Michael Beisert – Tipitaka
O Buda:
“Este Dhamma (as quatro nobres verdades) que alcancei é profundo, difícil de ver e difícil de compreender, pacífico e sublime, que não pode ser alcançado através do mero raciocínio, o Dhamma é sutil, para ser experimentado pelos sábios.
Mas, esta população se delicia com a adesão, está excitada com a adesão, desfruta da adesão (*). É difícil para uma população como esta ver esta verdade, isto é, a condicionalidade isto/aquilo e a origem dependente. E também é difícil de ver esta verdade, isto é, o cessar de todas as formações, o abandono de todas aquisições, o fim do desejo, desapego, cessação, Nibbana.
(*) adesão: objetivo do prazer sensual e os pensamentos de desejo associados. O prazer sensual é uma experiência que envolve os cinco sentidos (tato, visão, olfato, audição, paladar) indo além do ato sexual.
Basta com a idéia de ensinar o Dhamma que até para mim foi difícil alcançar; pois o Dhamma nunca será entendido por aqueles que vivem com a cobiça e a raiva.”
Brahma Sahamapti:
“Venerável senhor ensine o Dhamma. Há seres com pouca poeira sobre os olhos que estão decaindo por não ouvir o Dhamma. Há aqueles que entenderão o Dhamma.”
“Tendo ouvido o pedido de Brahma e por compaixão pelos seres, inspecionei o mundo com o olho de um Buda. Inspecionando o mundo com o olho de um Buda, eu vi seres com pouca poeira sobre os olhos e com muita poeira sobre os olhos, com faculdades aguçadas e com faculdades embotadas, com boas qualidades e com más qualidades, fáceis de serem ensinados e difíceis de serem ensinados e alguns que permaneciam sentindo medo e responsabilidade pelo outro mundo.
Respondi ao Brahma Sahampati em versos:
Para eles estão abertas as portas para o Imortal,
que aqueles com ouvidos mostrem agora a sua fé.
Pensando que seria problemático, Oh Brahma,
eu não quis falar o Dhamma sutil e sublime.’
Brahma Sahampati pensou: ‘Eu criei a oportunidade para que o Abençoado ensine o Dhamma.’ E depois de me homenagear, mantendo-me à sua direita, ele então desapareceu.
Ensinamento do Dhamma
“Então, bhikkhus, tendo permanecido em Uruvela pelo tempo que queria, sai caminhando em direção a Benares. Entre Gaya e o lugar da Iluminação, o Ajivaka Upaka me viu na estrada e disse: ‘Amigo, as suas faculdades estão claras, a sua complexão está pura e brilhante. Sob qual mestre você adotou a vida santa, amigo? Quem é o seu mestre? Qual Dhamma você professa?’ Eu respondi ao Ajivaka Upaka em versos:
‘Eu sou aquele que transcendeu tudo, aquele que tudo conhece, imaculado entre todas as coisas, renunciando a tudo, libertado pela cessação do desejo. Tendo conhecido tudo isso por mim mesmo, a quem devo apontar como mestre?
Eu não tenho mestre, e outro como eu
não existe em nenhum lugar do mundo,
com todos os seus devas, porque não tenho
outra pessoa como equivalente.
Eu sou o Consumado no mundo,
eu sou o Mestre Supremo.
Eu sozinho sou um Perfeitamente Iluminado
cujo fogo está saciado e extinto.
Eu vou agora para Kasi (Benares)
para colocar a Roda do Dhamma em movimento.
Num mundo que se tornou cego
eu vou proclamar o Imortal.’
‘Pela sua declaração, amigo, você deve ser o Vitorioso Universal.’
‘Os vitoriosos são como eu
que venceram destruindo as contaminações.
Eu derrotei todos os estados ruins,
portanto, Upaka, eu sou um vitorioso.’
“Quando isso foi dito, o Ajivaka Upaka disse: ‘Pode ser que assim seja, amigo.’ Balançando a cabeça, ele tomou um desvio e partiu.
“Então, bhikkhus, prosseguindo na caminhada por fim cheguei em Benares, no Parque do Gamo em Isipatana e me aproximei do grupo de cinco bhikkhus. Os bhikkhus me viram chegando à distância e combinaram entre si o seguinte: ‘Amigos, ali vem o contemplativo Gotama que vive gratificado pelos sentidos, que deixou de lado a sua busca e reverteu ao luxo. Nós não deveríamos homenageá-lo, ou nos levantarmos para ele, ou receber a sua tigela e manto externo. Mas um assento poderá ser preparado para ele. Se ele quiser, poderá sentar.’
No entanto, à medida que eu me aproximava, aqueles bhikkhus foram incapazes de manter o acordo. Um veio se encontrar comigo e tomou minha tigela e o manto externo, outro preparou um assento e um outro preparou água para os meus pés; no entanto, eles se dirigiam a mim pelo meu nome e como ‘amigo.’
“Como resultado eu lhes disse: ‘Bhikkhus, não se dirijam ao Tathagata pelo nome e como ‘amigo.’ O Tathagata é um arahant, perfeitamente iluminado. Ouçam bhikkhus, o Imortal foi alcançado. Eu os instruirei, eu lhes ensinarei o Dhamma. Praticando da forma instruída, realizando por vocês mesmos através do conhecimento direto vocês logo entrarão e permanecerão no objetivo supremo da vida santa pelo qual membros de clãs abandonam a vida em família pela vida santa.’
“Quando isso foi dito, os bhikkhus me responderam o seguinte: ‘Amigo Gotama, através da conduta, da prática e da realização das austeridades às quais você se dedicou, você não alcançou nenhum estado supra-humano, nenhuma distinção em conhecimento e visão digna dos nobres. Como agora você vive gratificado pelos sentidos, tendo deixado de lado a sua busca e revertido ao luxo, como poderia você ter atingido algum estado supra-humano, alguma distinção em conhecimento e visão dignos dos nobres?’ Quando isso foi dito, eu lhes disse: ‘O Tathagata não vive gratificado pelos sentidos, nem deixou de lado a sua busca e reverteu ao luxo. O Tathagata é um arahant, perfeitamente iluminado. Ouçam bhikkhus, o Imortal foi alcançado … abandonam a vida em família pela vida santa.’
“Uma segunda vez os bhikkhus me disseram: ‘Amigo Gotama…como poderia você ter atingido algum estado supra-humano, alguma distinção em conhecimento e visão dignos dos nobres?’ Uma segunda vez eu lhes disse: ‘O Tathagata não vive gratificado pelos sentidos … abandonam a vida em família pela vida santa.’
“Uma terceira vez os bhikkhus me disseram: ‘Amigo Gotama…como poderia você ter atingido algum estado supra-humano, alguma distinção em conhecimento e visão dignos dos nobres?’
“Quando isso foi dito eu lhes perguntei: ‘Bhikkhus, vocês já me viram falar desta forma antes?’ – ‘Não, venerável senhor.’ – ‘Bhikkhus, o Tathagata é um arahant, perfeitamente iluminado. Ouçam bhikkhus, o Imortal foi alcançado. Eu os instruirei, eu lhes ensinarei o Dhamma. Praticando da forma instruída, realizando por vocês mesmos através do conhecimento direto vocês logo entrarão e permanecerão no objetivo supremo da vida santa pelo qual membros de clãs abandonam a vida em família pela vida santa.’
“Eu fui capaz de convencer o grupo de cinco bhikkhus. Então, algumas vezes eu instruía dois bhikkhus enquanto que os outros três esmolavam alimentos e todos nós seis vivíamos daquilo que aqueles três bhikkhus traziam de esmolas. Algumas vezes eu instruía três bhikkhus enquanto que os outros dois esmolavam alimentos e todos nós seis vivíamos daquilo que aqueles dois bhikkhus traziam de esmolas.
“Então o grupo de cinco bhikkhus ensinados e instruídos por mim, estando eles mesmos sujeitos ao nascimento, tendo compreendido o perigo daquilo que está sujeito ao nascimento, buscando o que não nasce, a suprema segurança contra o cativeiro, Nibbana, alcançaram o que não nasce, a suprema segurança contra o cativeiro, Nibbana; estando eles mesmos sujeito ao envelhecimento, enfermidade, morte, tristeza e contaminações, tendo compreendido o perigo daquilo que está sujeito ao envelhecimento, enfermidade, morte, tristeza e contaminações, buscando o que não envelhece, o que não está sujeito à enfermidade, o imortal, o que não está sujeito à tristeza, o que não é contaminado, a suprema segurança contra o cativeiro, Nibbana, alcançaram o que não envelhece, o que não está sujeito à enfermidade, o imortal, o que não está sujeito à tristeza, o que não é contaminado, a suprema segurança contra o cativeiro, Nibbana.’
Surgiram neles a visão e o conhecimento: ‘Inabalável é a libertação da minha mente. Este é o último nascimento. Não há mais vir a ser a nenhum estado.’

