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A Quarta Nobre Verdade

Posted on 14/12/202515/12/2025 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Sumedho

A Quarta Verdade Nobre

O que é a Nobre Verdade do Caminho que Conduz á Cessação do Sofrimento? É este Nobre Óctuplo Caminho, que é como dizer:Entendimento correcto, Intenção Correta, Linguagem Correta, Acção Correta, Meio de Vida correto, Esforço correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta. Existe esta Nobre Verdade do Caminho que Conduz à Cessação do Sofrimento do Sofrimento: tal foi a visão, revelação, sabedoria, verdadeiro conhecimento e luz que em mim surgiram acerca de coisas nunca antes ouvidas.
Esta Nobre Verdade deve ser penetrada cultivando o Caminho… Esta Nobre Verdade foi penetrada, cultivando o Caminho: tal foi a visão, revelação, sabedoria, verdadeiro conhecimento e luz que em mim surgiram acerca de coisas nunca antes ouvidas.
[Samyutta Nikaya 56, 11]

A Quarta Nobre Verdade, assim como as primeiras três, é composta por três fases. A primeira é que: ‘Existe o Óctuplo caminho, ou atthangika magga – o caminho para sair do sofrimento.’ É também chamado de ariya magga, o Ariyan ou Nobre Caminho. A segunda fase é que: ‘Este caminho deve ser desenvolvido’. A ultima revelação é: ‘Este caminho foi plenamente desenvolvido‘.

O Óctuplo caminho é apresentado numa sequência, começando com Entendimento Correto (ou perfeito), samma ditthi, seguindo-se a Intenção ou Aspiração Correta, samma sankappa; estes dois elementos do caminho são agrupados como Sabedoria (pañña). Compromisso moral (sila) fluí da sabedoria, que por sua vez abrange Linguagem Correta, Ação Correta, Meio de Vida Correto – por vezes referidos como, samma vaca, samma kammanta e samma ajiva.
Depois temos Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta, samma vayama, samma sati e samma samadhi, que fluem naturalmente do compromisso moral. Estes três últimos fornecem equilíbrio emocional. Eles falam acerca do coração – o coração que está livre da identificação com o Eu e do egoísmo. Com o Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta, o coração é puro, livre de impurezas e contaminações. Quando o coração está puro a mente está em paz. Sabedoria (pañña), ou Entendimento Correto e Aspiração Correta, nascem do coração puro. Isto leva-nos de volta ao início. Assim, estes são os elementos do Óctuplo Caminho, agrupados em três secções:

  1. Sabedoria (pañña)
    Entendimento Correto (samma ditthi)
    Aspiração Correta, (samma sankappa)
  2. Moralidade (sila)
    Linguagem Correta ( samma vaca )
    Acção Correta (samma kammanta )
    Meio de Vida Correto (samma ajiva)
  3. Concentração (samadhi)
    Esforço Correto (samma vayama)
    Atenção Plena Correta (samma sati)
    Concentração Correta (samma samadhi)

O fato de aqui os apresentarmos de forma ordenada não significa que os mesmos surjam desta forma linear ou nesta sequência – eles surgem em formato simultâneo. Quando falamos acerca do Caminho Óctuplo dizemos ‘Primeiro temos Entendimento Correto, depois temos Aspiração Correta, depois…’ Mas na realidade apresentado desta forma, ensina-nos simplesmente a refletir acerca da importância de aceitarmos a responsabilidade sobre aquilo que dizemos e fazemos nas nossa vidas.

Entendimento Correto

O primeiro aspecto do Óctuplo Caminho é o Entendimento Correto que nasce da penetração das três primeiras Nobres Verdades. Se tiveres esse vislumbre, terás perfeito entendimento acerca do Dhamma, o entendimento de que: ‘Tudo o que está sujeito a surgir está sujeito a cessar.’ É tão simples como isso. Não precisas de passar muito tempo a ler ‘Tudo o que está sujeito a surgir está sujeito a cessar’ para compreenderes as palavras. Mas leva bastante mais tempo para a maioria das pessoas perceber verdadeiramente o que as palavras significam no seu sentido mais profundo, em vez de terem simplesmente um entendimento cerebral.

Pondo isto em termos mais coloquiais, a verdadeira penetração é o conhecimento que surge do âmago e não somente de ideias. Deixa de ser, ‘Eu penso que sei’, ou ‘Ah! Sim, isso parece ser uma ideia razoavelmente sensata. Eu concordo com isso. Eu gosto dessa ideia.’ Este tipo de entendimento continua a ser mental, superficial, ao passo que o verdadeiro entendimento é bem mais profundo. É a verdadeira sabedoria em que as dúvidas deixam de ser um problema.

Este entendimento profundo provém da penetração das nove fases previamente mencionadas. Assim sendo, temos uma sequência que conduz ao Entendimento Correto das coisas tal como elas são, nomeadamente que: Tudo o que está sujeito a surgir está sujeito a cessar e não é o EU. Com Correto Entendimento tu abandonas a ilusão de um eu que está ligado a condições mortais. O corpo continua a existir, continuam a existir pensamentos e sentimentos, mas estes são simplesmente aquilo que são, deixa de existir a crença de que tu és o teu corpo, os teus pensamentos ou os teus sentimentos.

A ênfase é colocada em ‘As coisas são como são.’ Não estamos a sugerir que as coisas não são absolutamente nada ou que não são aquilo que são. Elas são exactamente aquilo que são e nada mais. Mas quando somos ignorantes, quando ainda não compreendemos estas verdades, temos a tendência de pensar que as coisas são mais do que aquilo que são. Acreditamos em todo o tipo de coisas e criamos todo o tipo de problemas em redor das condições que sentimos.

Grande parte da angústia e do desespero humano resulta daquele extra que adicionamos em determinado momento devido à nossa ignorância. É triste constatar que a miséria, a angústia e o desespero da humanidade está baseado numa ilusão; o desespero é vazio e sem sentido. Quando percebes isto, começas a sentir uma compaixão infinita por todos os seres. Como é possível odiares alguém ou guardares rancores ou condenar quem quer que seja que se encontre aprisionado nesta teia de ignorância? Toda a gente é influenciada a fazer aquilo que faz devido à sua visão incorrecta das coisas.

Com a prática de meditação, sentimos alguma tranquilidade, uma certa calma em que a mente abranda o passo. Quando olhamos para algo com uma mente calma, por exemplo uma flor, estamos a olhar para ela tal como é. Quando não existe qualquer apego, nada a ganhar ou nada do qual nos queiramos libertar, então se aquilo que vimos, ouvimos ou sentimos através dos sentidos for bonito, é verdadeiramente bonito. Não estamos a comparar, a criticar ou a tentar possuir; encontramos encanto e alegria na beleza à nossa volta e não necessitamos de lhe adicionar mais nada. Ela é exactamente aquilo que é.

A beleza relembra-nos a pureza e a verdade. Não a devemos ver como um engodo para nos iludir: ‘Estas flores estão aqui só para me atraírem e me iludirem’, essa é a atitude do velho meditante rabugento! Quando olhamos com um coração puro para um membro do sexo oposto, apreciamos a sua beleza sem o desejo de qualquer tipo de contato ou possessão. Quando não existe qualquer desejo ou interesse pessoal podemos deliciar-nos na beleza das outras pessoas, tanto homens como mulheres. Existe honestidade; as coisa são como são. Isto é o que queremos dizer com a palavra libertação ou vimutti em Pali. Estamos libertos destes laços que distorcem e corrompem a beleza à nossa volta, como por exemplo os nosso corpos. No entanto, as nossas mentes podem tornar-se tão corruptas, negativas, depressivas e obcecadas com certas coisas, que deixamos de as ver tal como são. Se não tivermos Entendimento Correto vemos tudo através de véus e filtros cada vez mais densos.

Entendimento Correto deve ser desenvolvido através da reflexão, utilizando os ensinamentos do Buddha. O Dhammacakkappavattana Sutta é um ensinamento bastante interessante para ser contemplado e utilizado como referência para a reflexão. Mas podemos usar outros suttas da Tipitaka, nomeadamente aqueles relacionados com paticcasamuppada (originação dependente). Este é um ensinamento fascinante para reflexão. Se conseguires contemplar tais ensinamentos, podes observar claramente a diferença entre a forma como as coisas são como Dhamma e o ponto em que tendemos a criar ilusões acerca da forma como as coisas são. É por esse motivo que temos de estabelecer atenção total e consciente nas coisas tal como elas são. Se existir o conhecimento das Quatro Nobres Verdades existe também o Dhamma.

Com Entendimento Correto tudo é visto como Dhamma; por exemplo: estamos aqui sentados…. Isto é Dhamma. Não pensamos neste corpo ou na mente como sendo a nossa personalidade com todos os seus pontos de vista, diferentes opiniões, todos os pensamentos condicionados e reacções que adquirimos devido à nossa ignorância. Reflectimos acerca deste momento, aqui e agora, como: ‘Isto é da forma que deve ser. Isto é Dhamma.’ Trazemos à mente o entendimento de que esta forma física é simplesmente Dhamma. Não é o eu; não é pessoal. Observamos também a sensibilidade desta forma física como Dhamma em vez de algo pessoal: ‘Eu sou sensível,’ ou ‘Eu não sou sensível;’ ‘Tu não és sensível para comigo. Quem é o mais sensível?’…’Porque é que sentimos dor? Porque é que Deus criou a dor; porque é que ele não criou somente prazer? Porque é que existe tanto sofrimento e infelicidade no mundo? É injusto. Pessoas morrem e temos de nos separar das pessoas que amamos; a angústia é terrível.’

Que Dhamma é que existe nisso? É tudo somente identificação pessoal: ‘Coitado de mim. Eu não gosto disto, eu não quero que seja desta forma. Eu quero segurança, felicidade, prazer e o melhor de tudo; não é justo que Eu não tenha estas coisas. Não é justo que quando eu vim ao mundo os meus pais não fossem ‘Arahants’. Não é justo que eles nunca elejam ‘Arahants’ para Primeiro Ministro de Inglaterra. Se tudo fosse justo eles elegeriam ‘Arahants’ para Primeiro Ministro!‘

Eu estou a tentar levar esta ideia de que ‘Isto não é justo, isto não está certo’ ao ponto do absurdo na tentativa de mostrar como nós esperamos que Deus nos dê tudo aquilo que necessitamos para sermos felizes. Isso é o que as pessoas geralmente pensam ainda que não o digam. Mas quando refletimos, observamos que ‘Tudo é da forma que deve ser. A dor é assim. O prazer é desta forma. A consciência é assim.’ Nós sentimos. Nós respiramos. Nós temos aspirações.

Quando refletimos contemplamos a nossa própria humanidade tal como ela é. Deixamos de nos relacionar com ela de forma pessoal ou de culpar quem quer que seja porque as coisas não são exactamente como nós gostamos ou queremos. Elas são como devem ser e nós somos como somos. Tu podes perguntar, porque é que não somos todos iguais, com a mesma cólera, o mesmo egoísmo e a mesma ignorância; sem todas as variações e permutações. Ainda que consigamos resumir a experiência humana aos seus elementos básicos, cada um de nós tem o seu kamma* para viver, as suas próprias obsessões e tendências, que são sempre diferentes em qualidade e quantidade às dos outros.

Porque é que não podemos ter igualdade, termos exatamente o mesmo de tudo, do bom e do mau, sermos todos exactamente iguais em termos de aparência, um único ser andrógino? Num mundo assim, nada seria injusto, diferenças não seriam permitidas, tudo seria absolutamente perfeito e não existiria a possibilidade de desigualdade. Mas ao reconhecermos o Dhamma vemos que, dentro do reino condicional, não existem duas coisas iguais. Tudo é bastante diferente, com infinitas variáveis e em constante mudança, e o quanto mais tentarmos manipular estas condições de acordo com as nossas ideias, mais frustrados ficamos. Tentamos criar os outros e a sociedade de forma a se encaixarem na nossa ideia de como as coisas devem de ser, mas acabamos sempre por ficar frustrados. Com reflexão, compreendemos: ‘É assim que isto deve ser,’ as coisas têm de ser desta forma e só podem ser desta forma. Ora, isto não é uma reflexão negativa ou fatalista. Não se trata de uma atitude de: ‘É assim que deve ser e não há mais nada a fazer.’ Mas sim uma resposta bastante positiva no sentido em que aceitamos o fluir da vida tal como nos é apresentada. Ainda que não seja aquilo que desejamos, podemos aceitá-lo e aprender.

Nós somos seres conscientes e inteligentes com capacidade de memória. Temos uma linguagem. Durante os últimos milhares de anos, desenvolvemos a capacidade de raciocínio, inteligência lógica e discriminativa. Aquilo que precisamos de fazer é tentar perceber como utilizar estas capacidades como ferramentas para a realização do Dhamma em vez de aquisições ou problemas pessoais. As pessoas que desenvolvem a inteligência discriminativa geralmente têm a tendência de a utilizar contra elas próprias tornando-se extremamente críticas de si próprias ou até começarem a odiar-se. Isto acontece porque as nossas faculdades discriminativas têm a tendência a focarem-se em tudo aquilo que está errado. Discriminação é isto mesmo: observar como isto é diferente daquilo . Quando utilizas este sistema contigo mesmo, com o que é que ficas? Somente com uma interminável lista de defeitos e culpas que te fazem parecer absolutamente desesperado.

Quando desenvolvemos Entendimento Correto utilizamos a nossa inteligência para reflectir e contemplar acerca das coisas. Utilizamos também a nossa atenção plena, sendo abertos para a forma como as coisas são. Quando reflectimos desta forma estamos a utilizar atenção plena e sabedoria em conjunção. Neste caso estamos a utilizar a nossa capacidade discriminativa com sabedoria (vijja) em vez de ignorância (avijja). Este ensinamento das Quatro Nobres Verdades é para te ajudar a utilizar a inteligência, a habilidade de contemplar, reflectir e pensar, de forma sábia e não de forma auto-destrutiva, egoísta ou rancorosa.

Aspiração Correcta

O segundo elemento do Óctuplo Caminho é samma sankappa . Por vezes sendo traduzido como ‘Pensamento Correto’, pensar de forma correcta. Mas na realidade ele possui uma qualidade mais dinâmica, como por exemplo ‘intenção’, ‘atitude’ ou ‘aspiração’. Eu gosto de utilizar o termo ‘aspiração’ que de certa forma é bastante significativo neste Óctuplo Caminho, porque nós aspiramos.
É importante perceber que aspiração não é desejo. Em Pali a palavra ‘ tanha ‘ significa desejo que provem da ignorância, ao passo que ‘sankappa‘ significa aspiração que não surge da ignorância. Podes pensar que aspiração é um tipo de tanha, querer ser iluminado (bhava tanha), mas samma sankappa tem origem no Entendimento Correto, observar claramente. Não é querermos tornar-nos em algo, nem sequer se trata do desejo de sermos iluminados. Com Entendimento Correto toda essa ilusão e forma de pensar deixa de fazer qualquer sentido.

Aspiração é um sentimento, intenção, atitude ou movimento dentro de nós. O nosso espírito eleva-se, não se afunda, não é desespero! Quando temos Entendimento Correto aspiramos à verdade, beleza e bondade. Samma ditthi e samma sankappa, Entendimento Correto e Aspiração Correta, são chamados de pañña ou sabedoria e formam a primeira das três secções no Óctuplo Caminho.

◊ ◊ ◊

Podemos contemplar: Porque é que ainda nos sentimos insatisfeitos, mesmo quando possuímos o melhor de tudo? Mesmo que tenhamos uma bonita casa, um carro, o casamento perfeito, filhos bons e inteligentes e tudo o resto não estamos completamente felizes e certamente não estamos satisfeitos quando não temos todas estas coisas!…Se não as temos, podemos pensar, ‘Bem, se eu tivesse o melhor, aí estaria satisfeito.’ Mas não estaríamos! A terra não é o lugar para o nosso contentamento; nem é suposto ser. Quando compreendemos isso, deixamos de esperar contentamento do planeta terra; deixamos de fazer tal exigência.

Até percebermos que este planeta não pode satisfazer todos os nossos quereres, continuaremos a perguntar, ‘Porque é que não me satisfazes, Terra Mãe?’ Nós somos como meninos de mamã, constantemente a tentar sugar mais, e a querer que ela nos nutra e nos torne felizes.

Se tivéssemos contentamento não nos questionaríamos acerca das coisas à nossa volta. No entanto reconhecemos que existe algo mais para além da terra debaixo dos nossos pés; existe algo acima de nós que não conseguimos bem entender. Nós temos a capacidade de questionar e ponderar acerca da vida, de contemplar o seu significado. Se quiseres saber qual o significado da tua vida, não podes estar somente satisfeito com bens materiais, conforto e segurança.

E assim sendo nós aspiramos a saber a verdade. Podes pensar que isso é um tipo de presunção, ‘Quem é que eu penso que sou? Tão pequeno e insignificante a tentar descobrir a verdade acerca de tudo.’ Mas essa aspiração existe. Se tal não fosse possível porque é que a teríamos? Considera o conceito da realidade suprema. Uma verdade absoluta ou suprema é um conceito muito refinado; a ideia de Deus ou da imortalidade é de facto um pensamento muito refinado.

Nós aspiramos ao conhecimento dessa derradeira realidade. O nosso lado animal não aspira; não sabe nada acerca de tais aspirações. Mas existe em cada um de nós uma inteligência intuitiva que quer saber, que está sempre connosco, mas que temos a tendência de não a notar nem a compreender. Temos a tendência de a ignorar ou de não confiar nela, em especial os novos materialistas. Estes pensam que se trata somente de uma fantasia.

Quanto a mim próprio, fiquei verdadeiramente feliz quando compreendi que o planeta não é a minha verdadeira casa. Foi algo de que sempre suspeitei. Lembro-me pensar, ainda enquanto criança, ‘Eu acho que não pertenço a este lugar.’ Nunca senti que o planeta Terra fosse onde eu realmente pertencesse, mesmo antes de ser monge, nunca senti que me encaixasse na sociedade. Para algumas pessoas isso poderia ser apenas um problema neurótico, mas talvez também pudesse ser aquele tipo de intuição que as crianças geralmente têm. Quando és inocente a tua mente é bastante intuitiva.

A mente de uma criança está mais intuitivamente em contato com forças misteriosas do que a mente da maior parte dos adultos. À medida que crescemos tornamo-nos condicionados a pensar de formas pré-determinadas e a ter ideias bem definidas acerca daquilo que é real e daquilo que não é. À medida que desenvolvemos os nossos egos a sociedade dita aquilo que é verdadeiro e o que não é, o que está certo e o que está errado, e assim começamos a interpretar o mundo através dessas percepções fixas. Uma das coisas que achamos encantador nas crianças é o facto de elas ainda não o fazerem; elas ainda vêem o mundo com a mente intuitiva que ainda não se encontra condicionada.

A meditação é uma forma de descondicionar a mente e assim ajudar-nos a abrir mão de todas as opiniões extremas e ideias fixas que possuímos. Normalmente aquilo que é real é posto de parte ao passo que àquilo que não é real damos toda a nossa atenção. Ignorância, ou avijja , é isto mesmo.

A contemplação da nossa aspiração humana liga-nos a algo superior do que somente o reino animal ou o planeta terra. Para mim essa ligação parece ser mais verdadeira do que a ideia de que isto é tudo o que existe; de que quando morremos os nossos corpos apodrecem e nada mais existe para além disso. Quando ponderamos e questionamos acerca deste universo em que vivemos, percebemos que é muito vasto, misterioso e incompreensível. No entanto quando confiamos abertamente na nossa mente intuitiva e abdicamos das nossa reações fixas e condicionadas, podemos tornar-nos mais receptivos a coisas que talvez já tenhamos esquecido ou para as quais nunca antes nos abrimos.

Podemos ter a ideia fixa de que somos uma personalidade, de sermos um homem ou uma mulher, sermos Portugueses, Ingleses ou Americanos. Estas coisas podem ser bem verdadeiras para nós, e podemos transtornar-nos e zangar-nos por causa delas. Até estamos dispostos a matar-nos uns aos outros por causa destas opiniões condicionadas em que acreditamos e às quais nos apegamos sem nunca sequer as questionarmos. Sem Aspiração Correta e Entendimento Correto, sem pañña , nunca conseguiremos ver a verdadeira natureza destas opiniões.

Linguagem Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto

Sila , o aspecto moral do Óctuplo Caminho, consiste em Linguagem Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto, isto significa tomar responsabilidade pela forma como falamos e termos cuidado com aquilo que fazemos com os nossos corpos. Quando estou plenamente atento, falo de forma apropriada ao lugar e ao momento; da mesma maneira, actuo ou trabalho de acordo com o momento e o lugar.

Começamos então a compreender que temos de ter cuidado com aquilo que dizemos e fazemos senão magoamo-nos constantemente. Se dizes ou fazes coisas que são cruéis ou injustas recebes sempre o resultado das tuas acções. No passado podes ter evitado a responsabilidade da mentira, com distracções, para assim não teres de pensar muito acerca da mesma. Por uns tempos podes esquecer-te de tudo isso, até que eventualmente a mentira apanha-te, mas se praticar-mos sila, tudo é mais imediato. Até quando exagero, algo em mim diz, ‘Não deves exagerar, deves ter mais cuidado.’ Eu tinha o hábito de exagerar as coisas, é parte da nossa cultura; algo perfeitamente normal. Mas quando estás plenamente consciente o efeito da mais pequena mentira é sentido de imediato, porque estás completamente aberto, vulnerável e sensível. Assim tens mais cuidado com aquilo que fazes; percebes que é importante ser responsável pelos teus atos.

O impulso para ajudar os outros é bom dhamma*. Se vires alguém desmaiar e cair ao chão o bom dhamma surge-te na mente: ‘Ajuda esta pessoa,’ e em seguida dispões-te a ajudar essa pessoa a recuperar do desmaio. Se o fizeres com uma mente vazia, sem qualquer interesse pessoal, somente por compaixão e por ser aquilo que é correcto fazer-se, aí toda essa situação é simplesmente dhamma , bom dhamma . Não é kamma pessoal; não é teu. Mas se o fizeres por desejo de ganhares mérito e de impressionares os outros ou porque a pessoa é rica e tu esperas receber uma recompensa pela tua acção, aí, ainda que a ação seja honrosa, estás a fazer uma ligação pessoal com a situação e isto reforça a ideia do eu. Quando fazemos bons trabalhos motivados pela atenção plena e pela sabedoria em vez da ignorância, temos bons dhammas sem kamma pessoal.

A ordem monástica foi estabelecida pelo Buddha para que homens e mulheres pudessem viver uma vida impecável e completamente irrepreensível. Como monge vives de acordo com um completo sistema de preceitos para treino, chamados de disciplina Pattimokkha. Quando vives sob esta disciplina, ainda que as tuas acções ou linguagem sejam descuidadas, pelo menos não deixam fortes impressões. Não podes possuir dinheiro e por isso não podes ir a lugar algum até que sejas convidado. És celibatário. Como vives da recolha de oferendas, não matas quaisquer animais. Nem sequer colhes flores ou folhas ou fazes qualquer tipo de acção que possa de alguma forma perturbar o fluir natural; és completamente inofensivo. De fato, na Tailândia tinhamos de trazer sempre conosco filtros de água para que assim pudesse-mos filtrar quaisquer seres vivos que estivessem na água, tais como as larvas de mosquito. É totalmente proibido matar intencionalmente seja o que for.

Há já quarenta e um anos que vivo sob esta regra, por isso não tenho feito nenhuma pesada ação kammica. Sob esta disciplina, vivemos de uma forma bastante inofensiva e responsável. Talvez a parte mais difícil seja em relação ao uso da linguagem; os hábitos de linguagem são os mais difíceis de mudar e de abandonar, mas tentamos sempre melhorá-los. Com reflexão e contemplação, começamos a ver como é desagradável dizer idiotices ou simplesmente falar por falar.

Para as pessoas leigas, Meio de Vida Correto é algo que é desenvolvido à medida que começas a perceber quais são as tuas intenções naquilo que tu fazes. Podes tentar evitar fazer mal propositadamente a outras criaturas ou ganhares a vida de forma maliciosa. Podes também evitar ter um meio de vida que faça com que outras pessoas possam tornar-se dependentes de drogas ou álcool ou algo que possa pôr em risco o equilíbrio ecológico do planeta. Assim estes três, Ação Correta, Linguagem Correta e Modo de Vida Correto, surgem em seguida do Entendimento Correto ou perfeita sabedoria. Começamos a sentir que queremos viver de uma forma que seja uma benção para este planeta ou que pelo menos não o maltrate.

Entendimento Correto e Aspiração Correta têm definitivamente influência naquilo que fazemos e dizemos. Assim pañña , ou sabedoria, conduz a sila : Linguagem Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto. Sila faz referência às nossas ações e linguagem; com sila contemos o impulso sexual ou o uso do corpo de forma violenta, não o utilizamos para matar ou para roubar. Desta forma, pañña e sila trabalham juntas em perfeita harmonia.

Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta

Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta fazem referência ao teu espírito, ao coração. Quando pensamos no espírito, apontamos para o meio do peito, para o coração. Assim temos pañña (a cabeça), sila (o corpo) e samadhi (o coração). Podes usar o teu próprio corpo como uma espécie de mapa, o símbolo do Óctuplo Caminho. Os três estão integrados, trabalhando juntos para a realização e apoiando-se mutuamente como um tripé. Nenhum domina o outro nem explora ou rejeita o que quer que seja.

Trabalham juntos: a sabedoria do Entendimento Correto e da Intenção Correta; depois a moralidade, que são a Linguagem Correta, Acção Correta e Modo de Vida Correto; e Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta, a mente equânime e equilibrada, a serenidade emocional. A serenidade é onde as emoções são equilibradas, apoiando-se umas às outras. Não têm altos e baixos. Existe uma sensação de felicidade, de serenidade; perfeita harmonia entre o intelecto, os instintos e as emoções. Ajudando-se e apoiando-se mutuamente. Deixam de estar em conflito levando- nos a extremos e por essa razão, começamos a sentir uma tremenda paz nas nossas mentes. Há uma sensação intrépida e de á vontade que provem do Óctuplo Caminho, uma sensação de equanimidade e equilíbrio emocional. Sentimos bem estar em vez daquela sensação de ansiedade, tensão e conflito emocional. Temos clareza, temos felicidade, serenidade, saber. Esta revelação do Óctuplo Caminho deve ser cultivada, isto é bhavana . Usamos esta palavra com o significado desenvolvimento.

Aspectos da meditação

Esta mente reflectiva ou equilíbrio emocional é desenvolvido com base na prática da meditação e respectivas técnicas de concentração e atenção plena. Por exemplo, durante um retiro podes experimentar passar uma hora a praticar meditação samatha em que somente concentras a tua mente num objecto, digamos a sensação da respiração. Continua a trazelo à consciência e mantém- no de modo a que adquira uma presença continua na mente.

Deste modo, estás a mover-te na direcção daquilo que se está a passar no teu próprio corpo em vez de seres puxado para o exterior para os objectos dos sentidos. Se não tiveres nenhum refúgio no interior estás constantemente a sair, a ser absorvido em livros, comida e todo o tipo de distracções. Mas este imparável movimento da mente é muito cansativo. E assim em vez disso, a prática torna-se na absorção da respiração, que significa teres de te remover ou não seguir a tendência de procurar algo fora de ti. Tens de trazer a atenção para a respiração do teu próprio corpo e concentrar a mente nessa sensação.

À medida que largas a forma grosseira estás na realidade a tornar-te nessa sensação, no próprio símbolo. Durante um certo período de tempo tornas-te naquilo em que te absorves. Quando realmente te concentras tornas-te nessa mesma condição tranquilizadora. Tornaste-te tranquilo. A meditação samatha é esse processo de transformação.

Mas se investigares essa tranquilidade, percebes que não é satisfatória. Falta-lhe algo pois está dependente de uma técnica, apegada a algo que tem um principio e um fim. Aquilo em que te tornas, é temporário pois a mudança, (como a palavra sugere), é algo que se altera, uma condição impermanente. Não é a derradeira realidade. Não importa o quanto avances na concentração, será sempre uma condição insatisfatória. A meditação samatha leva-te a grandes e radiantes experiências na mente, mas todas elas terminam.

Depois, se praticares meditação vipassana por mais uma hora, estando totalmente presente, largando tudo e aceitando a incerteza, o silêncio e a cessação das condições, o resultado é que te tornarás pacífico em vez de simplesmente tranquilo. E essa é a paz perfeita, completa. Não é como a tranquilidade da meditação samatha que possui, mesmo no seu auge, algo imperfeito e insatisfatório na sua sua natureza. Quanto à realização da cessação, ao passo que a desenvolves e a compreendes melhor, adquires verdadeira paz e não apego, Nibbana.

Assim sendo samatha e vipassana são as duas divisões na Meditação. Desenvolvemos estados de mente concentrados em que a consciência se torna refinada através dessa mesma concentração. Mas ser imensamente refinado, possuir um grande intelecto e gosto pela grande beleza, faz com que tudo aquilo que é grosseiro se torne intolerável devido ao apego àquilo que é refinado. As pessoa que dedicaram a vida somente ao refinamento e ao requinte acham a vida terrivelmente frustrante e assustadora quando deixam de poder manter padrões tão elevados.

Racionalidade e emoção

Se admiras o pensamento racional e és apegado a ideias e percepções, tens a tendência de desprezar as emoções. Podes observar esta tendência se quando começares a sentir emoções disseres, ‘Vou apagá-las da minha mente. Não quero sentir essas coisas. ‘Não gostas de sentir nada porque dessa forma podes entrar numa boa vibração, causada pela pureza da inteligência e pelo prazer do pensamento racional. A mente aprecia a sua forma lógica e controlada, a forma como consegue fazer sentido. É simplesmente límpida, organizada e precisa como a matemática, mas as emoções estão todas confusas, não estão? Não são precisas, não são organizadas e podem facilmente perder o controle (como a palavra sugere), é algo que se altera, uma condição impermanente. Não é a derradeira realidade. Não importa o quanto avances na concentração, será sempre uma condição insatisfatória. A meditação samatha leva-te a grandes e radiantes experiências na mente, mas todas elas terminam.

Depois, se praticares meditação vipassana por mais uma hora, estando totalmente presente, largando tudo e aceitando a incerteza, o silêncio e a cessação das condições, o resultado é que te tornarás pacífico em vez de simplesmente tranquilo. E essa é a paz perfeita, completa. Não é como a tranquilidade da meditação samatha que possui, mesmo no seu auge, algo imperfeito e insatisfatório na sua sua natureza. Quanto à realização da cessação, ao passo que a desenvolves e a compreendes melhor, adquires verdadeira paz e não apego, Nibbana.

Assim sendo samatha e vipassana são as duas divisões na meditação. Desenvolvemos estados de mente concentrados em que a consciência se torna refinada através dessa mesma concentração. Mas ser imensamente refinado, possuir um grande intelecto e gosto pela grande beleza, faz com que tudo aquilo que é grosseiro se torne intolerável devido ao apego àquilo que é refinado. As pessoa que dedicaram a vida somente ao refinamento e ao requinte acham a vida terrivelmente frustrante e assustadora quando deixam de poder manter padrões tão elevados.

Racionalidade e emoção

Se admiras o pensamento racional e és apegado a ideias e percepções, tens a tendência de desprezar as emoções. Podes observar esta tendência se quando começares a sentir emoções disseres, ‘Vou apagá-las da minha mente. Não quero sentir essas coisas. ‘Não gostas de sentir nada porque dessa forma podes entrar numa boa vibração, causada pela pureza da inteligência e pelo prazer do pensamento racional. A mente aprecia a sua forma lógica e controlada, a forma como consegue fazer sentido. É simplesmente límpida, organizada e precisa como a matemática, mas as emoções estão todas confusas, não estão? Não são precisas, não são organizadas e podem facilmente perder o controle pessoas geralmente acham as emoções embaraçosas; se ficas um pouco mais emocionado, assumem que deves ser Italiano ou de qualquer outra nacionalidade.

Se és muito racional e tens tudo bem delineado, ficas sem saber o que fazer quando as pessoas ficam emocionadas. Se alguém começa a chorar, pensas, ‘O que é que devo fazer?’ Talvez digas, ‘Anima-te; está tudo bem querida. Vai ficar tudo bem, não há motivo para chorar.’ Se fores muito apegado ao pensamento racional tens tendência de, com a lógica, ignorar as emoções; mas as emoções não respondem à lógica. Muitas vezes reagem mas não respondem à lógica. Emoção é uma coisa muita sensível e opera de uma forma que por vezes não compreendemos. Se nunca estudamos ou tentamos compreender o que realmente significa sentir a vida e nos abrimos, permitindo sermos sensíveis, as coisas emocionais parecem-nos muito assustadoras e embaraçosas. Não percebemos do que se tratam pois rejeitamos esse aspecto de nós mesmos. No meu trigésimo aniversário, compreendi que era um homem emocionalmente subdesenvolvido. Foi um aniversário importante para mim.

Compreendi que era um homem feito e maduro. Já não me considerava um jovem, mas emocionalmente penso que por vezes reagia como se tivesse seis anos de idade. A esse nível não me tinha desenvolvido muito. Ainda que conseguisse manter a pose e a presença de um homem maduro na sociedade, nem sempre me sentia dessa forma. Ainda tinha na minha mente sentimentos e medos muito fortes para serem resolvidos. Tornou-se aparente que teria de fazer algo acerca dessa situação, pois a ideia de ter de passar o resto da minha vida ao nível emocional de seis anos era uma triste perspectiva.

É aqui que muitos de nós nesta nossa sociedade ficam encalhados. Por exemplo, a sociedade Americana não permite que te desenvolvas emocionalmente, que amadureças. Não compreende mesmo essa necessidade, por esse motivo não fornece quaisquer rituais de passagem para os homens. A sociedade não fornece esse tipo de introdução ao mundo da maturidade; deves ser imaturo toda a tua vida. Deves agir com maturidade, mas ninguém espera que sejas maduro. Por essa razão muito poucas pessoas o são. Na realidade as emoções não são compreendidas ou resolvidas, as tendências infantis são meramente suprimidas em vez de desenvolvidas em maturidade.

O que a Meditação faz é oferecer uma oportunidade de amadurecimento no plano emocional. Perfeita maturidade emocional seria samma vayama, samma sati e samma samadhi . Isto é uma reflexão; não encontrarás isto em nenhum livro, é para tu contemplares. Perfeita maturidade emocional inclui Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta. Está presente quando não estamos envolvidos em flutuações e vicissitudes, onde temos equilíbrio e clareza e somos capazes de ser sensíveis e receptivos.

As coisas tal como são

Com Esforço Correto podes aceitar as diferentes situações com calma em vez do pânico que surge por pensares que está dependente de ti pôr toda a gente na linha, tornar tudo certo e resolver os problemas de todos. Fazemos o melhor que podemos, mas compreendemos que não depende só de nós fazer tudo isto ou tornar tudo melhor.

A dada altura, quando estava em Wat Pah Pong (Ubon Rachtatani, Tailândia) com o Ajahn Chah, apercebi-me de muitas coisas que estavam erradas no mosteiro. Então fui ter com ele e disse, ‘Ajahn Chah, isto não está a correr bem; tem de fazer algo.’ Ele olhou para mim e disse, ‘Oh, sofres tanto, Sumedho. Tu sofres tanto. Tudo isso mudará.’ E eu pensei, ‘Ele não quer saber! Este é o mosteiro ao qual ele dedicou a vida e está a deixar tudo ir pelo cano abaixo!’ Mas ele tinha razão. Passado certo tempo a situação começou a mudar e, somente devido ao fato de suportar a situação calma e pacientemente, as pessoas começaram a perceber o que estavam a fazer. Às vezes temos de deixar as coisas ir pelo cano abaixo para que as pessoas possam perceber essa experiência.

Percebes o que quero dizer? Por vezes certas situações na nossa vida são assim. Não há nada que possamos fazer, por isso permitimos as coisas serem como são; ainda que se tornem piores permitimos que assim seja. Mas ao fazermos isto não estamos a reagir de forma negativa ou fatalista; é um tipo de paciência, estar disposto a suportar algo permitindo que a situação mude naturalmente em vez de egotisticamente tentarmos aprumar e limpar tudo porque não gostamos ou temos aversão à confusão.

Então, quando as pessoas nos perturbam, nem sempre nos ofendemos, magoamos ou ficamos transtornados com o que acontece, não ficamos despedaçados ou destruídos com aquilo que nos possam dizer ou fazer. Conheço uma pessoa que tem a tendência a exagerar tudo. Se hoje algo corre mal, ela diz, ‘Estou totalmente destruída!’, quando o que aconteceu foi apenas um pequeno problema. No entanto a mente dela exagera-o de tal forma que uma coisa insignificante pode completamente destrui-la para o resto do dia. Quando notamos isto, devemos compreender que estamos perante um grande desequilíbrio, pois pequenas coisas não devem despedaçar ninguém por completo.

Eu compreendi que me posso ofender facilmente e por isso fiz um voto de que jamais me iria ofender. Tinha notado como era fácil me ofender por causa de pequenas coisas, quer fossem ou não intencionais. Podemos ver como é fácil alimentar dor, magoa, ofensa, tristeza ou preocupação, como algo em nós está sempre a tentar ser simpático, mas que sempre se sente um pouco ofendido com isto ou um pouco magoado com aquilo. Com reflexão, podes ver que o mundo é assim; é um lugar sensível. Nem sempre te vai confortar e fazer sentir feliz, seguro e positivo. A vida está repleta de coisas que podem ofender, magoar, ferir ou despedaçar. Isto é a vida. Ela é assim. Se alguém falar num tom de voz mais exaltado, claro que o vais sentir. Mas depois a mente pode continuar a proliferar e ficar ofendida: ‘Magoou-me mesmo quando ela disse aquilo; tu sabes, não foi um tom de voz muito agradável. Senti-me muito magoado. Nunca fiz nada para a magoar.’ A mente continua a proliferar desta forma, não é? Foste despedaçado, magoado ou ofendido! Mas ai se contemplares, percebes que é somente sensibilidade.

Quando contemplas desta forma não quer dizer que estejas a tentar não sentir. Quando alguém fala para ti num tom de voz desagradável não é que não o sintas. Não estamos a tentar ser insensíveis. Mas antes a tentar não o interpretar de forma errada, a não o tomar de forma pessoal. Ter emoções equilibradas significa que as pessoas podem dizer coisas que são ofensivas e tu sabes aceita-las. Tens equilíbrio e força emocional para não te ofenderes, ferires ou te despedaçares com aquilo que acontece na vida.

Se és alguém que está sempre a ser magoado ou ofendido, tens de passar a vida a fugir e a esconder-te ou então tens de encontrar um grupo de lambe-botas subservientes com quem possas viver, pessoas que dizem: ‘Você é maravilhoso, Ajahn Sumedho.’ ‘Será que sou mesmo maravilhoso?‘ ‘É pois.’ ‘Está a dizer isso só por dizer, não é?’ ‘ Não, não! Acredite, é do fundo do coração.’ ‘ Bem, aquela pessoa ali não acredita que eu seja maravilhoso.’ ‘Ora, ele é estúpido!’ ‘Isso foi o que eu pensei.’ É como a história da nova roupa do rei, não é? Tens de procurar ambientes especiais em que tudo seja do teu agrado, seguro e sem quaisquer ameaças.

Harmonia

Quando existe Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta, tornamo-nos intrépidos. Somos intrépidos porque não há nada de que ter medo. Temos a coragem de ver as coisas e de não as interpretar de forma errada; temas a sabedoria para contemplar e reflectir acerca da vida; temos a segurança e confiança do sila , a força do nosso compromisso moral e a determinação de fazer o bem e evitar fazer mal, com o corpo ou com palavras. Desta forma, todas as peças se encaixam para formar o caminho para o desenvolvimento. É um caminho perfeito porque tudo ajuda e apoia; o corpo, a natureza emocional (a sensibilidade do sentimento) e a inteligência. Todos estão em perfeita harmonia, apoiando-se mutuamente.

Sem essa harmonia o nosso instinto natural pode tornar-se disperso e confuso. Se não tivermos nenhum compromisso moral os nossos instintos podem tomar o controle. Por exemplo, se somente seguirmos os desejos sexuais sem qualquer referência moral, tornamo-nos presos a todo o tipo de coisas que causam aversão pessoal. Existe adultério, promiscuidade e doença, e toda a perturbação e confusão que provem de não habitarmos no nosso instinto natural com as limitações da moralidade.

Podemos usar a nossa inteligência para enganar e mentir, não podemos? Mas quando temos uma fundação moral somos guiados pela sabedoria e pelo samadhi ; estes conduzem a equilíbrio e força emocional. Mas não usamos sabedoria para suprimir a sensibilidade. Não dominamos as nossas emoções com o pensamento ou suprimindo a sua natureza. Esta tem sido a nossa tendência no Ocidente; usamos os nossos pensamentos racionais e ideais para dominar e suprimir as nossas emoções, e assim tornarmo-nos insensíveis para com a vida e para com nós mesmos.

No entanto, através da meditação vipassana e da prática de atenção plena, a mente fica totalmente receptiva e aberta, possuindo as qualidades de plenitude e total aceitação. E porque fica aberta a mente também se torna reflectiva. Quando te concentras num ponto a tua mente deixa de ser reflectiva, fica absorvida na qualidade desse objecto. A capacidade reflectiva da mente vem através da atenção plena. Não filtras ou seleccionas nada. Estás simplesmente a notar que tudo aquilo que surge cessa. Contemplas que se estás apegado a qualquer coisa que surge, ela cessa. Tens a experiência de que ainda que no inicio ela seja atractiva, tudo muda em direcção à cessação. Aí a sua atracção diminui e temos de encontrar outra coisa para nos absorvermos.

A questão acerca de se ser humano é que temos de tocar a terra, temos de aceitar as limitações desta forma física e desta vida planetária. O caminho para sair do sofrimento não se encontra através do abandono da nossa experiência humana, vivendo em refinados estados de consciência, mas através do abraçar a totalidade do reino humano e Bramico através da atenção plena. Desta forma, o Buddha indicou o caminho para a realização total em vez de uma fuga momentânea através de refinamento e beleza. Isto é o que o Buddha quis dizer quando nos indicou o caminho para o Nibbana.

O Caminho Óctuplo como ensinamento de reflexão

Neste Óctuplo Caminho os oito elementos são como oito pernas a suportar-te. Não é como: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 numa escala linear; é mais como, um trabalho em grupo. Não é que primeiro desenvolvas pañña e só depois, quando tens pañña , desenvolvas o teu sila ; e uma vez que o teu sila esteja desenvolvido, ai adquires o samadhi . É assim que pensamos, não é? ‘Tens de ter um, depois dois e depois três.’ Como realização propriamente dita, desenvolver o Óctuplo Caminho é uma experiência num momento. Todas as partes estão a trabalhar como um forte desenvolvimento; não é um processo linear, podemos pensar que assim é porque só podemos ter um pensamento de cada vez.

Tudo o que disse acerca do Óctuplo Caminho e das Quatro Nobres Verdades é somente uma reflexão. O que é verdadeiramente importante é que tu percebas mesmo o que estou a fazer quando reflicto em vez de te apegares às coisas que estou a dizer. É um processo de trazer o Óctuplo Caminho à tua mente, usando-o como ensinamento reflectivo para que possas considerar o que realmente significa. Não penses que o compreendes somente porque sabes explicar,

‘ Samma ditthi significa Entendimento Correto. Samma sankappa significa Pensamento Correto.’ Isto é entendimento intelectual. Alguém pode dizer, ‘Não, eu penso que samma sankappa significa…’ e tu respondes, ‘Não, no livro diz Pensamento Correto. Tu estás errado.’ Isso não é reflexão. Podemos traduzir samma sankappa como Pensamento Correto ou Atitude ou Intenção; experimentamos com os diferentes significados. Podemos utiliza-los como ferramentas para contemplação em vez de pensarmos que são absolutamente fixos, e que temos de os aceitar num estilo ortodoxo; qualquer tipo de variação da interpretação exacta é heresia. Por vezes as nossas mentes pensam dessa forma rígida, mas estamos a tentar transcender essa maneira de pensar, desenvolvendo uma mente que se move em redor, observa, investiga, considera, questiona e reflete.

Estou a tentar encorajar cada um de vós a ser suficientemente corajoso para sensatamente considerar a forma como as coisas são, em vez de terem alguém a vos dizer se estão ou não preparados para a iluminação. Na realidade o ensinamento Budista é acerca de se ser iluminado em vez de se fazer alguma coisa para nos tornarmos iluminados. A ideia de que tens de fazer algo para te tornares iluminado só pode ter origem no entendimento incorreto. Dessa forma a iluminação é somente mais uma condição dependente de outra, assim não e realmente iluminação. É somente uma percepção da iluminação. Todavia, não estou a falar de nenhum tipo de percepção mas acerca de estarmos alertas à forma como as coisas são. O momento presente é a única coisa que realmente podemos observar: ainda não podemos observar o amanhã, e o ontem e só uma memória. Mas a prática Budista é muito directa, aqui e agora, olhando para as coisas como elas são.

Ora, como é que fazemos isso? Bem, primeiro temos de olhar para as nossas dúvidas e medos, pois tornamo-nos tão apegados às nossas opiniões que as mesmas nos levam a ter dúvidas acerca do que estamos a fazer. Alguém pode desenvolver uma falsa confiança e acreditar que é iluminado. Mas acreditar que és ou que não és iluminado são tudo ilusões. Aquilo que estou a indicar é o ser iluminado em vez de apenas acreditarmos que somos iluminados. E para isso temos de nos abrir às coisas tal como elas são.

Começamos com as coisas como elas são neste preciso momento, tal como a respiração do nosso próprio corpo. O que é que isso tem a ver com a Verdade, com a Iluminação? Será que observar a minha respiração significa que sou Iluminado? Mas quanto mais tentas pensar acerca disso e perceber o que é, mais incerto e inseguro te sentirás. Tudo o que podemos fazer nesta forma física é abandonar a ilusão. Essa é a prática das Quatro Nobres Verdades e o desenvolvimento do Óctuplo Caminho.

Para saber sobre a TERCEIRA NOBRE VERDADE acesse o LINK:
https://theravada.trd.br/a-terceira-nobre-verdade/

GLOSSÁRIO

Ajahn – palavra Tailandesa para mestre, mentor, professor; frequentemente utilizada como titulo para monges seniores. Palavra equivalente ao Pāli ‘ acariya ‘.

Bhikkhu – mendicante de almas (oferendas); termo para o monge Budista que vive da oferta de almas e acata os preceitos de treino que definem a vida de renúncia e moralidade.

Buddha rupa – uma imagem do Buddha.

Dhamma – esta palavra tem vários significados, tais como: a lei da verdade universal, a natureza ou constituição das coisas, lei, norma, objecto da mente, fenómenos ou princípios de comportamento que ao serem seguidos levam os seres humanos a se integrarem na ordem natural das coisas; qualidades da mente a ser desenvolvidas para se poder compreender a qualidade da mente em si mesma. Nos textos a palavra é encontrada com todos estes significados. Quando capitalizado, „Dhamma‟ refere-se tanto aos ensinamentos do Buddha contidos nas escrituras como à experiência directa da verdade suprema para o qual os seus ensinamentos estão direccionados.

Dia de Observância – (em Pāli: Uposatha ) um dia sagrado ou ‘sabbath‘, ocorre em todos dias de lua nova e lua cheia. Nestes dias os Budistas reúnem-se para ouvir o Dhamma e reafirmam a sua prática em termos de preceitos e meditação.

Kamma – (em Sanscrito: karma) acção ou causa que é criada ou recriada pelos impulsos habituais, vontade própria ou energias naturais. Denota a vontade benéfica ou prejudicial que se manifesta com o corpo, linguagem e mente. Marcas ou impressões que ficam na nossa mente causando o renascimento e moldando o destino dos seres. Popularmente usado, muitas vezes inclui o sentido de resultado ou efeito da acção, embora o termo correto para isto seja vipaka.

Paticcasamuppada – a apresentação por etapas de como o sofrimento surge dependente da ignorância e do desejo e de como termina com a sua cessação.

Tipitaka – literalmente ‘três cestos’, a colecção das escrituras Budistas, classificadas de acordo com Sutta PITAKA (Discursos), Vinaya PITAKA (Disciplina ou Treino) e Abhidhamma PITAKA(Metafisica).

Vipassanā – significa ver a verdadeira natureza das coisas, como elas realmente são. É um processo de auto-transformação através da auto-observação. Um método analítico baseado na atenção plena, vigilância e investigação dos fenómenos manifestados nos cinco agregados ‘ khandha ‘, nomeadamente forma física ‘ rūpa ‘, sensações ou sentimentos ‘ vedanā ‘, percepção ‘ saññā ‘, formações mentais ‘ sankhāra ‘ e consciência ‘ viññāna ‘.

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