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Mais sobre dana, kamma e puñña
No Dakkhiṇāvibhaṅga Sutta, o Buda descreve quatorze níveis de oferendas pessoais, começando por um Buda, um ariyan, uma pessoa comum com virtudes, e descendo até uma pessoa sem virtude e um animal. Ele ensina que dar a uma pessoa virtuosa produz mais frutos do que dar a uma pessoa sem virtude, e dar a um ser humano produz mais frutos do que dar a um animal.
Contudo, ele conclui que uma oferenda feita à Saṅgha (a comunidade de monges) como um todo é ‘incalculável e imensurável’, ainda maior do que uma oferenda feita ao Buda individualmente: ‘Mas eu digo que, de modo algum, uma dádiva a uma pessoa individualmente é mais frutífera do que uma oferenda à Saṅgha’ (Majhima Nikaya 142, Dakkhiṇāvibhaṅga Sutta).
Dessa perspectiva, embora dar aos pobres seja benéfico (kusala), é considerado um ‘campo de mérito’ (puññakkhetta) menor em comparação com a Saṅgha. A Saṅgha representa a preservação do Dhamma; assim, apoiá-la é visto como um investimento na libertação espiritual de muitos, enquanto dar aos pobres é um ato de compaixão (karuṇā) que atende a necessidades imediatas, embora não seja a maneira definitiva de ajudá-los do ponto de vista do Dhamma.
A partir do sutra acima, vemos que o Buda não diz para não dar aos pobres e necessitados, mas ajudá-los e dar aos monges não são questões excludentes; têm propósitos diferentes.
No Sutra Vacchagotta, o andarilho Vacchagotta pergunta ao Buda se é verdade que ele só incentiva a doação aos seus próprios discípulos e não a outros. O Buda esclarece sua posição:
“Vaccha, quem impede alguém de dar um presente [a qualquer pessoa] cria um obstáculo para três pessoas… cria um obstáculo para o mérito de quem dá, um obstáculo para o ganho de quem recebe e já se prejudicou com sua própria avareza” (Angutara Nikaya 3.57, Sutra Vacchagotta).
O Buda explica que até mesmo jogar água de enxágue de tigela em um lago para alimentar pequenas criaturas é uma fonte de mérito. No entanto, ele acrescenta que, assim como as plantações crescem melhor em um campo fértil, os presentes dão mais frutos quando dados aos “virtuosos” em vez dos “não virtuosos”. Portanto, a visão de que é “melhor” dar aos pobres e necessitados do que aos monges não se alinha com o Dhamma, pois implica obstruir uma dádiva a um campo superior de mérito.
O Buda lista várias razões pelas quais as pessoas dão. Uma delas é “por compaixão” (por exemplo, dar aos pobres e necessitados), o que é meritório. Outra é com o pensamento: “isto é um ornamento para a mente, um apoio para a mente”. Esta última motivação está associada ao apoio à vida sagrada (brahmacariya) e à Sangha, e é esse tipo de dádiva que leva às mais elevadas realizações espirituais (AN 8.33, Dānavatthu Sutta).
A partir desses exemplos, vemos que, embora sejamos livres para dar a quem quisermos ou não dar, e seja bom ajudar os pobres e necessitados, de fato não é sábio discriminar a dádiva aos monges.
A maioria de nós ainda não desenvolveu a capacidade de ver além desta vida; o que somos capazes de ver é muito limitado. Contudo, se estamos aqui para aprender sobre o Budismo, o karma é um dos conceitos mencionados no Sutra da Visão Correta, que marca o início do Caminho Óctuplo. Portanto, devemos, no mínimo, nos esforçar para compreender o papel do karma.
É bom praticar a caridade, em prol da sociedade, mas impedir que outros façam doações aos monges é considerado um karma negativo, cujas consequências podem ser graves, como até mesmo praticantes realizados como Ajahn Golf mencionaram. Isso não deve ser encarado levianamente.

