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Aprenda a lidar com a situação do mundo – 1

Posted on 11/09/202612/09/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Sobre a Mente e as Relações Humanas na Era Digital – Idealmente, estaríamos conversando sobre aspectos mais diretos do cultivo da Mente: abandonar as impurezas mentais, trabalhar com a mente. Mas, infelizmente, a maioria das pessoas ainda não está em condições de falar sobre isso. Ainda há a necessidade de pacificar a mente, de estabilizá-la. Então, acabamos falando muito sobre esse assunto básico: desenvolver um certo nível de saúde mental. Isso é ainda mais necessário hoje em dia, quando as pessoas estão expostas a todo tipo de bagunça. É um tema recorrente. Atualmente, as pessoas estão excessivamente expostas umas às outras, e muito tempo é desperdiçado tentando ajudá-las a lidar com isso.

O Problema da Exposição Excessiva – Porque as pessoas são uma bagunça. Como se não bastasse a nossa própria bagunça, ainda tentamos lidar com a bagunça dos outros. Hoje em dia, esse problema é quase endêmico, porque estamos muito expostos às demais pessoas. As pessoas têm muitas oportunidades de falar, e essa fala tem muitas oportunidades de chegar até nós. Antigamente, esse problema não era tão grave.

Os monges hoje em dia não têm muito problema com isso, porque não ficam… Bem, se não são a base do mosteiro, não têm muito esse problema. Se são a base do mosteiro, o problema se multiplica por quinze — talvez mais do que para pessoas comuns. Então, não é um assunto muito relevante para um monge que não tem acesso à internet, não tem conta no Facebook, não fica assistindo a vídeos no YouTube.

Mas, para as pessoas mundanas, as pessoas normais, os leigos, é uma questão constante. Por isso, é necessário falar um pouco a respeito, pois isso agita muito a mente das pessoas.

Mente Agitada e progresso no Dhamma – Com a mente agitada, fica difícil fazer progresso na prática do Dhamma. Isso é, de certa forma, parecido com a questão da comida. Antigamente, você não tinha muito com o que se preocupar em relação à comida: comia o que tinha. Era muito simples — tem comida, você come.

Graças ao avanço da tecnologia, hoje há muita comida disponível. Então, você precisa se preocupar com o que come. Antigamente, isso não era um assunto; hoje em dia, é. Agora, acontece algo semelhante com as pessoas. Antigamente, as pessoas que falavam com você estavam perto de você. Então, você lidava com as pessoas que estavam ao seu redor. Hoje em dia, não. Hoje, uma pessoa está no Amapá e pode ouvir a voz dela. A pessoa está no Rio Grande do Sul e você pode ouvir a voz dela.

A Necessidade de Filtrar – Há uma necessidade de aprender a filtrar isso. Da mesma forma que, em relação à comida, você precisa investigar: que tipo de comida é essa? Quais são os componentes, os ingredientes? O que isso faz? De onde vem? Para onde vai? Hoje em dia, é bom estudar um pouco quem são as pessoas. Saber identificar o que elas estão fazendo.

Do que isso é composto? Essa pessoa está falando tal coisa. Quais são os componentes dessa fala? Quais são os ingredientes? Saber identificar isso para poder escolher e separar: “Isso aqui vou consumir, isso aqui não vou consumir.”

Só porque alguém anuncia um alimento na televisão, você não é obrigado a comprar. Você não pode simplesmente comprar; precisa primeiro olhar o que aquele sujeito está anunciando e saber identificar: “Será que isso é interessante para mim? Sim ou não?” Antigamente, não havia essa preocupação. Antigamente, a pessoa via: queijo, leite, pão, arroz, feijão — havia pouco como dar errado. Hoje em dia, sabe-se lá o que você está comprando.

O Exemplo do Falso Iogurte – Eu estava observando: todo dia a gente come um negócio líquido. Eu achava que era iogurte — e era “iogurte líquido”. Você vai olhar e percebe: espera, isso aqui não é iogurte, isso é uma mistura de soro de leite com adoçante e outras coisas. Em nenhum lugar está escrito que aquilo é iogurte. Se escrevessem que é iogurte, seriam processados, na verdade. Você nem imagina. Você pensa que aquilo é iogurte mesmo. Começa a olhar e vê: não é iogurte, é leite, soro de leite misturado com adoçante, com corante. Na verdade, em nenhum lugar está escrito que é iogurte. Você apenas assume que é.

As Pessoas também são assim – Então, as pessoas também são assim. Você precisa ter um pouco de discernimento. Quem faz parte de grupos budistas provavelmente já viu isso. Alguém chega e escreve: “O Buddha ensinou isso”, quando na verdade nunca ensinou isso e aquilo outro. É uma coisa que distorce o que a pessoa está falando. É polêmico. Se você conhece um pouco a pessoa, às vezes nem leva em conta. “Ah, esse cara aí está…” Na verdade, não tem nada a ver com nada. A pessoa está apenas tentando chamar a atenção. Porque você pode se levar apenas pelo rótulo: “A pessoa descobriu uma verdade secreta. O Buddha, na verdade, ensinou aquilo…” Então você imagina que a pessoa está revelando um segredo.

Mas você conhece a pessoa, conhece a dinâmica, entende o que está acontecendo: a pessoa está tentando chamar a atenção. Ela quer atenção. Então, até dá pena. Você fica com dó: “Puxa vida, coitadinho.” A pessoa que tenta chamar a atenção quer que as pessoas conversem com ela: “Converse comigo, brilhe comigo. Qualquer coisa, mas fale comigo, por favor.”

É uma coisa meio triste de ver: a pessoa que realmente gostaria que as pessoas conversassem com ela. Elas querem atenção. Não há nada de errado nisso; fico até com pena. Entendo a razão. Mas, por outro lado, você também tem sua própria vida para viver. E se você der atenção a todo mundo que quer atenção, você nunca vai dormir. Não vai ter um minuto de paz na vida.

A Questão de dar Atenção – A quantidade de pessoas que querem atenção é muito grande. E mesmo quando você tem compaixão e quer ajudar, às vezes você tem o dever de não dar atenção. Caso contrário, você reforça um certo padrão naquela pessoa.

A pessoa quer atenção, então fala algo esdrúxulo. Aí as pessoas dão atenção a ela. Nem que seja para brigar, mas ainda assim — as pessoas brigaram, e tá bom. Porque, se as pessoas têm escolha, querem atenção no sentido de serem elogiadas. Agora, se não conseguem que as elogiem, vão tentar que as critiquem. Mas alguma coisa, por favor, não me ignorem.

A pessoa fala algo esdrúxulo, e você dá atenção. Então ela conseguiu o que queria. E você reforça aquele padrão nela. No subconsciente dela, fica: “Isso é bom. Eu quero mais disso. Então tenho que falar mais coisas esdrúxulas. Tenho que falar mais coisas sem sentido. Tenho que falar mais coisas polêmicas. Porque quando eu falo isso, as pessoas me dão atenção.”

Então, sem querer, você acaba reforçando esse padrão naquela pessoa. Isso não é bom para ela também. Não é bom para você, não é bom para ela.

Não há muito o que fazer – Não há muito o que fazer, é uma situação comum. Você sabe, a pessoa já é adulta. Não há muito o que você possa fazer. O máximo que você pode fazer é não piorar ainda mais a situação dela. Então, nesse tipo de situação, recomendo não dar atenção. Mesmo que você entenda a situação, mesmo que sinta pena da pessoa, não é útil fazer isso. Infelizmente, a pessoa se colocou num beco sem saída.

O Caso de crianças – Quando é uma criança, você ainda consegue. Se você está educando uma criança, ainda consegue. Porque, se você tem contato com ela, eventualmente ela vai fazer algo bom. Então, você escolhe dar atenção quando ela faz algo bom. Você ignora, não dá atenção, quando ela faz algo ruim. Assim, você reforça na criança o agir bem, o fazer coisas boas. Quando ela faz coisas boas, ganha atenção. É uma forma fácil.

Agora, se você só tem contato com a pessoa pela internet, e ela só apresenta esse tipo de coisa, então você não tem muito o que fazer. Quando ela fizer algo de bom, você pode elogiar, mas ela não faz — só coloca coisas ruins. Você acaba tendo que ignorar mesmo. Paciência. A pessoa vai ter que lidar com o próprio karma dela também.

O Reforço Negativo – Mas é porque, senão, você reforça. Você vê muito isso com crianças. Os pais não têm a menor noção de como se educa uma criança. Quando ela faz algo bom, algo legal, eles ignoram. Dizem: “Ok, normal.” Agora, quando ela faz algo ruim, eles dão bronca e ficam bravos.

Ou seja, se a criança quer atenção, ela acaba aprendendo: “Para eu receber atenção, eu tenho que fazer algo errado. É assim que eu recebo atenção.” Então ela começa a fazer coisas erradas de propósito, para chamar atenção. Muita gente acaba desse jeito, cresce desse jeito. A pessoa é adulta e esse padrão de comportamento continua.

A Maneira correta de Educar – Então, não é assim a maneira correta de educar uma criança. Na verdade, você deveria fazer um esforço para parar o que está fazendo e dar atenção quando a criança faz algo correto. Quando ela faz algo ruim, você avisa: “Isso é ruim.” E não dá atenção. Você não fica ali só focando na criança quando ela faz algo errado. Na verdade, você deveria focar mais nela quando ela faz algo bom. Mas é o contrário que acontece. As pessoas não fazem isso.

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