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Cântico com uma prática Budista

Posted on 11/10/202611/10/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Kevali

“O canto é algo que se conecta com a qualidade atemporal dos ensinamentos do Buda”

Acabamos de cantar juntos os ensinamentos budistas que conhecemos como os parittas (os versos protetores). Este exercício espiritual de cantar tem muitos aspectos benéficos: o cultivo da Atenção Plena, o desenvolvimento da Concentração, o desenvolvimento da sabedoria, a difusão da bondade amorosa (mettā) e também simplesmente estar presente com um senso de atemporalidade. Descobri que todos esses aspectos do nosso treinamento podem surgir do canto; particularmente quando recitamos esses versos tradicionais, antigos e arcaicos na antiga língua Pāli. A maioria de nós não entende completamente o páli, no entanto, uma atmosfera é criada a partir de toda a boa vontade que geramos. Colocar nosso coração no canto tem um efeito, subconsciente ou conscientemente.

Ao longo dos anos no mosteiro, todos nós fomos expostos muitas vezes a esses versos. Esses mesmos versos que foram transmitidos a nós pelo Buda. E apesar de não sermos fluentes na língua, entendemos o significado de muitas das palavras individuais. Essas palavras têm certos dhammas capturados ou codificados nelas. À medida que as recitamos, o significado pode ser um gatilho – algo em torno do qual podemos envolver nossa consciência. Cantar os parittas é definitivamente uma meditação. Cria uma sensação de paz e harmonia e, ao mesmo tempo, cultiva a compreensão.

Aplicando a Atenção Plena de duas maneiras

O canto como prática compreende os dois aspectos de cultivar a Atenção Plena da maneira como é tradicionalmente ensinado na Tailândia:

O primeiro aspecto é o da consciência da Atenção Plena (em tailandês: kwam roo dtua), que captura a qualidade de estar no momento presente, deixando a atmosfera e a experiência completa da prática que você está fazendo tomar conta de todo o seu coração e sentimentos de uma maneira totalmente consciente, assim como quando você conscientemente se mergulha no fluxo e na atmosfera das palavras que está cantando (sem prestar muita atenção ao seu significado particular).

E então há o segundo aspecto, o aspecto da Atenção Plena como lembrar (em tailandês: kwam ralueg dai), que definitivamente significa que você está aplicando sua mente referindo-se a alguma tarefa específica, na qual você tem uma ligeira escolha de atenção sobre onde focar, como quando você está trazendo os ensinamentos à mente.

Esses aspectos conhecemos bem da nossa prática de meditação de recitar a palavra de meditação ‘Buddho’. Quando recitamos ‘Buddho’ junto com o ritmo da respiração, colocamo-nos numa tarefa simples, que como técnica não implica muita habilidade específica, pois é algo repetitivo, algo que funciona por si mesmo. Assim podemos nos permitir estar completamente no momento presente, seguindo o que está acontecendo. A simplicidade da tarefa mantém-se.

Ao contrário, um exemplo de ter Atenção Plena com uma tarefa mais elaborada é quando você está aplicando sua atenção focada para resolver um certo problema matemático, como somar alguns números de cabeça, ou fazer técnicas de meditação de contagem. Esta é uma tarefa mais complicada do que repetir uma única palavra como ‘Buddho’. Memorizar e recordar toda uma sequência de palavras ao recitar os parittas pode ir na mesma direção.

Desenvolvendo a concentração

Portanto, esta forma tradicional de canto que a tradição Theravāda manteve ao longo dos séculos pode nos ajudar a desenvolver muitas práticas diferentes e é bom estar ciente disso. Estes não são meramente ritos e rituais; este não é um procedimento vazio.

Mencionei como podemos cultivar a Atenção Plena, Fé e devoção. O canto também pode ser usado para construir concentração ou samādhi. Temos muitas visões e opiniões sobre como desenvolver a unicidade da mente, os jhānas; certamente ouvimos muitas palestras sobre o assunto. Bem, também podemos usar esta prática antiga de cantar os parittas. Aprenda a ser realmente preciso com seu canto; fazer apenas uma coisa; não duvidar de forma alguma. Aprenda a recitar as palavras corretas para cada estrofe. Trabalhe para encontrar um sentimento de estar no fluxo do canto e ao mesmo tempo estar presente com os detalhes. Não permita que a Atenção Plena escorregue e derive para o passado ou o futuro. Esteja concentrado.

Definitivamente requer habilidade recitar os ensinamentos com precisão. Requer manter uma qualidade de atenção plena que saiba o que você está fazendo e por que está fazendo, sem vacilar. Precisamos de concentração suficiente para sustentar meia hora de atenção sem a mente divagar; ter presença suficiente para cantar plenamente sem perder energia; lembrar as palavras corretas e o tom correto. E enquanto estamos cientes desses marcadores de atenção plena, ao mesmo tempo nos mergulhamos na atmosfera gerada – mantendo isso por um período prolongado de tempo, não apenas por algumas sílabas. Sustentando a energia aplicada de foco e aplicação de Atenção Plena, e sabedoria por trinta, quarenta, cinquenta ou cem minutos; por quanto tempo o cântico durar.

Lembro-me de como fiquei fascinado na primeira vez que ouvi a recitação da regra dos monges (pāṭimokkha). Como noviços, entravamos silenciosamente na parte de trás do salão de ordenação perto do final do canto, para participar da exortação comunitária depois. Fiquei tão impressionado com a precisão da recitação. Pensei na época: ‘Esta é a aplicação de uma mente concentrada. Certamente é uma habilidade ser capaz de se manter em um objeto, manter um certo modo de mente por cinquenta a sessenta minutos sem duvidar ou vacilar’. Era um canto bonito, mas também requintadamente preciso; o ritmo, a pronúncia. Isso me lembrou de uma forma japonesa de arte marcial onde o poder de uma mente concentrada produz uma energia tremenda.

Fez-me pensar como ‘nesta antiga tradição Theravāda eles definitivamente sabiam o que estavam fazendo: ser capaz de cantar de memória, com atenção sustentada por esse período de tempo, sem vacilar; estando totalmente presente’. Não sei qual é o termo técnico para esse tipo de samādhi – khanika, upacāra – mas é definitivamente samādhi. É Atenção Plena, Concentração, Sabedoria; tudo aí junto. Observe como nesta prática também estamos desenvolvendo outro fator do Nobre Caminho Óctuplo, o Esforço Correto (sammā vāyāmo): estamos aumentando dhammas saudáveis; valorizando-os para que preencham o ar, para que se espalhem.

Podemos ver, há muitos benefícios em ter a habilidade de recitar os ensinamentos como os parittas. Quando nossa mente não se estabelece em algo tão elevado e sutil quanto a respiração, podemos usar esses cantos antigos – marcadores para a atenção plena, marcadores para a concentração – e encontrar um vínculo tangível com o ensinamento do Buda tanto no nível devocional quanto no de sabedoria. Isso se aplica qualquer que seja a forma ou ritmo que se adapte ao nosso modo de prática em qualquer momento dado. Ao mesmo tempo, enquanto recitamos esses cantos tradicionais, estamos gerando bênçãos dentro de nossos próprios corações e bênçãos que beneficiam todos os seres em todas as direções: seres humanos, seres não-humanos, aqueles em estados felizes e aqueles em moradas de sofrimento.

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