Walter Nguyen
Naquele ano, o Buda passou o retiro das chuvas na cidade de Rajagaha, a capital do reino de Magadha. Ao final do retiro, o Buda anunciou que deixaria o mosteiro e viajaria de lugar em lugar para ensinar o Dhamma.
Ao ouvirem a notícia, os monges prepararam apressadamente seus pertences, lavando suas tigelas (para a piṇḍapāta) e vestes para acompanhar o Buda. Enquanto todos se ocupavam com os preparativos, apenas o Venerável Mahākassapa permaneceu calmo e não demonstrou qualquer sinal de que se preparava para partir com o Buda.
Ao verem isso, alguns monges começaram a julgar mal o Venerável Mahākassapa. Eles pensavam que ele estava apegado à cidade de Rajagaha — visto que sua família fora extremamente rica — e que queria ficar para trás para permanecer perto de seus parentes e desfrutar de sua hospitalidade e boas oferendas.
Quando o Buda soube desse boato, preocupou-se com a possibilidade de que aqueles monges falassem de forma equivocada e acumulassem karma não virtuoso; por isso, chamou-os e explicou a situação. Ele afirmou que Mahākassapa era um ser extraordinário, sem qualquer interesse nas coisas mundanas.
Ao longo de sua vida dedicada a ensinar o Dhamma, o Buda frequentemente intervinha para proteger pessoas boas quando elas eram mal interpretadas. O fato de o Buda corrigir pessoalmente mal-entendidos e defender seus discípulos não decorria de um afeto pessoal entre mestre e discípulo, mas carregava dois significados profundos relacionados à lei de causa e efeito.
Primeiro motivo, ele impedia que a pessoa que interpretasse mal a situação desenvolvesse pensamentos não virtuosos. Se tais pensamentos não fossem interrompidos, essa pessoa continuaria a pensar e a falar mal dos outros, criando, assim, karma escuro para si mesma. Esse é o sentido da lei de causa e efeito.
Segundo motivo, era responsabilidade de um verdadeiro Mestre preservar a justiça: pessoas boas devem ser respeitadas. Se ele conhecesse a verdade sobre um assunto, mas permanecesse em silêncio, a justiça deixaria de ser protegida. E, se ele conhecesse a verdade, mas não falasse nem agisse, ele próprio também criaria karma ruim.
Não pense que o Buda estava isento da lei de causa e efeito. Qualquer pessoa que acredite ser possível escapar da lei do karma pela prática de algum método profundo acabará caindo nos reinos de sofrimento, ignorando essa lei natural (lei do karma). Precisamente por compreender plenamente como opera a lei de causa e efeito, o Buda era sempre extremamente cuidadoso em cada ação que realizava.
Há pessoas que, devido a uma visão equivocada, frequentemente se vangloriam de uma determinada prática, alegando que aqueles que a realizam obterão mérito imensurável. Tal afirmação não condiz com a lei de causa e efeito. O resultado kármico deve corresponder à causa criada; uma causa pequena não pode, simplesmente, gerar um resultado imensurável.
Por exemplo, alguns dizem que a mera recitação de um único mantra gera mérito equivalente a ensinar 5.000 pessoas até que alcancem a iluminação. Essa alegação é enganosa e contrária à lei de causa e efeito. Guiar 5.000 pessoas rumo à iluminação constituiria nenhum mérito imensurável. Como poderia a simples recitação de um mantra ser equivalente a isso? A relação entre causa e efeito deixaria de ser justa. No entanto, aqueles que adotam essa compreensão distorcida da lei do karma e continuam a promovê-la e disseminá-la acabarão caindo nos quatro reinos de sofrimento.
Observamos que há pessoas que ensinam o Dhamma de Buddha e, por vezes, realizam feitos notáveis, mas, ao final da vida, morrem em circunstâncias extremamente trágicas. Por quê? Talvez porque, ao longo de seu ensino, tenham disseminado repetidamente uma forma de pensar, um ponto de vista ou uma interpretação incompatível com a justiça da lei do karma. Ao final de suas vidas, tiveram de vivenciar os resultados kammicos decorrentes disso.
A capacidade do Buda de enxergar uma situação em sua totalidade e responder com precisão para proteger a justiça era uma expressão da profunda sabedoria de um Nobre Ser extraordinário. Esse episódio também nos recorda que, quando ouvimos alguém ser injustamente difamado e optamos pelo silêncio — não ousando nos manifestar em defesa de uma pessoa íntegra — esse karma prejudicial também passa a fazer parte de nossas vidas, e um dia teremos de arcar com suas consequências. O que se pode fazer é esclarecer a situação que surgiu de forma clar e correta.

