Editoria
O Dhammapada é o texto mais conhecido e o mais respeitado do Tipitaka Pāli, as Sagradas Escrituras do Budismo Theravada. A obra está incluída no Khuddaka Nikaya (“Coleção Menor”) do Sutta Pitaka, mas a popularidade que ganhou elevou-a para as fileiras de um clássico do mundo religioso, muito acima do simples lugar que ocupa nas escrituras.
Composta em antigo idioma Pāli, esta sucinta antologia de versos constitui um compêndio perfeito de ensinamentos do Buddha, compreendendo em sua dissertação todos os princípios essenciais elaborados ao longo dos quarenta e tantos volumes do Cânone Pāli.
De acordo com a Tradição Budista Theravada, cada verso do Dhammapada foi originalmente proferido pelo Buddha como respostas a episódios específicos. Relatos destes, juntamente com a exegese dos versos são preservados no comentário clássico da obra, compilados pelo grande erudito Bhadantacariya Buddhaghosa no século V a.C., assente em textos que remontam a tempos muito antigos.
O conteúdo dos versos, no entanto, transcende as circunstâncias limitadas e particulares da sua origem, alcançando através dos tempos, vários tipos de pessoas em diversas situações da vida. Para o simples e humilde, o Dhammapada é um bom conselheiro; para o exigente intelectual, os ensinamentos claros e diretos inspiram respeito e reflexão; para aquele que busca com sinceridade, funciona como uma fonte perene de inspiração e instrução prática.
Manō pubbaṅgamā dhammā Manō pubbaṅgamā dhammā
manō setthā manomayā manō setthā manomayā
manasā cē paduṭṭenā manasā cē pasannēna
bhāsati vā karoti vā bhāsati vā karoti vā
tatō nam dukkhamanvēti tatō nam sukhamanvēti
cakkamva vahatō padam. chāyāva anapāyani.
1. Estes dois versos INICIAIS abrangem a ideia fundamental do Buddha Dhamma: a de que a mente está na vanguarda. Todo este mundo é constituído pela Mente e tem a mente como base para tudo.
Manō é, naturalmente, a mente. Dhammā (no plural, não se referindo ao Buddha Dhamma) são as energias que a mente gera (por meio do poder de javana). Dhammā deriva de uma raiz que significa “sustentar” ou “portar”, indicando que tudo surge devido aos dhammā.
Esses dhammā, então, dão origem a tudo (todos os fenômenos) neste mundo — sejam seres vivos ou matéria inanimada.
Pubbaṅgamā (pubba + anga) significa aquilo que vem primeiro. A primeira linha (em ambos os versos) afirma que a mente cria todos os dhammā que dão origem a tudo neste mundo. A segunda linha diz que tudo é preparado (settā) e se manifesta na mente (manōmayā).
A mente cria esses Dhammā por meio de pensamentos (saṅkhāra). Isso requer uma explicação detalhada que pode alcançar níveis mais profundos para explicar.
2. Dependendo de se alguém fala (bhāsati) e age (karōti) com uma mente impura (paduṭṭha) ou serena/virtuosa (passanā), os dhammā (fenômenos) gerados pela mente conduzem ao sofrimento (dukkhamanvēti) ou à felicidade (sukhamanvēti).
No caso de uma mente impura (agindo com lōbha, dōsa, mōha — ganância, ódio e delusão), o sofrimento seguirá a pessoa assim como a roda de uma carroça segue as pegadas do boi que a puxa (cakkamva vahatō padam).
No caso de uma mente serena e moral (agindo com alōbha, adōsa, amōha — ausência de ganância, ódio e delusão), a felicidade seguirá a pessoa assim como a sua sombra a acompanha (chāyāva anapāyani).
3. Estes dois versos podem ser interpretados em um nível mundano, conforme descrito no item 2 acima. Qualquer tarefa realizada com uma mente pura sempre conduzirá a um estado mental agradável e alegre.
Existe uma interpretação mais profunda. Pensamentos, palavras e ações realizados com uma mente impura (lōbha, dōsa, mōha) podem levar a renascimentos nos apāyās (estados de privação ou sofrimento) e, consequentemente, a um alto grau de sofrimento. Aqueles realizados com uma mente serena (alōbha, adōsa, amōha) levarão a renascimentos nos “reinos bons” e, eventualmente, conduzirão ao Nibbāna, o fim de todo sofrimento.
4. Agora, podemos traduzir livremente os dois versos da seguinte forma:
Todos os fenômenos têm a mente como precursora; todos são criados pela mente.
Se alguém fala ou age com uma mente impura (isto é, pratica o dasa akusalā — as dez ações não saudáveis), então o sofrimento (dukkha) o seguirá assim como as rodas de uma carroça seguem as pegadas do boi que a puxa.
Todos os fenômenos têm a mente como precursora; todos são criados pela mente.
Se alguém fala ou age com uma mente purificada (isto é, pratica o dasa kusalā e o puñña… kamma), a felicidade (sukha) segue a pessoa como a sua própria sombra. Essa é a fonte do “nirāmisa sukha”, que por fim conduz ao Nibbāna.
Outra versão de Buddharakita
- A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o
seu criador, pois são todos forjados pela mente. Se uma pessoa
fala ou age com uma mente impura, o sofrimento segue-a como
a roda que segue o pé do boi. - A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o
seu criador, pois são todos forjados pela mente. Se uma pessoa
fala ou age com uma mente pura, a felicidade segue-a como uma
sombra que jamais a abandona.

