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A Terceira Nobre Verdade

Posted on 12/12/202515/12/2025 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Sumedho

O que é a Nobre Verdade do Cessar do Sofrimento? É o desaparecimento do último vestígio e cessação desse mesmo desejo; o rejeitar, o abandonar, o deixar e o renunciar do mesmo. Mas onde é que este desejo é abandonado e terminado? Onde quer que exista aquilo que parece adorável e gratificante, aí é abandonado e terminado.
Existe esta Nobre Verdade do Cessar do Sofrimento: tal foi a visão, revelação, sabedoria, verdadeiro conhecimento e luz que em mim surgiram acerca de coisas nunca antes ouvidas. Esta Nobre Verdade deve ser penetrada, realizando a Cessação do sofrimento… Esta Nobre Verdade foi penetrada, realizando o Cessar do sofrimento: tal foi a visão, revelação, sabedoria, verdadeiro conhecimento e luz que em mim surgiram acerca de coisas nunca antes ouvidas. [Samyutta Nikaya 56, 11]

Terceira Nobre Verdade é composta por três fases: ‘Existe a cessação do sofrimento, do dukkha. O cessar do dukkha deve ser realizado. A cessação do dukkha (sofrimento) foi realizada.’

Os ensinamentos Budistas têm como objetivo fundamental o desenvolver de uma mente reflectiva, para assim se poder abandonar as ilusões. As Quatro Nobres Verdades são um ensinamento acerca desse abandono, através do olhar atento e da investigação, contemplando: ‘Porque é que é assim? Porque é que é deste modo?’

É bom ponderar acerca de coisas como, porque é que os monges rapam a cabeça ou o porquê de Buddha-rupas terem a aparência que têm. Nós contemplamos…a mente não está a formar uma opinião acerca do facto de estas serem boas, más, úteis ou desnecessárias. Na verdade a mente está a abrir-se e a considerar, ‘O que é que isto significa? O que é que os monges representam? Porque é que eles usam a “malga de almas” (oferendas)? Porque é que eles não podem ter dinheiro? Porque é que eles não podem cultivar os seus próprios alimentos?’

Contemplamos como esta forma de vida tem mantido esta tradição, permitindo que a mesma seja transmitida do seu fundador original, o Buda Gautama, até aos dias de hoje.
Nós reflectimos acerca da forma como vimos o sofrimento; como vimos a natureza do desejo; como reconhecemos que o apego ao desejo é sofrimento, e assim alcançamos a revelação interna que permite abandonar o desejo, a realização do “não-sofrimento”, a cessação do sofrimento. Estas revelações só podem surgir através da reflexão; elas não surgem só porque acreditas nelas. Tu não te podes fazer acreditar ou realizar uma revelação só por vontade; é através da verdadeira contemplação e reflexão destas verdades, que as revelações te surgem. Elas só surgem através da abertura e receptividade da mente para com os ensinamentos, fé cega não é certamente aconselhada ou esperada de ninguém. Em vez disso a mente deve estar disposta a estar receptiva, ponderando e considerando.

Este estado mental é muito importante, é o caminho para abandonar o sofrimento. Não é uma mente com ideias fixas e preconceitos, que pensa que sabe tudo ou que só aceita ser verdade o que as outras pessoa dizem. É uma mente que está aberta para estas Quatro Nobres Verdades e que consegue reflectir acerca de algo que podemos ver dentro da nossa própria mente.

As pessoas raramente realizam o “não-sofrimento” porque este requer uma vontade muito especial para se poder ponderar e investigar e assim passar para além do grosseiro e do óbvio. É preciso força de vontade para observar honestamente as tuas próprias reacções, ser capaz de reconhecer os apegos e contemplar: ‘Como é que é sentir apego?’

Por exemplo, sentes-te feliz ou liberto estando apegado ao desejo? Sentes-te positivo ou depressivo? Estas questões são para tu investigares. Se achares que estar apegado aos teus desejos é libertador, então continua. Apega-te aos teus desejos e vê qual é o resultado.

Na minha prática, tenho observado que o apego para com os meus desejos é sofrimento. Não tenho qualquer dúvida acerca disso. Consigo ver quanto sofrimento na minha vida tem sido causado por apego a coisas materiais, ideias, atitudes ou medos. Consigo ver todo o tipo de infelicidade desnecessária que eu causei a mim próprio por causa deste apego e porque não compreendia as coisa como elas realmente são. Eu fui criado na América, a terra da liberdade. Ela promete o direito de ser feliz, mas o que na realidade ela oferece é o direito de ser apegado a tudo.

A América encoraja-te a tentares ser o mais feliz possível possuindo coisas, no entanto, se trabalhares com as Quatro Nobres Verdades, o apego deve ser compreendido e contemplado; aí então, surge a revelação do desapego. Isto não é uma posição intelectual ou uma ordem do teu cérebro a dizer que não deves ser apegado; é somente uma revelação natural sobre o desapego ou extinção do sofrimento.

A verdade da impermanência

Aqui em Amaravati, nós entoamos o Sutra Dhammacakkappavattana na sua forma tradicional. Quando o Buda deu este sermão sobre as Quatro Nobres Verdades, só um dos cinco discípulos que o ouviram realmente o compreendeu; somente um teve a revelação profunda. Os outros quatro gostaram muito, pensando ‘Sim senhor, que ensinamento tão bonito’, mas só Kondañña (monge da época de Buddha) obteve a perfeita compreensão acerca daquilo que o Buda estava a dizer.

Os devas também estavam a ouvir o sermão. Devas são criaturas etéreas e celestiais, muito superiores a nós. Elas não têm corpos grosseiros como os nossos; elas têm corpos etéreos e são muito bonitas, gentis e inteligentes. Mas apesar dos Devas se terem deliciado ao ouvir o sermão, nem sequer um deles se iluminou com o mesmo.

Dizem-nos que eles ficaram muito felizes com a iluminação de Buda e que bradaram pelos céus quando ouviram o seu ensinamento. O primeiro nível de devatas ouviu-o, depois gritaram para o próximo nível e em pouco tempo todas os devas regozijavam, indo até ao nível mais alto, o reino dos Brahmas. Havia alegria ressoante de que a Roda do Dhamma tinha sido posta em movimento e estes devas e brahmas regozijavam-se nela. Mas no entanto, só Kondañña, umdos cinco discípulos, se tornou iluminado quando ouviu este sermão. Mesmo no final do sutra, o Buda chama-o de ‘Añña Kondañña’. ‘Añña’ significa sabedoria profunda, assim ‘Añña Kondañña’, significa ‘Kondañña = Aquele que Sabe‘.

O que é que Kondañña sabia? Qual foi a sua realização que o Buddha elogiou no final do sermão? Foi: ‘Tudo aquilo que é sujeito a surgir, é sujeito a cessar.’ Isto pode não soar a grande conhecimento, mas o que realmente implica é um padrão universal: o que quer que esteja sujeito a surgir está sujeito a cessar; é impermanente e “não-eu”… assim sendo, não te apegues, não te iludas com aquilo que surge e cessa. Não procures para teu refúgio, aquilo em que queres confiar e respeitar, em nada que surge – pois essas coisas cessarão.

Se quiseres sofrer e desperdiçar a tua vida, parte à procura das coisas que surgem. Todas elas te levarão ao final, à cessação, e tu não te tornarás mais sábio por isso. Continuarás, simplesmente, às voltas neste ciclo, repetindo os mesmos tristes hábitos e quando morreres, não terás aprendido nada de importante com a vida que viveste.

Em vez de só pensares acerca disto, contempla-o verdadeiramente: ‘Tudo o que está sujeito a surgir está sujeito a cessar.’ Aplica isto à vida em geral, à tua própria experiência e aí irás compreender. Simplesmente nota: princípio… fim.

Contempla como as coisas são. Este reino dos sentidos é todo ele acerca de surgimento e cessação, princípio e fim; nesta vida pode ser alcançado entendimento correcto, samma ditthi . Eu não sei por quanto tempo o Kondañña viveu após o sermão do Buddha, mas nesse momento ele foi iluminado. Nesse mesmo instante ele obteve entendimento correto.

Eu gostaria de sublinhar o quão importante é desenvolver este tipo de reflexão. Em vez de somente desenvolver um método para tranquilizar a mente, que certamente é uma parte da práctica, tenta perceber que meditação correcta envolve dedicação para com esta sábia investigação. Observar as coisas profundamente, envolve um esforço corajoso, não te analisares a ti próprio ou fazer juízos de valor acerca da causa do teu sofrimento pessoal, mas estares determinado a seguir o caminho até obteres um entendimento profundo. Tal entendimento está baseado no padrão de surgimento e cessação. Assim que esta lei for compreendida, tudo é percebido, encaixando-se nesse mesmo padrão.

Isto não é um ensinamento metafísico: ‘Tudo o que está sujeito a surgir, está sujeito a cessar’, não se trata da derradeira realidade, realidade imorredoira, deathless ; mas se souberes profunda e verdadeiramente que tudo o que está sujeito a surgir, está sujeito a cessar, então compreenderás a derradeira realidade, a verdade imortal. Este é um meio hábil para alcançar a realização final. Percebe a diferença: a declaração não é metafísica mas leva-nos a uma realização metafísica.

Moralidade e cessação

Através da reflexão das Quatro Nobres Verdades, nós trazemos até ao consciente o problema da existência humana. Observamos esta sensação de alienação e apego cego à consciência sensorial, o apego para com aquilo que está separado e se destaca na consciência. Devido à nossa ignorância, apegamo-nos ao desejo por prazeres sensoriais, quando nos identificamos com o que é findável ou transitório e, como tal, insatisfatório. Esse apego torna-se em sofrimento.

Os prazeres sensoriais são todos eles prazeres efémeros. Aquilo que vimos, ouvimos, tocamos, saboreamos, pensamos ou sentimos é momentâneo, passageiro, sujeito a findar. Assim quando nos apegamos aos sentidos ou a sensações passageiras, apegamo-nos, por assim dizer, à morte, ao fim. Se ainda não contemplámos ou compreendemos isto claramente, apegamo-nos cegamente à mortalidade na esperança de a evitar por uns tempos. Nós fingimos que vamos ser verdadeiramente felizes com as coisas às quais nos apegamos, só para, eventualmente, nos sentirmos desiludidos, desesperados e desapontados. Podemos até conseguir tornar-nos naquilo que desejamos, mas isso também é momentâneo, findável.

No fundo estamos somente a apegar-nos a outra condição passageira com um fim certo. Assim, com este desejo pela mortalidade podemos vir a apegar-nos a ideias de suicídio ou aniquilação, mas o fim propriamente dito é somente mais uma condição findável . Ao que quer que seja que nos apeguemos nestes três tipos de desejos, estamos a apegar-nos a algo passageiro e limitado, o que significa irmos, eventualmente, sentir desapontamento ou desespero.

A morte da mente é desespero; a depressão é um tipo de experiência de morte na mente. Tal como o corpo morre uma morte física, a mente também morre. Estados mentais e condições mentais morrem; chamamo-los de desespero, tédio, depressão e angústia. Se estamos a sentir tédio, desespero, angústia e mágoa, temos a tendência de procurar qualquer outra condição (findável) que possa surgir para aliviar essa sensação.

Por exemplo: se te sentes desesperado ou entediado, pensas ‘Preciso de uma fatia de bolo de chocolate.’ E vais comprá-la! Por uns breves momentos, deixas- te envolver no doce, delicioso, sabor a chocolate dessa fatia de bolo. Nesse momento tornas-te na doçura e delicioso sabor do chocolate! Mas não consegues suster essa sensação por muito tempo. Engoles o último pedaço de bolo e o que é que resta? Tens de ir procurar outra forma de alívio. Isto é, ‘tornares-te’ em algo novo.

Nós estamos cegos, aprisionados neste processo de nos tornarmos algo, neste plano sensorial. Mas conhecendo o desejo, sem julgar a beleza ou feiúra do plano sensorial, chegamos ao ponto de percebermos o desejo tal como ele é. Dá-se sabedoria. Nesse ponto, pondo de lado todos estes desejos em vez de nos agarrarmos a eles, temos a experiência do nirodha , o cessar do sofrimento. Isto é a Terceira Nobre Verdade que temos de realizar por nós próprios. Contemplamos a cessação. Dizemos, ‘Existe cessação’, e sabemos claramente quando algo cessou.

Permitindo que as coisas surjam

Antes de poderes deixar as coisas, tens de as admitir plenamente na consciência. Na meditação, o nosso objetivo é habilmente permitir que o subconsciente se manifeste no consciente. Todo o desespero, medo, angústia, recalques e irritações são permitidos tornar-se conscientes. Existe a tendência nas pessoas de se apegarem a grandes ideais mentais, podemos tornar-nos verdadeiramente desapontados connosco próprios, porque por vezes sentimos que não somos tão bons como deveríamos ser ou que não devemos zangar-nos; todos os devemos e não devemos. Aí criamos o desejo de nos vermos livres das coisas más e este desejo tem uma qualidade virtuosa. Parece-nos certo vermo- nos livres dos maus pensamentos, raiva e ciúme, porque uma pessoa boa ‘não devia de ser assim’ e dessa forma criamos culpa.

Ao refletirmos sobre isto, trazemos à consciência o desejo de nos tornarmos neste ideal e o desejo de nos libertarmos destas coisas más, desta forma conseguimos libertar-nos e em vez de nos tornarmos na pessoa perfeita, abandonamos esse desejo. O que fica é a mente pura. Não há qualquer necessidade de sermos a pessoa perfeita porque na mente pura é onde as pessoas perfeitas surgem e cessam.

A cessação é fácil de compreender a nível intelectual, mas para a realizar pode ser bastante difícil pois envolve suportar aquilo que pensamos não conseguir. Por exemplo, quando eu comecei a meditar, pensava que a meditação me faria mais bondoso e mais feliz, estava à espera de sentir maravilhosos estados mentais mas, durante os primeiros dois meses eu nunca senti tanto ódio e raiva na minha vida. Pensei ‘isto é terrível, a meditação tornou-me pior’, mas então contemplei porque razão surgiu tanto ódio e tanta aversão e aí percebi que grande parte da minha vida tinha sido uma tentativa de fugir a tudo isso. Eu era um leitor compulsivo, para onde quer que fosse tinha de levar livros comigo. Sempre que o medo ou a aversão surgiam eu pegava num livro para ler, ou fumava um cigarro, ou comia um salgadinho. A imagem que tinha de mim próprio era de uma pessoa bondosa que não odiava os outros assim, qualquer indício de aversão ou ódio eram reprimidos.

Esta foi a razão porque durante os primeiros meses como monge, eu estava tão desesperado para que isto desaparece-se. Eu tentava procurar algo para me distrair porque com a meditação tinha começado a relembrar todas as coisas que deliberadamente tentei esquecer. Memórias de infância e adolescência surgiam constantemente na minha mente, e nesse ponto a raiva e o ódio tornaram-se tão conscientes que pareciam ser maiores que eu. Mas algo em mim começou a reconhecer que eu tinha de suportar tudo isto e assim o fiz. Todo o ódio e raiva que tinham sido suprimidos durante trinta anos de vida vieram em força mas, através da meditação extinguiram-se e desapareceram. Foi um processo de purificação.

Para permitirmos que este processo de cessação se dê, temos de estar dispostos a sofrer. É por essa razão que eu reforço a importância de se ser paciente. Temos de abrir as nossas mentes ao sofrimento porque é no acolher do sofrimento que o mesmo cessa. Quando sentimos que estamos a sofrer, física ou mentalmente, temos de ir ao encontro desse sofrimento. Abrimo-nos para ele completamente, damos-lhe as boas vindas e concentramo-nos nele, permitindo- o ser aquilo que é. Isso significa que temos de ser pacientes e suportar as condições menos agradáveis, em vez de fugirmos, temos de suportar o tédio, desespero, dúvida e medo para podermos compreender que os mesmos cessam.

Enquanto não permitirmos que as coisas cessem, continuamos a criar novo kamma que só ajuda a fortalecer os nossos hábitos. Quando algo surge, agarramo-lo e proliferamos acerca dele, o que torna tudo ainda mais complicado e assim, repetimos e tornamos a repetir o mesmo padrão durante a nossa vida, não podemos continuar a seguir os nossos desejos e medos esperando algum dia realizar paz. Nós contemplamos o medo e o desejo para que estes deixem de nos iludir – temos de conhecer aquilo que nos ilude antes que possamos libertar-nos deles. Desejo e medo devem ser reconhecidos como impermanentes, insatisfatórios e como ‘não-eu’. Eles são observados e compreendidos para que o sofrimento se possa extinguir.

É importante aqui diferenciar entre cessação, o fim natural de qualquer condição que tenha surgido e aniquilação , o desejo que surge na mente para nos vermos livres de algo. Daí a cessação não ser desejo! Não é algo que criamos na mente mas sim o fim daquilo que começou, a morte daquilo que nasceu. Daí cessação não ser um eu, não se manifesta a partir do ponto em que ‘Eu tenho de me ver livre destas coisas’, mas somente quando permitimos que aquilo que surgiu cesse. Para conseguir isso, o desejo tem de ser abandonado, deixá-lo ir. Isto não significa rejeitar ou deitar fora mas sim largá-lo. Aí, quando ele cessar tens a experiência do nirodha , cessação, vazio, desapego. Nirodha é outra palavra para Nibbana. Quando abres mão de algo e permites que ele cesse, o que resta é paz.

Tu podes viver essa paz através da tua própria meditação, quando na tua mente deixares o desejo terminar, aquilo que resta é muito sereno. Isso é paz verdadeira, deathless (sem-morte). Quando conheces isso, tal como é verdadeiramente, realizas nirodha sacca , a Verdade da Cessação, na qual deixa de existir o eu mas ainda existe vigilância e claridade. O verdadeiro significado da felicidade é essa serenidade, consciência transcendente.

Se não permitirmos a cessação, então a tendência é para operarmos a partir das suposições que fazemos acerca de nós mesmos, sem sequer sabermos o que estamos a fazer. Às vezes, só quando começamos a meditar é que nos apercebemos o quanto o medo e a falta de confiança que sentimos, na nossa vida, provêm das experiências da nossa infância. Lembro-me de quando era miúdo ter um grande amigo que um dia se voltou contra mim e me rejeitou, durante meses andei desesperado, isto deixou uma marca indelével na minha mente. Então, realizei através da meditação o quanto um pequeno incidente como esse, veio a afectar as minhas futuras relações com os outros, sempre tive um medo tremendo da rejeição. Nunca tinha pensado nisso até essa memória continuar a surgir no meu consciente durante a meditação. A mente racional sabe que é ridículo continuar a pensar nas tragédias de infância mas, se as mesmas continuam a surgir no consciente, quando estás na meia idade, talvez te estejam a querer dizer algo acerca de suposições que formaste quando eras criança.

Quando começas a sentir memórias ou medos obsessivos a surgirem na meditação, em vez de te sentires frustrado ou irritado com eles, vê-os como algo a ser aceite no consciente para assim os puderes libertar. Podes organizar a tua vida de modo a nunca teres de olhar para estas coisas; aí as condições necessárias para as mesmas surgirem tornam-se minímas. Podes dedicar-te a muitas causas importantes e manteres-te sempre ocupado; assim, estas ansiedades e medos sem nome nunca se tornarão em algo consciente, mas o que é que acontece quando parares e deixares de controlar? O desejo ou obsessão mudam, movem-se na direcção da cessação. Eles findam e então adquires a sabedoria de que existe a cessação do desejo. Assim, em conclusão, a terceira fase da Terceira Nobre Verdade é: a cessação foi realizada.

Realização

Isto é para ser realizado. Disse o Buddha enfaticamente: ‘Isto é uma Verdade a ser realizada aqui e agora’. Nós não precisamos de esperar até morrer para descobrirmos se tudo isto é verdade, este ensinamento é destinado a seres humanos como nós. Cada um de nós tem de o realizar. Eu posso explicar-te acerca dele e encorajar-te a praticar mas não posso fazer com que o realizes!

Não penses nele como algo remoto e para além das tuas possibilidades. Quando falamos acerca de Dhamma ou Verdade, dizemos que ela está aqui e agora, algo que podemos observar por nós próprios. Podemos voltar-nos para ela, podemos inclinar-nos para a Verdade. Podemos prestar atenção à forma como as coisas são, aqui e agora, neste momento e neste lugar. Isso é atenção plena, estar alerta e focar a atenção na forma como as coisas são. Com esta atenção plena, investigamos o sentido do eu, esta sensação de mim e daquilo que é meu: o meu corpo, os meus sentimentos, as minhas memórias, os meus pensamentos, as minhas opiniões, a minha casa, o meu carro e por aí fora.

Minha tendência era ser depreciativo de mim próprio, por exemplo, com o pensamento ‘Eu sou Sumedho’, eu pensava em termos negativos acerca de mim mesmo ‘Eu não presto’.

Mas escuta, de onde é que isso surge e onde é que cessa?… ou ‘Eu sou muito melhor que tu, eu sou muito mais avançado. Há bastante tempo que vivo a Vida Santa, por isso, devo ser melhor que qualquer um de vós!’ Onde é que isto surge e onde cessa?

Quando houver arrogância, presunção ou depreciação própria, o que quer que seja, examina-o e escuta o que vai dentro de ti ‘Eu sou…’. Sê atento e consciente do espaço antes de pensares, depois pensa-o e nota o espaço que se segue. Mantêm a tua atenção no vazio no final do pensamento e vê por quanto tempo consegues manter a tua atenção no mesmo. Vê se consegues ouvir um tipo de som na mente, o som do silêncio, o som primordial. Quando concentras a tua atenção nisso podes reflectir: ‘Existe alguma sensação de eu?’ e verás que quando estás realmente vazio, quando só existe claridade, vigilância e atenção, não existe nenhum eu. Não existe a sensação de mim ou meu, assim, vou para esse estado de vazio e contemplo acerca do Dhamma; eu penso ‘Isto é como deve ser. Este corpo aqui presente é desta forma.’ Eu posso ou não dar-lhe um nome, mas neste preciso momento, é simplesmente assim; não é Sumedho!

No vazio não existe nenhum monge Budista. ‘Monge Budista é simplesmente uma convenção apropriada a espaço e tempo. Quando as pessoas te elogiam dizendo, ‘Que maravilhoso’, podes interpretá-lo como alguém a oferecer um elogio sem teres necessariamente de o tomares pessoalmente. Pois sabes que não existe nenhum monge Budista; mas só o que é. É simplesmente assim. Se eu quiser que Amaravati seja um grande sucesso e se isso acontecer, eu fico feliz. Mas se falhar, se ninguém se mostrar interessado e não podermos pagar a conta da electricidade, e se tudo se desmoronar e falhar! Na realidade não existe nenhum Amaravati. A ideia da pessoa que é um monge Budista ou o lugar chamado Amaravati são somente convenções e não a derradeira realidade. Neste preciso momento é simplesmente assim, tal como deveria ser. Quando vemos tal lugar como realmente é, não o carregamos aos ombros pois percebemos que não existe pessoa alguma para se envolver nesse processo. Quer ele seja bem sucedido ou falhe, qualquer das formas deixa de ter importância.

No vazio, as coisas são somente aquilo que são. Quando estamos, desta forma, conscientes não significa que somos indiferentes ao sucesso ou ao fracasso e que não nos preocupamos em fazer coisa alguma. Podemos aplicar-nos, nós sabemos o que podemos, sabemos o que deve ser feito e podemos fazê-lo da forma correcta. Aí tudo se torna Dhamma, tal como é. Fazemos as coisas porque é aquilo que é correcto fazer neste momento e neste lugar em vez de ser por ambição pessoal ou medo de fracasso.

O caminho para a cessação do sofrimento é o caminho da perfeição. Perfeição pode ser uma palavra muito intimidante porque nos sentimos muito imperfeitos. Como personalidades questionamo-nos como podemos sequer atrevermo-nos a considerar a possibilidade de sermos perfeitos. A perfeição humana é algo acerca do qual ninguém sequer fala; não parece ser sequer possível pensar na perfeição em termos de se ser humano. Mas um ‘arahant’ é nada mais que um ser humano que aperfeiçoou a própria vida. Alguém que aprendeu tudo o que há para aprender através da lei básica ‘Tudo o que está sujeito a surgir, está sujeito a cessar’. Um ‘arahant’ não necessita de saber tudo acerca de tudo, só é necessário saber e compreender plenamente esta lei.

Usamos a sabedoria do Buddha para contemplar o Dhamma, a forma como as coisas são. Tomamos como refúgio o Sangha, naquilo que está a fazer o bem e a abster-se de fazer mal. Sangha não é um grupo de personalidades individuais ou de diferentes caracteres, é uma comunidade. A noção de ser um indivíduo ou um homem ou uma mulher deixa de ser algo importante para nós. Esta noção de Sangha é realizada como refúgio. Ainda que as manifestações sejam todas individuais, a nossa realização é a mesma, existe uma unidade. Com este despertar, estado de alerta e desapego, nós realizamos a cessação e perpetuamos no vazio em que todos nos fundimos. Aí não existe nenhum indivíduo, as pessoas podem surgir e cessar no vazio, mas não existe nenhuma pessoa, somente claridade, plenitude, serenidade e pureza.

Para saber sobre a Segunda Nobre Verdade acesse o LINK abaixo:
https://theravada.trd.br/a-segunda-nobre-verdade/

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