo.
O Vinaya (regras de vida monástica) estabelece muitas regras detalhadas sobre nosso comportamento em relação ao mundo material. Na tradição da floresta, somos ensinados que a segunda ofensa de expulsão pode ser incorrida pelo roubo até do menor objeto, algo no valor de um baht (cerca de três centavos de dólar). Nos anúncios formais na cerimônia de ordenação, o preceptor ensina ao novo monge a não tomar absolutamente nada que não lhe pertença, nem mesmo uma folha de grama. Assumir esse padrão — uma única folha de grama — é a essência de “deixar o lar”. Isso implica uma mudança radical de perspectiva em relação às atitudes leigas. Tal padrão difere não apenas do de criminosos e ladrões, mas também do da maioria dos cidadãos “cumpridores da lei”. Há poucas pessoas que não tirariam vantagem de algum tipo de pequena brecha na lei se tivessem absoluta certeza de que escapariam impunes. “Todo mundo faz isso, eu seria um tolo se não fizesse.” A retidão moral não é desconhecida fora dos muros dos mosteiros, é claro — não estou de forma alguma sugerindo que temos o monopólio da honestidade — mas que uma comunidade inteira observe tais princípios escrupulosamente é extremamente raro.
A essência de nossa vida diária como samanas consiste em envidar esforços para abandonar as impurezas e desenvolver qualidades saudáveis por meio da prática de meditação. Passamos horas por dia sentados de pernas cruzadas e caminhando em nossos caminhos de meditação caminhando. Mesmo que nem sempre estejamos tão satisfeitos com os resultados de nossos esforços, podemos pelo menos nos animar com o fato de que fizemos algo prático para purificar nossas mentes. Em comparação, o treinamento em sīla parece indefinido e seus efeitos intangíveis.
Para manter nossa devoção aos preceitos e ao “korwat” (a etiqueta monástica), precisamos lembrar que a vida espiritual não é apenas sobre fazer, é também sobre não fazer. Abster-se de coisas não é imediatamente inspirador nem dramático. Não vemos progresso súbito na não-violência ou na não-cobiça, ou em não cobiçar coisas que não são nossas, da mesma forma que poderíamos ver de uma boa sessão de meditação ou de um bom retiro. Mas há movimento, mesmo que seja como o do ponteiro das horas de um relógio. E sīla é um tesouro. É mérito, é pāramī (potencial espiritual). Quão maravilhoso é que, vivendo esta vida sinceramente, sīla está constantemente se acumulando e amadurecendo em nosso coração. O Buda disse que sīla é o mais belo adorno para um ser humano, é a única fragrância que é totalmente penetrante. Mas a habilidade está em lembrar disso, em recordar a beleza da virtude, trazendo-a à tona para refrescar e dar alegria ao seu coração e mente.
O terceiro princípio subjacente à vida de um samaṇa lida com integridade, restrição e castidade em questões relacionadas aos instintos sexuais do corpo. Que um grupo de homens jovens — a maioria de vocês jovens, Ajahn Vipassī e eu estamos ficando um pouco mais velhos — seja capaz de levar uma vida completamente celibatária, isso é quase inacreditável para muitas pessoas no mundo. Elas presumem que temos algum tipo de liberação sexual, que devemos ter relacionamentos homossexuais ou então que nos masturbamos. Elas não acham possível viver dessa maneira.
As pessoas hoje em dia mal conseguem acreditar na ideia de que uma comunidade de homens possa viver de maneira completamente casta, e não ser totalmente desajustada, reprimida ou misógina. Talvez sejamos! — se fôssemos reprimidos, não perceberíamos, não é? Mas não penso assim. Acho que nossa comunidade está vivendo a “Vida Sagrada” de maneira resoluta mas inteligente. E embora não seja difícil o tempo todo, para quase todos há períodos em que é definitivamente desafiador. É uma luta, e é apropriado sentir um senso de orgulho saudável pelo fato de que você consegue.
É somente adotando esse padrão impecável que podemos começar a entender toda a natureza da sexualidade. Começamos a ver sua natureza condicionada, como ela surge e passa. Começamos a ver o sofrimento inerente a qualquer apego a ela, quão impessoal é, o que a alimenta, o que lhe dá poder, seja condições físicas, comida, falta de restrição dos sentidos ou indulgência na imaginação. Começamos a vê-la como um fenômeno condicionado. Mas só podemos ter distância dela, ser capazes de refletir sobre ela e vê-la pelo que é, abstendo-nos de suas expressões físicas e verbais.
Há um ponto importante sobre as impurezas aqui: temos que fixá-las no nível mental antes de podermos abandoná-las. E a maneira como fixamos algo no plano mental é que nos abstemos conscientemente, ou suportamos através da intenção de expressá-lo física ou verbalmente. É aqui que a relação entre conduta virtuosa, meditação e sabedoria se torna muito clara. Enquanto ainda estivermos expressando sentimentos sexuais fisicamente, ou nos entregando a conversas lascivas ou descuidadas sobre questões sexuais, então nunca poderemos isolá-lo. Está em movimento, ainda está recebendo energia. Ainda o mantemos em movimento, ainda alimentamos as chamas. Então buscamos contrariar a corrente do desejo. E para fazer isso com sucesso, devemos aspirar a transcender a sexualidade por completo. É essa aspiração, tanto quanto a restrição real, que distingue o samaṇa do leigo.
Então, como monges celibatários, adotamos uma postura totalmente nova em relação aos nossos sentimentos sexuais, em relação às mulheres — metade da raça humana. Praticamos olhar para as mulheres mais velhas que nós como mães, se forem apenas alguns anos mais velhas que nós como irmãs mais velhas, se alguns anos mais jovens que nós como irmãs mais novas. Substituímos percepções saudáveis das mulheres pelas sensuais. Este é um belo presente que podemos dar às mulheres. Uma mulher atraente entra no mosteiro, e nos abstemos de nos entregar a percepções sexuais, pensamentos sexuais sobre essa mulher, e substituímos por reflexões saudáveis, seja tentando conscientemente perceber a mulher como uma irmã, ou desejando que essa pessoa esteja livre do sofrimento. Praticando mettā, refletimos: “que elas estejam bem”.
Oferecemos às mulheres o presente de uma resposta saudável a elas como seres humanos, em vez de seguir a atração instintiva ou a obsessão por seu corpo ou algum aspecto de sua aparência física. Por meio dessa intenção, experimentamos uma elevação imediata do nível instintivo cego do nosso ser para o unicamente humano. É um movimento do grosseiro para o refinado. De fato, a palavra em Pāli brahmacariya, que traduzimos para o inglês como celibato, significa literalmente “o caminho dos deuses”. Em outras palavras, dentro do reino humano, uma vida casta levada voluntariamente e com contentamento é a forma de existência mais refinada, sublime e feliz.
Como quarto princípio no Dhamma, temos o amor pela verdade. Nos esforçamos para manter integridade e honestidade em todos os aspectos de nossa vida. Honestidade inclui aqui não-engano, não-artimanha, não-hipocrisia, não tentar parecer de uma maneira que não seja um reflexo verdadeiro de como somos. Isso inclui não tentar esconder nossas faltas, ou exagerar nossos pontos bons. O objetivo é desenvolver clareza e retidão. Isso também pode ser visto como um processo de duas vias. Quanto mais honestos somos conosco sobre o que estamos sentindo e pensando, mais fácil se torna ser honesto com outras pessoas. Da mesma forma, quanto mais nos treinamos para ser honestos em nossas relações externas, mais fácil se torna ser honesto sobre o que está acontecendo dentro de nós.
Um obstáculo importante à honestidade é o senso de EU. Frequentemente nos apegamos a uma ideia de como somos ou de como gostaríamos de ser. Achamos difícil, sentimos resistência em admitir aquelas coisas que não se encaixam na imagem de nós mesmos com a qual nos identificamos. Sentimos vergonha, embaraço, encontramos boas razões para dissimular. Todo mundo gosta de ser gostado e respeitado. Ninguém gosta de perder a personalidade. A integridade exige coragem. Um olhar inabalável e uma devoção à verdade — esses são poderes, forças a serem desenvolvidas.
Li algo em um livro sobre os Jātakas outro dia que realmente me impressionou. Nos Jātakas, o bodhisatta, o Buda-por-vir, através de seu incontável número de vidas ao longo dos inúmeros reinos e diferentes tipos de nascimento, quebrou todo tipo de preceito, exceto um. O Buda-por-vir nunca contou uma mentira ou falou uma inverdade. Não há história Jātaka, pelo que sei, onde você encontre o bodhisatta deturpando a verdade. Às vezes ele pode matar, em algumas ocasiões ele rouba, comete adultério e fica bêbado, mas em nenhum lugar ao longo dos Jātakas o bodhisatta mente conscientemente.
A verdade é poder. Em muitas vidas o bodhisatta aproveita o poder de sua fala por meio de um adhiṭṭhāna, uma determinação resoluta: “Nunca em minha vida fiz isto ou aquilo. Pelo poder destas palavras, que tal e tal coisa aconteça.” E acontece. De alguma forma profunda e inexplicável, a verdade exerce um impacto tangível no mundo físico. Pode afetar eventos da maneira mais maravilhosa. Quando alguém construiu esse poder da verdade, pode recorrer a esse poder de integridade com uma declaração sincera e solene.
Então, no caminho do despertar, temos alegria e orgulho saudável em cuidar da verdade. Contemplamos uma palavra que o Buda usaria, “saccanurak”, ter fidelidade à verdade, amar a verdade, ser devotado à verdade, e ser cuidadoso em ser honesto sobre o que realmente sabemos; significa ter clareza quando você fala, para apenas proferir palavras que sabemos serem precisas; estar aberto a receber os pontos de vista dos outros e não pensar que o que presentemente sabemos é verdade absoluta e atemporal; aprender a distinguir entre o que sabemos, o que acreditamos, o que pensamos e o que percebemos — não confundindo-os.
Frequentemente, quando as pessoas dizem que sabem algo, elas querem dizer que acreditam nisso. Pessoas religiosas podem frequentemente considerar sua forte fé como conhecimento direto. O Buda disse que cuidamos da verdade sendo muito escrupulosos em distinguir o que sabemos como experiência direta daquilo que acreditamos ser a verdade.
Por fim, o quinto princípio e o quinto preceito é a devoção à sobriedade. A palavra “sobriedade” não tem um som tão agradável. Em minha mente, costumava evocar a imagem de pessoas magras e de expressão apertada, em roupas justas, sentadas na beirada de cadeiras em salas com papel de parede florido, sorvendo chá e falando sobre o tempo. O uso da palavra por Carlos Castañeda a resgatou para mim. Agora passei a gostar de suas arestas duras. Aqui estou usando sobriedade para significar aquela clareza e nitidez de mente que é infinitamente superior a estados de consciência confusos, embotados ou alterados.
Depois de minhas viagens e aventuras no Oriente como leigo, a caminho de volta para a Inglaterra, parei para visitar uma amiga nas montanhas da Áustria. Ela estava ausente por um tempo e eu estava em sua casa sozinho. Folheando alguns de seus livros, encontrei um panfleto chamado Perguntas e Respostas com Lama Govinda, uma transcrição de uma sessão que ele teve com alguns ocidentais em Darjeeling. Fiquei particularmente tocado por uma de suas respostas. Alguém perguntou a Lama Govinda: “O que você acha das drogas que expandem a mente?” e ele disse: “Bem, se você tem uma mente ignorante, tudo o que você consegue é ignorância expandida”. Foi isso para mim: jogo, regra e partida para a sobriedade.
Drogas que expandem a mente, que alteram a mente, e estados alterados de consciência ainda estão todos dentro da esfera da escuridão. Ainda é brincar com diferentes modos de ignorância. Mesmo que alguém experimente diferentes dimensões da realidade, sem a sabedoria e o discernimento de pañña você não pode se beneficiar disso. Você pode transcender um determinado quarto da ignorância, mas ainda está no mesmo edifício do não-saber. Quando você não está fora do edifício, você ainda está na prisão.
Então essa sobriedade significa afastar-se de toda a parafernália de experiências anormais, visões e estados fisiológicos e mentais que estão disponíveis através de líquidos, vapores, pós e pílulas. Significa aterrar-se na clareza simples e pé no chão da consciência — dos olhos vendo formas, ouvidos ouvindo sons, nariz contatando odores, a língua saboreando sabores, o corpo experimentando sensações e a mente cognizando ideias. Ver a verdadeira natureza dessas coisas. Estar com essas coisas como elas são. E ter alegria nisso. Vir cada vez mais a focar naquele que conhece, o conhecedor e o conhecer. Este é o grande mistério de nossa vida. Não queremos embaçar e confundir isso. Queremos esclarecê-lo. À medida que começamos a limpar todo o lixo da mente, o senso de conhecer se torna mais claro e mais nítido.
Luang Por Tate, um dos discípulos seniores de Luang Por Mun, enfatiza o senso de conhecer. Ele fala sobre o jit e o jai. Por jai ele significa o senso de equanimidade, a clareza do conhecer; jit refere-se a pensar, sentir, perceber. Esta é a maneira dele de falar. E ele dá um meio muito simples de entender o que está falando. Ele diz para prender a respiração por alguns momentos. Seu pensamento para. Isso é jai.
Comece a respirar novamente — e à medida que o pensamento reaparece, isso é jit. E ele fala sobre entrar cada vez mais em contato com jai, à medida que a mente se acalma na Meditação. Ele não fala sobre um Samadhī nimitta (visão) ou uma contraparte mental da respiração, ele fala sobre voltar-se para aquele que conhece a respiração. Então, à medida que a respiração se torna cada vez mais refinada, o senso de conhecer a respiração se torna cada vez mais proeminente. Ele diz então para se afastar da respiração e entrar naquele que conhece a respiração. Isso o levará aos níveis mais altos de meditação (appanā-samādhi).
Então é afiar esse senso de conhecer. Conhecer aquele que conhece. E é isso que o levará à paz. Mas essa habilidade — de ir da obsessão com o conteúdo da experiência de volta ao estado de experienciar e àquilo que está experienciando — é simplificar, trazendo a mente cada vez mais para junto. A mente se torna cada vez mais composta e cada vez mais concentrada em um só ponto.
Então esta noite eu os convido a contemplar estes princípios que dão graça, beleza e significado à vida. Reconheça até que ponto eles já são parte de sua vida, e continue a cultivá-los conscientemente: princípios de não-violência, honestidade, integridade, castidade, amor e devoção à verdade, sobriedade e, acima de tudo, a constante clarificação e afiação do senso de conhecer.
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Notas de rodapé:
(1) renunciantes, ascetas, monásticos na época do Buda; literalmente: os pacíficos.
(2) Não fazer o mal, fazer o bem, purificar a mente — este é o ensinamento dos Budas. A melhor austeridade é a paciência paciente. Os Budas dizem que o Nibbāna é supremo. Aquele que renunciou não prejudica os outros; aquele que prejudica os outros não é um samaṇa. Não insultar, não causar nenhum dano, praticar a restrição do Pātimokkha, ser moderado ao tomar alimento, morar em lugar solitário, dedicar-se ao treinamento mental superior — este é o ensinamento dos Budas.

