Guy Èugene Dubois
O que não nasce e não morre — é isso que o Buda aponta como nibbāna (nirvāṇa)
Esta afirmação não convida à reflexão, mas à quietude. Não aponta para um objetivo futuro, nem para um estado exaltado fora desta existência. Inverte algo profundamente enraizado em nossa intuição: a ideia de que a vida se desdobra no devir, no movimento, no crescimento, na mudança.
O que normalmente chamamos de “vida” é repleto de dinamismo. É aparecer e desaparecer, surgir e partir. É respirar, pensar, sentir, esforçar-se. No entanto, tudo isso também carrega inquietação em si. Requer manutenção. Requer confirmação. Requer repetição.
Quando o Buda fala de Nibbāna, ele não aponta para mais vida, mas para o fim do erro de que a vida depende da continuidade. O que é, não é aquilo que aparece, mas aquilo que não precisa aparecer para ser.
Não há nada mais a buscar — nenhuma segunda realidade por trás do que se apresenta, nenhuma existência mais sutil que possa aprimorar ou transcender esta. O que não nasce e não morre não vive no tempo, não em sucessão, não em devir.
Isso não é espetacular. Não se manifesta como uma experiência. Revela-se onde a necessidade de experiência desaparece. Onde nada precisa ser retido. Onde nada precisa acontecer. O que aparece aqui não é você; é uma experiência que pertence inteiramente à natureza.
Isso não é uma negação da experiência, mas uma libertação dela. O que aparece — corpo, sentimento, percepção, pensamento, consciência — se desdobra de acordo com a natureza. Segue as condições. Surge, muda e desaparece. Não é pessoal. Não requer dono.
Quando isso é visto, a identificação relaxa. Não por se retirar, mas por olhar com clareza. O que aparece, aparece. O que desaparece, desaparece. Não há “alguém” que deva carregá-lo.
Aqui, uma mudança silenciosa se inicia. A vida não é mais buscada no que aparece, mas reconhecida no que é livre de aparecer. Não como algo que está “por trás” da natureza, mas como aquilo que não é produzido pela natureza.
O Nibbāna não se opõe à vida. Opõe-se ao equívoco de que a vida depende do devir. Não é o fim da experiência, mas o fim da crença de que a experiência é “EU” ou “minha”.
Assim, fica claro: o que perdemos ao deixar ir nunca foi o que realmente é. E o que se torna visível quando nada é retido não precisa ser protegido, explicado ou nomeado. O que não nasce e não morre não requer confirmação. E precisamente por essa razão, não pode ser perdido.

