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Equanimidade não é inimiga da compaixão

Posted on 02/09/202602/09/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Ajahn Mudito

Namo tassa Bhagavato Arahato sammā Sambudassa
Namo tassa Bhagavato Arahato sammā Sambudassa
Namo tassa Bhagavato Arahato sammā Sambudassa
Buddha Dhammaṁ Sanghaṁ Namassāmi

Complementando a conversa sobre mettā-bhāvanā (a meditação do amor compassivo), é igualmente útil – e necessário – saber se a mente está em equanimidade. Isso porque certas situações exigem esse estado. Não vivemos mais num mundo onde tudo dá certo ou está sempre alinhado com o Dhamma.

Haverá muitas ocasiões em que você precisará da humildade para simplesmente sair da frente e deixar as coisas passarem. Não é possível controlar tudo, nem consertar tudo – e, de fato, muitas coisas não precisam ser consertadas.

Embora façamos parte deste mundo e tenhamos certo poder de ação sobre ele, nossa base de interferência é bem limitada. Não se trata de um dever de consertar as coisas. Algumas pessoas gostam de fazer o mal – e o fazem. Outras gostam de praticar o bem – e o praticam. Um grupo tem tanto direito de atuar e mudar as coisas quanto o outro grupo.

Quem busca coisas baixas quer liberdade para fazer o que deseja: sexo, drogas, barulho, bagunça. Não seria correto proibir isso. Mas quem gosta da bondade também tem o direito de agir – não por dever, mas porque sente prazer em ajudar e melhorar. No entanto, nem sempre é possível ou apropriado fazer isso.

Por exemplo: você quer ajudar alguém que não quer ser ajudado. Não pode obrigá-la. A pessoa quer se envolver em confusão, quer ir a uma festa, mesmo sabendo que não é bom para ela. O que se pode fazer? Você não tem o direito de proibir. É preciso recuar – recuar a Mente e estabelecê-la em equanimidade.

Assim como mettā é uma sensação, uma emoção, a equanimidade também é uma sensação. É a emoção de soltar, de não interferir, de aceitar as coisas como são – mesmo que não sejam boas. É um estado de aceitação, de deixar que as coisas sejam. Internamente, é como um recuo da mente: ela larga, desapega, recua para dentro, sai da frente e deixa passar.

Da mesma forma que, em mettā-bhāvanā, usamos pensamentos para entrar em contato com a emoção do bem-querer – até nos tornarmos hábeis em manifestá-la silenciosamente –, também podemos treinar a mente em equanimidade (upekkhā) utilizando reflexões que gerem essa sensação de recuo, de não interferência, de aceitação.

Há várias maneiras de fazer isso. Você pode, por exemplo, pensar em termos de humildade: diante de uma situação, pergunte-se: “Quem sou eu para dizer o que essa pessoa deve ou não fazer?” Ela tem o direito de fazer suas próprias escolhas, mesmo que ruins. A vida dela não me pertence; não sou eu quem decide.

Outra reflexão: “Talvez eu esteja errado. Tenho a impressão de que isso vai dar errado, mas quem sabe? Não sei tudo, não prevejo o futuro. Pode dar errado agora, mas depois… paciência. Vamos ver.” Desse modo, a mente recua do apego e alcança um estado de equanimidade, de aceitação, de permitir que as coisas sejam como são. É uma espécie de abrir mão do controle.

Os ensinamentos budistas descrevem a existência como um ciclo interminável de nascimentos e mortes (saṃsāra). As pessoas, por ignorância, ficam presas ao desejo e à aversão, acreditando num “EU” ilusório. Essa prisão do desejo as leva a morrer e renascer indefinidamente – não para sempre, mas por um tempo incalculável. Enquanto permanecerem nessa ilusão, experimentarão sofrimento. Mesmo o prazer é causa de sofrimento, e vice-versa. É um balanço constante.

Até a respiração ilustra isso: inspirar até o limite, expirar até o outro limite – como um rato numa gaiola que toma choque em ambos os lados. Essa dualidade se ramifica em infinitas manifestações, do corpo à mente, à sociedade.

Há também a lei de causa e efeito (lei do kamma). Cada pessoa está sujeita às próprias ações e herdeiro de suas ações. Se alguém desenvolve uma mentalidade de sofrimento, experimentará sofrimento – e isso é um freio. Se criasse causas para o sofrimento e não o experimentasse, seria pior, pois continuaria sem freio. O sofrimento, muitas vezes, impede que a pessoa prossiga no caminho errado. Não podemos tirá-lo à força, pois é causado por ela mesma. Às vezes, a melhor coisa é deixar que ela experiencie as consequências de seus atos.

Você pode refletir sobre o ciclo dos seres, a impermanência, como a bondade surge graças ao sofrimento, e como as pessoas buscam melhorar quando enxergam a insatisfação. Se alguém está encantada com o sofrimento, há pouco que se possa fazer – e nem sequer temos o direito de forçar.

Portanto, quando o bem-querer for útil e benéfico, manifeste-o – é agradável e faz bem. Mas se não estiver ajudando, se gerar atrito ou sofrimento em você, estabeleça a equanimidade.

Os quatro Brahma-vihāras são: Mettā (amor-bondade), Karuṇā (compaixão), Muditā (alegria altruísta) e Upekkhā (equanimidade). Eles formam um conjunto, não são separados. Muitos só querem os “divertidos” – amor e compaixão – e ignoram a equanimidade, achando que ela é indiferença. Mas não se trata de certo ou errado. São quatro expressões de uma mente sábia. A mente sábia sente bem-querer, compaixão, alegria altruísta e equanimidade, conforme apropriado. É a sabedoria que decide o que fazer em cada situação.

A sabedoria é como um músculo que se deve exercitar, fazendo por tentativa e erro, até que se pegue o jeito de saber quando é melhor agir com compaixão, com bem-querer, ou mesmo recuar com equanimidade. Você pode refletir sobre causa e efeito, humildade, kamma, impermanência, até conseguir recuar a mente. Quando o esforço de ajudar se torna inútil ou gera sofrimento, a reação sábia é a equanimidade.

A mentalidade mundana, por ser grosseira, não enxerga isso. Mesmo pessoas boas podem ter uma bondade infantil, melodramática, movida pelo ego – que busca estímulos fortes, apego e controle. Elas não veem valor na equanimidade; confundem-na com indiferença ou egoísmo. Mas essa é uma atitude imatura.

Os Brahma-vihāras são chamados assim porque são a forma de existir dos brahmas – seres celestiais elevados. Uma pessoa nobre, quando tem a mente boa, possui essas quatro qualidades. Quem só tem compaixão e bem-querer, sem equanimidade, torna-se insustentável: a bondade vira veneno. Sem um lugar para descansar a mente, a compaixão se transforma em raiva e rancor.

Exemplo: vegetarianos que odeiam quem não é vegetariano. Ou quem luta contra o racismo e passa a odiar os racistas – mas o racismo é uma expressão de ódio. Enquanto o ódio não for eliminado, ele se manifestará de outras formas: por ideologia, cultura, classe social, nacionalidade. É uma dança de cadeiras: troca-se o alvo, mas o ódio permanece. Mesmo que você elimine tudo o que se odeia, o ato de odiar continua e busca novos objetos. Quem é radical ataca quem é menos radical – e o ciclo se perpetua.

A compaixão sem equanimidade é como um motor que esquenta sem refrigerante: explode. A pessoa ou se torna cética, ou amargurada. A equanimidade é o fator de equilíbrio – tanto na vida social quanto na Meditação.

Na meditação, você pode usar a equanimidade como referência. A mente reage com desejo ou aversão; tente mantê-la equânime diante do que surge: calor, energia, desconforto, conforto – apenas observe em silêncio, sem opinar, interferir ou controlar.

Quando a meditação avança e surge felicidade, êxtase (pīti), muitos querem agarrar. É difícil ser equânime diante da felicidade, pois a mente pensa: “Por que abrir mão da melhor coisa do mundo?” A solução é repetir a experiência até que se torne monótona – pois até a melhor sensação, repetida, perde o encanto. É a lei da impermanência: sabbe saṅkhārā aniccā – todas as formações são impermanentes.

Treine a mente com situações fáceis primeiro: uma fila na padaria, por exemplo. Depois numa outra situação difícil. Há duas padarias, uma tem fila e a outra não tem fila. Vá naquela que tem fila para treinar. Aprenda a recuar, a não se envolver, a não ter opinião. Recolha a mente para dentro de si. Para quem pratica o Dhamma, a equanimidade é uma qualidade essencial – pode ser o fundamento do estado mental, especialmente para monges.

As pessoas podem estranhar sua equanimidade, mas você pode estabelecê-la de forma pontual. Treine antes: na meditação, em atividades cotidianas, diante da raiva ou da compaixão. Olhe de diferentes pontos de vista; gere o que for útil. Mantenha sua Mente dentro dos quatro Brahma-Vihāras, Mettā (amor-bondade), Karuṇā (compaixão), Muditā (alegria altruísta) e Upekkhā (equanimidade).
Essa é a marca de uma pessoa sábia: saber aplicar cada um deles no momento certo – sem regras fixas, mas com discernimento.

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