Guy Eugene Dubois
Aqueles sem poeira nos olhos
No Cânon Pali, surge uma expressão antiga, simples e profunda ao mesmo tempo: “aqueles sem poeira nas pálpebras”. É uma imagem que quase fala por si só, mas que aponta para algo que só pode se revelar no silêncio. O Buda usou essa metáfora não como um julgamento, mas como um convite: uma indicação da rara clareza que surge quando a Mente não está mais obscurecida pela delusão.
A imagem da poeira nas pálpebras é terna, quase frágil. Não diz que somos cegos, nem que a realidade é inacessível, mas que o olhar da mente está continuamente velado por algo extremamente sutil — tão sutil que mal o notamos: poeira.
Essa poeira se refere ao véu do hábito, do apego, do desejo, das opiniões, das autoimagens. É a matéria sutil a partir da qual o senso de “EU”, “meu-Eu” e “Meu” é construído, repetidamente, a cada instante. Quando essa poeira está presente, não vemos verdadeiramente; vemos apenas nossas próprias projeções, nossas expectativas, nossos medos. Não vemos o que é, mas o que pensamos ser.
Aquele que “não tem poeira nas pálpebras” não é, portanto, alguém com uma experiência especial, nem alguém que atingiu uma pureza sobrenatural. É alguém cujo olhar se tornou transparente — alguém cuja mente não está mais obscurecida pelo apego, pela aversão, pelo movimento sutil do devir (bhava; id.). Em tal yogi, o domínio da ignorância (avijjā) torna-se tênue, quase transparente. Não porque ele ou ela tenha alcançado algo, mas porque não há mais apego.
Essa expressão toca em uma essência que retorna ao longo de muitos suttas: a percepção de que a libertação não é nada “novo”, nenhum novo “estado”, mas o desaparecimento daquilo que obscurece a compreensão. O caminho do Buda não é um caminho que nos completa, mas um caminho no qual a delusão se dissipa suavemente. Assim como a água se torna clara quando não é mais perturbada, a mente revela sua própria natureza quando a poeira não é mais agitada pelo desejo e pela aversão.
A imagem da pálpebra importa. Ela aponta para o fato de que a obscuridade não reside fora de nós, não no mundo, mas precisamente onde a visão acontece — dentro de nós mesmos, dentro de cada um de nós.
O mundo sempre aparece como é: mutável, aberto, sem qualquer solidez. São as nossas próprias pálpebras que se fecham, tremem, ocultam algo. Quando a poeira da mente se dissipa, a tensão que impede a visão também desaparece.
O que se abre então? Nada de espetacular. Nenhuma visão mística, nenhuma luz transcendente. O que aparece é a simplicidade: as coisas como são. Yathā-bhūta. Uma forma surge, muda, desaparece, sem que ninguém tente retê-la ou afastá-la. Um pensamento aparece e se dissolve, sem que a mente o transforme em uma história centrada no “EU”. Nessa percepção, o Não Nascido (ajāta) se revela — não como um conceito, mas como o espaço incondicionado no qual todo fenômeno aparece e desaparece, sem um “EU” que reivindique a sua posse.
Quando Buda disse que alguns seres “não têm poeira nas pálpebras”, ele se referia àqueles cujo olhar estava aberto e sereno o suficiente para ver e reconhecer o caminho. Não porque fossem especiais, mas porque o véu da delusão se tornara extremamente tênue naquele momento. É um lembrete de que a sabedoria nunca está longe e que até mesmo a mais sutil obscuridade é suficiente para ocultar a abertura natural da mente.
Essa metáfora convida à gentileza. Ninguém remove a poeira pela força ou pelo esforço; deixa-se que ela se dissipe, não a perturbando, aquietando-se. Assim também no Dhamma: não se esforçando, mas desapegando; não buscando, mas tornando-se transparente para o que sempre esteve presente. Quando a poeira se dissipa, a percepção que nunca esteve ausente aparece — clara, simples, inata.

