Aṅguttara Nikāya (AN 3:68, 10:69, 10:70)
Sobre a Arte da Discussão — Um Ensinamento do Buda
1. Sobre o Passado, Presente e Futuro
Pode-se falar sobre o passado, dizendo: “Assim isso foi.”
Pode-se falar sobre o futuro, dizendo: “Assim iss será.”
Pode-se falar sobre o presente, dizendo: “Assim é isso, agora.”
2. Quatro Tipos de Perguntas — Quatro Respostas Adequadas
Monges, é pela maneira como alguém participa de uma CONVERSA que se pode reconhecer se é uma pessoa com quem vale ou não vale a pena conversar.
Uma pessoa não é adequada para o diálogo se, ao ser questionada:
- Não dá uma resposta categórica a uma pergunta que exige uma resposta categórica;
- Não dá uma resposta analítica a uma pergunta que exige análise;
- Não apresenta uma contrapergunta quando a pergunta exige isso;
- Não deixa de lado uma pergunta que deve ser deixada de lado.
Uma pessoa é adequada para o diálogo se, ao ser questionada:
- Dá uma resposta categórica a uma pergunta que exige uma resposta categórica;
- Dá uma resposta analítica a uma pergunta que exige análise;
- Apresenta uma contrapergunta quando a pergunta exige isso;
- Deixa de lado uma pergunta que deve ser deixada de lado.
3. Quatro Critérios para uma Boa Discussão
Uma pessoa não é adequada para o diálogo se, ao ser questionada:
- Não se atém ao que é possível e impossível;
- Não se atém às premissas no início da conversa;
- Não se atém aos ensinamentos reconhecidos como verdadeiros;
- Não se atém ao procedimento padrão de uma conversa.
Uma pessoa é adequada para CONVERSAR se, ao ser questionada:
- Se atém ao que é possível e impossível;
- Se atém às premissas acordadas no início;
- Se atém aos ensinamentos reconhecidos como verdadeiros;
- Se atém ao procedimento padrão (respeito, paciência) da conversa.
4. Como Reconhecer alguém com quem vale a pena Conversar
Uma pessoa não vale a pena como interlocutora se, ao ser questionada:
- Divaga de um assunto para outro, sem finalizar;
- Desvia a discussão do tema central iniciado;
- Demonstra raiva, aversão e se fecha em mau humor.
Uma pessoa vale a pena como interlocutora se, ao ser questionada:
- Não divaga no assunto;
- Não desvia do tema inicial da conversa;
- Não demonstra raiva, aversão nem mau humor.
5. Sobre a Humildade no Debate
Uma pessoa não vale a pena como interlocutora se, ao ser questionada:
- Menospreza o outro;
- O esmaga com palavras;
- O ridicularizacom palavras;
- Apega-se a pequenos erros do outro.
Uma pessoa vale a pena como interlocutora se, ao ser questionada:
- Não menospreza o outro;
- Não esmaga com palavras rudes;
- Não ridiculariza;
- Não se apega a pequenos erros.
6. O Propósito da Discussão
Monges, é pela maneira como alguém participa de uma CONVERSA que se pode saber se essa pessoa está verdadeiramente se aproximando do ensinamento ou não.
- Aquele que presta atenção está se aproximando.
- Aquele que não presta atenção não está se aproximando.
Ao se aproximar com atenção, a pessoa:
- Conhece claramente uma qualidade;
- Compreende uma qualidade;
- Abandona uma qualidade;
- Realiza uma qualidade.
E, ao fazer isso, ela alcança a verdadeira Libertação.
Pois esse é o propósito da discussão, do aconselhamento, de se aproximar e de prestar atenção: a Libertação da mente através da ausência de apego.
7. Versos Finais — O Modo dos Nobres
Aqueles que discutem quando irritados,
dogmáticos, arrogantes,
seguindo o que não é o caminho dos nobres,
buscando expor as falhas uns dos outros,
deleitam-se com as palavras mal ditas,
com os deslizes, tropeços e derrotas do outro.
Os nobres não falam dessa maneira.
Se pessoas sábias, conhecendo o momento certo, desejam falar,
então — palavras ligadas à justiça,
seguindo os caminhos dos nobres —
é isso que os iluminados falam:
sem raiva ou arrogância, com uma mente que não ferve,
sem veemência, sem rancor.
Sem inveja,
falam a partir do conhecimento correto.
Deleitam-se com o que é bem dito
e não menosprezam o que não o é.
Não estudam para encontrar falhas,
não se apegam a pequenos erros,
não rebaixam, não esmagam,
não proferem palavras aleatórias.
Com o propósito do conhecimento,
com o propósito de inspirar clara confiança,
aconselhamento que é verdadeiro:
É assim que os nobres aconselham.
Esse é o aconselhamento dos nobres.
Sabendo disso, os inteligentes
devem aconselhar sem arrogância.
Kathāvatthu Sutta — Os Dez Assuntos de Conversa (AN 10.69)
Assim ouvi. Certa vez, o Abençoado estava hospedado em Sāvatthī, no Bosque de Jeta, no mosteiro de Anāthapiṇḍika. Naquela ocasião, após a refeição matinal, ao retornarem da ronda de esmolas, um grande número de monges reuniu-se no salão de assembleias. E ali permaneceram, envolvidos em diversos tipos de conversas fúteis:
— conversas sobre reis, ladrões e ministros da política;
— sobre exércitos, alarmes, batalhas e guerras;
— sobre comida e bebidas;
— sobre vestimentas, móveis, grinaldas e perfumes;
— sobre parentes, veículos, vilarejos, cidades e campos;
— sobre mulheres, musas e heróis;
— fofocas de rua e de atividades coletivas;
— histórias sobre os mortos;
— especulações sobre a criação do Mundo e do mar;
— discussões sobre se as coisas existem ou não.
Ao entardecer, o Abençoado levantou-se de seu retiro solitário e dirigiu-se ao salão de reuniões. Chegando, sentou-se no assento que lhe fora preparado e perguntou:
— “Sobre qual assunto de conversa vocês estavam reunidos? Em meio a qual conversa eu os interrompi?”
— “Senhor, após a refeição matinal, ao retornarmos da ronda de esmolas, reunimo-nos aqui e nos engajamos em muitos tipos de conversas fúteis…” — e repetiram a longa lista.
O Abençoado, então, lhes disse:
— “Não é adequado, monges, que filhos de boas famílias, tendo deixado o lar pela vida santa movidos pela FÉ, se entreguem a tais assuntos de conversa.
Existem, monges, DEZ assuntos de conversa apropriados. Quais são os dez ASSUNTOS?
- Conversas sobre modéstia e viver uma vida simples(Apicchakathā);
- Conversas sobre contentamento e viver com o que se tem(Santuṭṭhikathā);
- Conversas sobre reclusão e estar em lugars quietos(Pavivekakathā);
- Conversas sobre Desapego e afastar-se de confusões(Asaṃsaggakathā);
- Conversas sobre o despertar do esforço e diligência (Vīriyārambhakathā);
- Conversas sobre virtude, conduta moral e pureza das ações(Sīlakathā);
- Conversas sobre os benefícios da concentração (Samādhikathā);
- Conversas sobre discernimento e saber ver como as coisas realmente são(Paññākathā);
- Conversas sobre a liberdade das impurezas e grilhões (Vimuttikathā);
- Conversas sobre o conhecimento e a visão da libertação (Vimuttiñāṇadassanakathā).
Se vocês se dedicassem a esses dez assuntos de conversa — que são genuínos, elevados e conducentes ao Despertar —, superariam em esplendor até mesmo o sol e a lua, tão grandiosos e poderosos quanto são.
Quanto mais, então, superariam os errantes crentes de outras seitas?
Kathāvatthu Sutta — Os Dez Fundamentos para o Louvor (AN 10.70)
Assim ouvi. Certa vez, o Abençoado estava hospedado em Sāvatthī, no Bosque de Jeta, no mosteiro de Anāthapiṇḍika.
Naquela ocasião, após a refeição matinal, ao retornarem da ronda de esmolas, um grande número de monges reuniu-se no salão de assembleias. E ali permaneceram, envolvidos em diversos tipos de conversas fúteis:
— conversas sobre reis, ladrões e ministros;
— sobre exércitos, alarmes e batalhas;
— sobre comida e bebida;
— sobre vestimentas, móveis, grinaldas e perfumes;
— sobre parentes, veículos, vilarejos, cidades e campos;
— sobre mulheres e heróis;
— fofocas de rua e de atividades coletivas;
— histórias sobre os mortos;
— especulações sobre a criação do Mundo e do mar;
— discussões sobre se as coisas existem ou não.
Ao entardecer, o Abençoado levantou-se de seu retiro solitário e dirigiu-se ao salão de reuniões. Chegando, sentou-se no assento que lhe fora preparado e perguntou:
— “Sobre qual assunto de conversa vocês estavam reunidos? Em meio a qual conversa eu os interrompi?”
Os monges responderam repetindo a longa lista de assuntos fúteis. O Abençoado, então, lhes disse:
— “Não é adequado, monges, que filhos de boas famílias, tendo deixado o lar pela vida santa movidos pela fé, se entreguem a tais assuntos de conversa.
Existem, monges, dez fundamentos para o louvor. Quais são os dez FUNDAMENTOS?
Há o caso em que um monge:
- É ele próprio modesto e estimula conversas sobre a modéstia e viver com pouco.
- É ele próprio contente e estimula conversas sobre o contentamento com o que se tem.
- Vive em reclusão e estimula conversas sobre a reclusão e locais calmos.
- Não se envolve em excesso com o mundo e estimula conversas sobre o desapego.
- Tem a energia despertada e estimula conversas sobre o despertar da energia.
- É pleno em virtude e estimula conversas sobre a plenitude na virtude e diligência.
- É pleno em concentração e estimula conversas sobre a plenitude na Concentração.
- Pleno em discernimento e estimula conversas sobre a plenitude no discernimento das coisas como são.
- Pleno em libertação e estimula conversas sobre a plenitude na libertação.
- Pleno no conhecimento e visão da libertação e estimula conversas sobre a plenitude nesse conhecimento e visão.
Estes então, monges, são os dez fundamentos para o louvor.

