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O ego e o local para a prática Budista

Posted on 16/10/202616/10/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Sobre o local de Prática

No que diz respeito ao local de prática, o Buddha sempre recomendou locais afastados, longe das demais pessoas e do barulho da confusão, mas um local apropriado. Ou seja, um local onde haja segurança, onde tenha água, temperatura amena e comida disponível. Não necessariamente no meio do deserto, nem no meio de uma geleira, onde a vida é muito inóspita. São vários os motivos para isso.

Primeiro Motivo: Menos distrações, mais oportunidade de observar a Mente

O primeiro motivo é que, se o seu interesse é observar a sua própria mente, e se você tem a ideia de que a sabedoria traz bons resultados, é preciso entender que tipo de sabedoria se está buscando. Não é o tipo de sabedoria que vem de ler livros, ouvir teorias, ou ficar raciocinando, calculando, inventando explicações. O tipo de sabedoria que se espera obter é a sabedoria de enxergar a si mesmo, enxergar o que está acontecendo dentro da nossa própria mente, enxergar a realidade.

Então, se você tiver tempo livre para fazer isso, se não tiver coisas traindo a sua atenção, se não tiver, por exemplo, perigos por perto, você pode relaxar e parar de se preocupar com o ambiente ao redor. Se não há nenhum perigo de desmoronamento, nenhum perigo de avalanche, enchentes, esse tipo de coisa, então o ambiente é tranquilo, o ambiente é sereno. Você não precisa se preocupar com o ambiente ao redor, pode se preocupar somente em olhar para a sua própria mente.

Se não há pessoas exigindo a sua atenção, tentando te distrair para poder te vender coisas, tentando chamar a sua atenção porque ela se alimenta disso, ela sente prazer em receber a atenção dos outros, mesmo que não tenha nenhum assunto. Ela simplesmente quer que você olhe para ela, mesmo que não haja propósito nenhum nisso, apenas para satisfazer o ego. E aí você acaba perdendo muito tempo se distraindo com coisas inúteis, que não beneficiam ninguém, sempre mandando a sua atenção para fora e negligenciando olhar para si mesmo. Então, o ambiente tem esse aspecto: menos distrações, mais oportunidade para olhar para si mesmo. Essa é uma das razões.

Segundo Motivo: O Contato com a Natureza

A segunda razão para buscar um ambiente adequado é que o Buddha elogiava muito estar na natureza. Por exemplo, comparando um ambiente seguro e tranquilo dentro de um caixote de cimento, trancado ali dentro, um quarto fechado, com um ambiente tranquilo e seguro em meio à natureza — uma cabana em meio à natureza, uma caverna ou um espaço aberto — o Buddha recomendaria o segundo.

Porque a natureza tem um certo impacto. A mente é um fenômeno reativo, a mente humana é um fenômeno reativo. Ela tende a reagir, ela reage a estímulos que recebe. Então, coisas como beleza têm um efeito na mente. Enxergar paisagens belas tem um efeito na mente. Ouvir sons belos tem um efeito na mente. E a natureza é interessante.

Por exemplo, a beleza que vem da natureza, comparada com a beleza que vem da arquitetura humana; o som agradável que vem da natureza, comparado com o som agradável que vem da produção artística humana — o som e a beleza visual e auditiva que vêm da natureza são mais interessantes porque não têm Ego envolvido.

Quando você enxerga a beleza de uma obra de arte ou de uma arquitetura, por trás daquilo tem um ego. Há desejos, raiva, gostos: prefiro isso, não gosto daquilo. E também com relação aos sons. As músicas expressam o Ego das pessoas. Já a beleza que vem da natureza não tem Ego nenhum, ela simplesmente é a manifestação espontânea do que foi possível ali. Não tem nenhum desejo envolvido ou raiva, é apenas o que é.

A situação permite esse tipo de fauna, então ali está esse tipo de fauna. A situação permite esse tipo de flora, então ali está esse tipo de flora. O rio passa por onde o rio passa, não por nenhuma opinião, simplesmente é o caminho mais óbvio. Ele não tem opinião: “eu gosto mais de passar por aqui do que ali”. Ele passa onde é normal passar. Quando a água vem da montanha, desce da mina da montanha, ou a água derrete da geleira, ela não tem opinião sobre onde vai passar, simplesmente passa onde é óbvio.

E o resto vai reagindo a isso. A água começa a passar com frequência por um certo caminho, então a árvore começa a crescer ao redor daquele caminho. Quando tem árvore, os animais começam a habitar aquela região. Quando os animais habitam aquela região, eles também influenciam nas árvores, etc. E aquilo influencia o clima, condiciona a chuva, etc. Mas tudo isso sem opinião de ninguém. Ninguém tem opinião nenhuma, é só o normal, só o óbvio, só o espontâneo.

Quando você está em meio à natureza, você também tem acesso a uma realidade que não está condicionada pelo ego. Você consegue ver coisas que não estão condicionadas pelo Ego. Se você der oportunidade, sua mente vai parar de reagir dessa maneira de Ego o tempo todo: gosto, não gosto, quero, não quero, odeio, não odeio. Ela simplesmente para de interagir dessa maneira com o ambiente. E observando a natureza, você consegue observar algo que não está vinculado ao ego. Então ela é um excelente professor. Muitos dos mestres falam sempre isso: a natureza é um excelente professor.

O Exemplo da Folha Amarela e o Contraste com a Cidade

Por exemplo, como Ajahn Chah dizia, basta você olhar uma folha amarela cair da árvore, cair e começar a apodrecer no chão. Você consegue refletir sobre todo esse sistema da morte, sem todo o Ego envolvido ao redor da morte. É apenas um fenômeno natural. A árvore em si não tem opinião a respeito, a folha em si não tem opinião a respeito. Simplesmente é o ciclo natural das coisas. Então isso consegue, por exemplo, te dar um bom ponto de referência com relação à realidade desprovida de Ego.

Ao mesmo tempo, ao contrário: você vai para a cidade. A arquitetura que você vê, os objetos que você vê, são todos baseados no medo. Por exemplo, em muitas cidades, o que você enxerga nas construções é medo. A arquitetura é uma expressão de medo. A arquitetura é uma expressão de possessividade: “aqui é meu, isso é meu, e de mais ninguém. Aqui é meu, só meu”. Ou então a arquitetura é uma expressão de Ego, vaidade: “veja como eu sou fantástico, olha como eu sou especial. Sou muito melhor do que vocês, sou bem melhor”. A arquitetura é uma expressão de Ego, vaidade, possessividade, medo.

Ou sensualidade também, quando são as músicas, as imagens, as cores. Tudo tem a ver com a expressão de sensualidade, sexualidade, desejo sexual, vaidade sexual, vaidade física, etc. Então os produtos que são vendidos. E como isso também influencia a ideologia das pessoas, o tipo de ideias que as pessoas têm. Então coloca a pessoa em um estado de constante excitação.

O Ego está sempre excitado, sempre funcionando a 200 km por hora, rodando a 200 km por hora. É difícil, com uma excitação como essa, conseguir sentir segurança e tranquilidade o suficiente para pacificar a mente. Sentir, nem que seja só uma questão de ter espaço — falar de espaço mental, “eu vou sentar e relaxar um pouco”. Só esse tanto é quase muito difícil para a maioria das pessoas. Está em um constante estado de preocupação, constante estado de medo, constante estado de estar preocupado com o ambiente ao redor.

Mesmo em termos de tentação, sempre tem algo interessante acontecendo por perto. Alguma coisa está acontecendo, alguém está falando algo interessante. Alguma pessoa interessante está fazendo algo interessante. Talvez você precise dar atenção ao que as pessoas estão fazendo. O artista tal combinou de sair com o artista Y. Eles vão no local bacana, vão comer uma comida superlegal, vestindo uma roupa super bacana, com penteado novo. Então as pessoas ficam sempre com a mente fica sempre atiçada pelo Ego, pela vaidade, pelo desejo. Ou então pelo medo, pela raiva, pela preocupação, pela ansiedade, pelas opiniões.

Os Efeitos da Natureza na Mente

Então, em geral, é elogiado o contato com a natureza tanto como uma forma de você ter acesso à beleza, ter acesso a uma beleza que não está vinculada ao Ego, que não está vinculada à vaidade, que não está vinculada à ganância. Isso tem efeito na mente, isso tranquiliza.

Essa pessoa não é uma pessoa obcecada com estímulos sensoriais, não é uma pessoa obcecada com vaidade. Deixa um pouquinho de espaço que seja para que a mente faça contato com essa natureza. A mente tende a reagir com tranquilidade, tende a reagir com bem-estar, ela sente alegria, ela sente tranquilidade, sente-se feliz de estar presente ali. É o mais comum.

Agora, se essa pessoa realmente é viciada em estímulo, é viciada em vaidade, então a natureza é horrível, chata, sem graça, irritante. Tudo de ruim que existe é a natureza. Tudo que é agradável que existe são as coisas providas pela sociedade, pelas roupas, as imagens, as fantasias que a sociedade permite você vestir: “eu sou uma pessoa legal assim, eu sou uma pessoa especial dessa maneira”. Tudo mentira, são todas as fantasias que as pessoas criam com o uso de tecnologia, ainda mais. As pessoas projetam uma imagem manipulada através da tecnologia naquelas mídias sociais. Então a pessoa fica viciada nisso e realmente a natureza é insuportável, é muito chata e sem graça, não tem por que estar ali.

Mas se a pessoa não caiu fundo demais nesse sistema, então ela consegue fazer bom uso. E é uma coisa simples, não requer muito. É só você estar presente. Não tem que pagar ingresso para a natureza, não tem que pagar ingresso para olhar o céu, não tem que pagar ingresso para respirar ar puro. Em geral é tudo disponível de maneira bastante tranquila.

O Exemplo do Buddha e a distorção do Ensinamento

O Buddha elogiava muito a natureza. Ele mesmo, depois de alcançar a eliminação, continuou vivendo perto da natureza. Quando perguntado a respeito de por que, mesmo depois de alcançar a eliminação, ele não vivia na cidade grande, mas sim nas florestas, nas montanhas, ele respondia: a primeira razão é porque me é agradável, gosto, me é prazeroso viver em contato com a natureza. A segunda razão é por compaixão às gerações futuras, também para dar o exemplo para as demais pessoas.

Como falei, a cidade atiça muito o ego, atiça muita vaidade das pessoas. Se você deixar, não demora muito e inventam uma justificativa. Mesmo o Buddha dando esse exemplo, ainda assim, em tradições budistas, veem o correto de viver na cidade, por compaixão, porque é onde as pessoas estão, então a gente tem que viver na cidade. Mas o Buddha não: “por compaixão eu não vivo na cidade, por compaixão eu vivo junto à natureza, afastado dos estímulos que atiçam a escuridão, perto dos estímulos que estimulam a clareza, a luz”.

Então, como é natural do EGO fazer, ele sempre distorce tudo. Mesmo alguns budistas, depois de muitos séculos, conseguiram virar a história de cabeça para baixo: “não, o correto é esse, o correto é viver na cidade, mas por compaixão o Buddha dá o exemplo”. Não. O Buddha dá o exemplo: não vivo na cidade, vivo no campo, na floresta, nas montanhas. Essa é a compaixão do Buddha, porque ali é o local mais propício para vencer o Ego. Esse é o objetivo da pessoa que não quer engrandecer o ego, alimentar o ego. Então, realmente a cidade é o local ideal para quem quer engrandecer o Ego.

A Escolha sincera do local de Prática (meditar)

Agora, se você sinceramente e honestamente quer usar o budismo para vencer o ego e não usar o budismo para aumentar o seu ego ainda mais, então o local que as pessoas preferem, as pessoas que são sinceras nessa busca, é em contato com a natureza, afastado das cidades. Mesmo porque no campo também existem seres humanos. As pessoas falam que tem que viver na cidade para ter compaixão pelas pessoas, quer dizer que quem mora no campo não é gente? Que história é essa?

As pessoas inventam muita desculpa, mas na verdade, em geral o que tem mais envolvido é Ego. As pessoas gostam de ficar na cidade porque ali são famosas, são admiradas, na cidade têm acesso a estímulos sensoriais, têm acesso a prazeres, têm acesso a sabores, têm acesso a imagens, coisas que agradam o seu ego. Então, em geral, as pessoas muito egoístas preferem viver na cidade, mesmo estando dispostas a viver em meio à violência, medo constante, só para poder ter acesso aos estímulos sensoriais que a cidade oferece, só para poder ter acesso às vaidades que a cidade oferece. Chega a esse ponto: mesmo em locais de extrema violência, extremo medo, tensão e estresse, ainda assim as pessoas preferem viver ali, porque ali elas têm acesso a estímulos sensoriais, estímulos que alegram o Ego, que agradam a vaidade, o orgulho, os prazeres sensoriais e assim por diante.

Equilíbrio na Reclusão: exemplo dos Monges

Então, sempre é dada a ênfase, no que o Buddha ensinava, à natureza, a viver em reclusão. Hoje, no que diz respeito aos monges, isso já existe bastante: os monges vivem em reclusão. O limite dessa reclusão é que você não pode se afastar por completo das pessoas. Há um truque que o Buddha criou, inventou, para que os monges não se afastassem por completo: é obrigar os monges a viver de esmola. E não só viver de esmola, mas de esmola diária (piṇḍapāta). Você não pode acumular para o dia seguinte. Você tem que todo dia sair e pedir esmolas. Mesmo que a pessoa te dê mais do que o suficiente, se a pessoa te der comida o suficiente para você comer hoje e amanhã, você não pode guardar para amanhã. O que você pode comer hoje, você come hoje. E amanhã, o que sobrou, você tem que jogar fora, devolver, dar para os animais. Você não pode guardar para o dia seguinte. Você tem obrigação de sair no dia seguinte e pedir esmola novamente. Mesmo que você tenha recebido o suficiente no dia anterior, não pode guardar, tem que sair de novo no dia seguinte e pedir esmola mais uma vez. É obrigado a estar em contato próximo com as demais pessoas.

Isso realmente é muito útil. É útil para as pessoas terem contato com os monges, mas também porque a reclusão total e absoluta cria um problema. Quando as pessoas não têm contato com outras pessoas, por um lado o contato com outras pessoas pode manter a pessoa presa naquele sistema do ego. Mas, por outro lado, é como se: por um lado, o contato com as pessoas te deixa ainda funcionando dentro do mundo do Ego, isso é verdade. Mas, por outro lado, exige um certo nível de controle sobre o seu Ego.

Quando você é obrigado a interagir com as pessoas, você é obrigado, por uma questão de sobrevivência, a controlar a sua raiva, por exemplo. Se você vai interagir com outras pessoas, ou você aprende a controlar a sua raiva, ou você vai ser posto na cadeia. Quando você tem que conviver com outras pessoas, você é obrigado a controlar o seu desejo. Se você não controlar o seu desejo, você vai para a cadeia, eles vão te prender e colocar em uma cela. Você vai ser obrigado a desenvolver um mínimo de educação, respeito pelo próximo, gentileza, falar com educação, pedir licença, limpar. Depois que você tem medo de comer, você limpa as coisas, não deixa tudo sujo que nem um porco. Então exige de você disciplina, exige de você um certo nível de humildade, exige de você um certo nível de autocontrole, exige de você certas qualidades, de controlar o seu Ego, botar um limite no seu Ego.

Se você fica totalmente isolado, não tem contato nenhum com ninguém, é possível que você perca esses apoios. Então é um bom teste: você ter que fazer contato com outras pessoas é um bom teste para saber se o seu Ego está diminuindo ou não.

Importância da Companhia Sábia e o Equilíbrio no Silêncio

Então, em geral, o Buddha elogiava fazer contato mais com pessoas sábias, viver em comunidades de pessoas sábias. Com relação a fazer contato com a sociedade de maneira genérica, manter o mínimo possível, só o suficiente. Mas no que diz respeito a viver com bons amigos, bons companheiros, viver em comunidades de boas pessoas, isso o Buddha elogiava bastante.

Por exemplo, uma situação: um grupo de monges fez um voto. Eles falaram: “durante os próximos 3 meses, nós vamos fazer silêncio absoluto, proibido falar durante 3 meses, ninguém desse mosteiro vai falar uma única palavra”. Quando o Buddha soube disso, foi lá e deu uma bronca neles: “vocês acham que estão vivendo como sábios? Estão vivendo que nem idiotas. Não é assim que se deve fazer. O correto é vocês viverem e falarem só o que é útil, falarem só o que é benéfico. Podem manter: se você vai falar só o que é útil, só o que é benéfico, em geral você vai fazer silêncio, mas você não vai fazer silêncio absoluto. Quando chega, quando tem algo útil a ser dito, você fala o que é útil.”

Pelo menos no mínimo, no mínimo que o Buddha exigia, de 15 em 15 dias, os monges deveriam se reunir e falar do Dharma, ouvir uma palestra, discutir o Dhamma, fazer perguntas, conversar sobre o Dharma. No mínimo. O silêncio absoluto o Buddha não elogiava. Falava: “isso é viver que nem um idiota, isso não é o correto, isso não é uma maneira correta de desenvolver, não é saudável no que diz respeito a desenvolver a mente”.

Risco do Isolamento Total

Da mesma forma, a pessoa viver completamente isolada, sem nunca conversar com ninguém, não é necessariamente útil. É bastante arriscado fazer isso, porque o contato com demais pessoas, no mínimo, exige que você fique atento a si mesmo, exige de você um certo nível de qualidade. Se você viver totalmente isolado, você não vai ser obrigado a ter esse nível de qualidade.

Só para você ter uma situação em que tudo lhe é dado sem nenhuma exigência: está aqui a comida, está aqui o abrigo, tudo que você precisa está aí, você não precisa fazer nada, ninguém exige nada de você. Então, se a pessoa não tiver muito cuidado, isso criará um ambiente fértil para o ego, para a arrogância, para a raiva, para a impaciência se estabelecer. A pessoa pode perder a noção de si mesma.

Agora, se tem uma situação em que, para você conseguir que as pessoas te deem comida, o mínimo que é exigido é que você fale com educação, tome um banho, se vista, faça a barba. Um mínimo que se quer de você: ande de maneira elegante, não ande por aí tropeçando, ande de maneira civilizada, caminhe de maneira civilizada, aceite comida de maneira civilizada, agradeça a comida que foi dada. Mais do que isso, em geral, as pessoas vão querer pedir conselhos, vão querer ouvir ensinamentos. Então você vai ter que saber dar ensinamentos para as pessoas. Você não pode perder a capacidade de se comunicar com as pessoas, você não pode perder a capacidade de falar com as pessoas com educação.

O Meio Termo: Nem muito Próximo, nem muito Afastado

Então, é um bom meio termo. Você vive afastado, mas ainda assim em contato. Assim, você tanto evita esse estímulo exagerado da vaidade, o estímulo exagerado dos prazeres sensoriais do Ego, mas também evita — e ainda assim obriga a pessoa a ter uma atenção consigo mesma, obriga a pessoa a ter um cuidado consigo mesma para não deixar coisas básicas como gentileza, educação, higiene pessoal caírem por terra. Você, ainda assim, obriga a pessoa a ter um mínimo de ego, um mínimo de cuidado e atenção, ter uma personalidade saudável.

Então é um meio termo. Nem muito próximo, nem muito afastado. Afastado o suficiente, próximo o suficiente. Tudo isso, de novo, sempre cai de volta nessa noção do caminho médio, o caminho mediano, o modo de prática equilibrado.

A palavra majjhimā paṭipadā não significa “caminho do meio”. O caminho do meio seria majjhimā magga. Majjhima paṭipadā significa modo de praticar, modo de conduta equilibrada, modo mediano, equilibrado. Nem um extremo, nem o outro extremo. Quando o Buddha usava a palavra “caminho”, ele falava sobre o Nobre Caminho Óctuplo. Ele usava a palavra “caminho” para designar o Nobre Caminho Óctuplo. Mas a ideia de mediano, de equilibrado, era mais vinculada à prática, ao modo de vida, ao modo de agir.

Então, o modo de agir equilibrado também tem esse aspecto: nem muito afastado, nem muito próximo. Geralmente, quando se falava sobre buscar um local de prática, também se recomendava essa mesma atitude.

A Busca Equilibrada por um local de Prática

Faça um esforço para buscar um local de prática apropriado. Não fique obcecado em obter um local de prática apropriado. Faça um esforço sereno para buscar um local de prática apropriado. Não fique obcecado tentando achar um local perfeito para praticar. Só o suficiente para a prática. Procure um local tranquilo sem fazer muito esforço. Só o suficiente.

Essa ideia de sair pelo mundo para achar o local perfeito é uma delusão. Tentar encontrar o mosteiro perfeito, o clima perfeito, o mestre perfeito, isso é delusão. É uma atitude que vem da ganância e da aversão. “Quero o melhor, quero o perfeito.” Quem define o perfeito é o ego, não é a sabedoria. Mesmo que você encontre o mestre perfeito, é a expressão do ego. Quem define o que é perfeito é o ego. Você tem uma ganância pelo mestre perfeito.

O Papel do Mestre e o desafio do Ego

O maior trabalho dos mestres é te irritar. O trabalho é mandar fazer aquilo que você não quer fazer. O que você quer fazer não precisa que o mestre mande. Você não iria desenvolver a sabedoria. Ajahn Chah e Ajahn Mun, todo mundo tinha medo. Era um desafio viver com Ajahn Mun. Os discípulos tinham medo de levar uma bronca de Ajahn Mun. Era como estar dentro de uma jaula com um leão. Não podia vacilar, era medo o tempo inteiro. Tinha que ficar atento 100% do tempo. Ajahn Chah mostrava que você é burro, que está usando o Ego. Ele apontava onde você é defeituoso. Ele não passava a mão na cabeça.

Mosteiro perfeito não se encontra. Essa busca é do seu Ego. Não fique obcecado procurando um local perfeito. Faça um esforço tranquilo, só o esforço suficiente, nem muito, nem pouco. O ponto médio do esforço. Você busca as coisas pelo Ego e pelo apego. Não dê espaço ao Ego, não dê apoio ao Ego, desapegue.

Simplicidade e a Comparação com os Animais

Ganhar dinheiro às vezes é para consumir e agradar o Ego. Para uma vida simples não precisa muito dinheiro. Casa simples, roupa simples, vida simples, é o ideal. Até morar numa cidade pequena seria o ideal. Tente viver de maneira simples. Se sua exigência for pouca, morar em cidades pequenas tem mais opções.

Os animais também têm raiva e desejo, mas é pouco perceptível. Mas é mais limitado que os humanos. Eles não têm a sofisticação que os seres humanos têm. Os animais não possuem sabedoria, não têm Ego. Eles não comem o suficiente e param, eles comem o que acham, eles são limitados pela morte. Os animais não trazem sabedoria. Para o Buddha, os animais são seres inferiores. Locais mais simples e o óbvio, a encontrar.

Se quiser assitir a PALESTRA, do texto acima, do Ajahn Mudito, siga o LINK.

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