Ajahn Chah
Ao sentar-se para praticar a concentração, não pense que está sentado aqui, neste salão de meditação. Diga a si mesmo que está sentado sozinho, nas profundezas da floresta.
Deixe de lado todos os seus compromissos e preocupações. Não pense no grupo nem em ninguém. Pensamentos sobre o que é bom ou ruim, sobre o que você tem ou o que lhe falta: não há necessidade de pensar neles. Concentre-se apenas no que está em seu corpo e estabeleça sua atenção plena exclusivamente na respiração.
Ou você pode imaginar que está sentado frente a frente com o Buda, de modo a manter uma vigilância atenta sobre o comportamento da mente. Não a deixe inquietar-se, mexendo nas orelhas e no nariz, ou coçando-se aqui e ali.
Mantenha o corpo ereto e a mente firmemente focada no Buda — isto é, exclusivamente na sua palavra de meditação, buddho. Mantenha a atenção plena em cada inspiração e expiração. Não deixe sua mente divagar para outros lugares.
Se você não estiver genuinamente empenhado no que está fazendo, estará enganando seu professor, as pessoas ao seu redor e a também enganando a si mesmo. O engano, neste caso, consiste em fechar os olhos e fingir que está em concentração, enquanto a mente não está imóvel como o corpo. Quando isso acontece, você sofre.
As consequências dessa falta de empenho genuíno são que, às vezes, as coisas correm bem e, outras vezes, não; ora você está consciente, ora não. Em outras palavras, os bons resultados que você busca não são constantes. Esse é o primeiro resultado.
O segundo é a distração. A mente pensa em outras pessoas e em outras coisas; não permanece com o corpo nem no momento presente. Você é como alguém que está fazendo uma refeição: pretende levar o arroz à boca com a mão, mas fica olhando ao redor, distraído. Acha que está tomando uma colherada de sopa, mas acaba ingerindo uma colherada de molho de pimenta. Tenta pegar um doce, mas acaba agarrando e mordendo um torrão de terra ou uma pedrinha.
Ou você pode fazer uma comparação com uma pessoa cega fazendo uma refeição. Uma pessoa com boa visão lhe entrega a comida, dizendo: “Isto é arroz. Isto é curry. Isto é um doce”, mas você não presta atenção ao que ela diz e acaba confundindo tudo. Então, você a culpa pela sua própria falta de atenção.
A terceira consequência de não agir com intenção genuína é o esquecimento. Você perde a consciência do momento presente, perde a noção da respiração, perde a conexão consigo mesmo. Essas três consequências são obstáculos à prática. São sinais de falta de sinceridade no cumprimento de seus deveres.
Existem dois tipos de conhecimento: o conhecimento genuíno e o conhecimento delusório.
O conhecimento genuíno é aquele que permanece aqui e agora, dentro de você, sem se dispersar para outros lugares. Você sabe quando está de pé, sabe quando está deitado, falando, pensando, etc.
Quanto ao conhecimento ilusório, trata-se daquele que persegue rótulos e percepções. Os rótulos são um ato de conhecer, mas não são o conhecimento em si. Eles são como a sombra do conhecimento.
O conhecimento genuíno consiste em estar consciente do presente, percebendo causas e efeitos. Isso é discernimento.
Por isso, cada um de nós deve procurar treinar-se para desenvolver o discernimento — aquele conhecimento genuíno que não nos enganará, levando-nos a cair em um emaranhado de sofrimento.
Fazemos isso:
- treinando a mente para permanecer firmemente concentrada;
- mantendo a Atenção Plena e a cautela na Respiração;
- mantendo-nos alertas em cada movimento;
- agindo com intenção genuína em nossos deveres; e
- demonstrando respeito e gratidão pelos nossos professores e por nós mesmos.
Esses são os fatores que nos conduzirão à felicidade e ao bem-estar aos quais aspiramos.

