Ajahn Dtun e Ajahn Golf
As Qualidades de um Entrante na Correnteza (Sotāpanna)
Com a prática contínua, quando a mente atinge um nível de maturidade, surge a capacidade de ver verdadeiramente a natureza do envelhecimento, da doença e da morte. Percebe-se claramente: “Este corpo não sou ‘EU‘; ele está sujeito à decadência (velhice) e à morte.” Embora traços sutis de ganância (lobha) e aversão (dosa) possam persistir, compreende-se profundamente que os cinco agregados (pañcakkhandha) não constituem mais um EU, e o apego aos bens materiais é abandonado.
Um sotāpanna pode continuar vivendo como leigo, com família e responsabilidades mundanas. No entanto, mantém os preceitos (sīla) de forma impecável. Embora possam surgir irritações ou desejos sutis, ele nunca os viola intencionalmente. Pode experimentar irritação, mas não age com retaliação ou guarda rancor.
À medida que a meditação se aprofunda, a Mente atinge um ponto de não retornar a estados anteriores, vislumbrando com clareza o Caminho a seguir. É neste estágio que a delusão de uma identidade fixa (sakkāya-diṭṭhi) é completamente erradicada.
Características Principais de um Sotāpanna:
- Preceitos Imaculados: Seu senso de vergonha moral (hiri) e temor das consequências (ottappa) estão plenamente desenvolvidos. Ele teme o erro e suas consequências kâmmicas, o que garante que nunca mais renascerá nos planos de sofrimento (apāya).
- “Aquele que Não Regride”: Seu progresso é irreversível. Ele avança inevitavelmente pelos estágios subsequentes: de sotāpanna para sakadāgāmī (que retorna uma vez), depois para anāgāmī (não-retornante) e, finalmente para o estado de Arahant.
- Liberdade em Relação ao Medo: Um sotāpanna não teme a doença ou a morte, pois contempla a impermanência antes que ela se manifeste. Tal como ensinava Ajahn Chah, ele vê o corpo (e todos os objetos) como “já quebrado”, usando-os com cuidado, mas sem apego. Quando a perda ocorre, não há sofrimento, pois a sabedoria já havia assimilado essa Verdade.
- Inabalável na Ética: Sob nenhuma circunstância – mesmo sob ameaça de morte – ele quebrará intencionalmente um dos cinco preceitos. Prefere sofrer a consequência a cometer um ato prejudicial, pois compreende profundamente o perigo do kamma negativo. A observância dos preceitos torna-se natural e automática.
- Desapego dos Agregados: Abandonou o apego ao corpo e às posses. As impurezas mentais (kilesas) das quais se desapegou não retornam. Tanto leigos quanto monásticos podem atingir este estágio através do desenvolvimento contínuo do caminho triplo: virtude (sīla), concentração (samādhi) e sabedoria (paññā).
Progresso e Prática Contínua
Uma vez atingida a entrada na Correnteza (analogia a um rio, que o levará ao Despertar), a realização do Nibbāna é inevitável. A velocidade do progresso depende dos méritos (puñña) e das tendências karmicas acumuladas. Embora ainda possa se envolver na vida mundana, seu objetivo final é a Libertação.
Para continuar no caminho, o sotāpanna pratica ativamente para enfraquecer as impurezas remanescentes:
- Utiliza a meditação de serenidade (samatha) e de visão profunda (vipassanā).
- Reflete sobre a natureza impura do corpo (asubha) para erradicar a luxúria sutil.
- Esforça-se para diminuir a ganância e a aversão residuais (as formas de “gostar” e “não gostar”). Com a prática contínua, erradicará essas impurezas simultaneamente ao alcançar o estágio de anāgāmī (aquele que não-retorna a este mundo).
Resumo dos Estágios da Iluminação:
- Entrante na Correnteza (Sotāpanna): Preceitos aperfeiçoados. Possui algum grau de concentração (samādhi) e sabedoria (paññā). Erradicou a visão de um EU (sakkāya-diṭṭhi).
- Retorna Uma vez (Sakadāgāmī): Preceitos aperfeiçoados (oito preceitos). Concentração e sabedoria mais apuradas. Reduziu significativamente a ganância e a aversão.
- Não-Retorna mais (Anāgāmī): Preceitos e concentração aperfeiçoados. Sabedoria mais desenvolvida, mas não ainda plena. Erradicou por completo a ganância e a aversão em sua forma grosseira.
- Arahant: Virtude, concentração e sabedoria plenamente desenvolvidas e aperfeiçoadas. Libertação final.

