Walpola Piyananda
O Conceito Budista de Mal – Ven. Dr. Walpola, Sangha Nayake Chefe da América
O conceito de mal é, na verdade, importante apenas para as religiões teístas, isto é, aquelas em que a crença em um criador é predominante. Como o budismo não adota esse conceito de criação, o MAL, portanto, não surge como um problema. Os budistas reconhecem o sofrimento (Dukkha) — tanto um sofrimento físico quanto um sofrimento mental —, mas não como um castigo pelo mal imposto por um criador insatisfeito.
As religiões teístas, por outro lado, consideram que o mal provém de alguma força ou influência externa da qual as pessoas são vítimas e, portanto, não são totalmente responsáveis. Como o mal tem origem externa, ele precisa ser anulado por outra força externa de natureza positiva. Assim, deparamo-nos com uma situação em que Deus está de um lado e o Diabo — que propaga o mal e manipula os seres humanos — está do outro. A única salvação do homem, portanto, é orar a Deus e receber Sua ajuda. Deus é, em última análise, o salvador, bem como, indiretamente, aquele que pune, uma vez que, além de criar os seres humanos, Ele também criou o Diabo. Segundo o budismo, o Mal é apenas uma ação inábil ou prejudicial (Akusala Kamma) e não algo que provém de fora. Isso é expresso de forma sucinta pelas seguintes citações:
“Por si mesmo, de fato, o mal é cometido e por si mesmo se é maculado.
Por si mesmo o mal deixa de ser cometido e por si mesmo, de fato, se é purificado.
A pureza e a impureza dependem de si mesmo.
Ninguém pode purificar outro ser humano.” (Dhammapada 165)
Segundo o budismo, “mal” significa uma ação dirigida contra a sociedade ou contra o próximo, resultando em infelicidade ou dano a outras pessoas. “Se a ação de alguém leva ao seu próprio dano, ao dano de outros ou ao dano tanto de si mesmo quanto dos outros, ela é má.” (M. Rahulovada Sutta); assim, ações más são seguidas por consequências más.
“Todos os estados mentais têm a mente como precursora;
a Mente é o seu guia, e eles são criados pela mente.
Se alguém fala ou age com uma mente impura,
o sofrimento o segue como a pata de um boi de carga segue a roda da carroça.”
(Dhammapada 2)
Vê-se, portanto, que o mal se origina das imperfeições da mente, levando diretamente a ações malignas que, segundo a lei de causa e efeito (melhor dizendo o Kamma), trazem sofrimento ao próprio indivíduo.
O Cristianismo, sendo uma religião teísta (acredita num Deus), trata o mal como uma questão de grande preocupação, visto que o ser humano se encontra quase impotente sem a intervenção de Deus. Para o Budismo, a questão central é o sofrimento (Dukkha), o qual podemos eliminar por meio de nossos próprios esforços pessoais. Se considerarmos o oposto da palavra “bom”, talvez seja mais adequado falar em “bom e mau”, e não em “bem e mal”. O mal (evil) não é exatamente o que chamamos de mau (bad em inglês). “Como o termo inglês bad abrange ambos os níveis (conotativos) com mais facilidade do que o termo mais contundente evil, ele parece ser uma tradução geral mais apropriada para o significado budista de papa.”
Toda a prática do Budismo pode ser resumida como Samappadana, ou esforços harmoniosos. Essa prática possui uma natureza quádrupla. O primeiro aspecto é o esforço para impedir que surjam estados mentais prejudiciais ou malignos.
O segundo esforço consiste em eliminar tais estados malignos e prejudiciais que já possam ter surgido no ser humano.
O terceiro esforço é produzir ou fazer surgir estados mentais bons e benéficos que ainda não existem; e o quarto esforço é desenvolver e levar à perfeição os estados mentais bons e benéficos que já estão presentes, embora ainda não manifestados. O Buda apontou: “Quando você sabe, por si mesmo, que certas coisas são prejudiciais, erradas e malignas, então você as abandona. E quando sabe, por si mesmo, que certas coisas são benéficas e boas, então você as aceita e as segue.”
O Buda também falou sobre três outros pontos de vista. “Há certos ascetas e brâmanes que ensinam o seguinte: sustentam a visão de que qualquer sensação — seja de bem-estar, sofrimento ou neutralidade — que se experimente deve-se inteiramente a alguma ação anterior. Há outros que ensinam: qualquer sensação de bem-estar, sofrimento ou neutralidade que se experimente deve-se à criação por uma Divindade Suprema. Outros ensinam que tudo isso ocorre sem causa e sem condição.”
O primeiro ponto de vista é o daqueles que acreditam que o estado presente é resultado apenas de ações realizadas em vidas passadas. Isso é chamado de pubbe-kata-hetu-vada. Se uma pessoa acredita que tudo o que lhe acontece se deve ao karma ou a ações praticadas no passado, é provável que esse indivíduo acredite que a liberdade não é possível e que deve resignar-se ao seu destino. Consequentemente, isto é o ser humano não conseguiria desenvolver-se moral e espiritualmente.
…espiritualmente sem sofrer todas as consequências de seus pensamentos e ações anteriores, tanto bons quanto maus. Assim, o ser humano fica à mercê de sua própria crença fatalista e corre o risco de tornar-se totalmente pessimista.
O segundo ponto de vista é que o bem ou o mal — as coisas agradáveis ou desagradáveis que as pessoas vivenciam nesta vida — foram criados por um criador ou por Deus. O Buda apontou que, se isso fosse verdade, o criador seria, de alguma forma, responsável por esse bem e esse mal. Se alguém acredita que Deus criou o mundo, então conclui-se que o Diabo também foi criado por Deus; e o ser humano, sendo relativamente insignificante, pode acabar não se esforçando para livrar-se do mal.
O terceiro ponto de vista é que o bem e o mal não provêm de nada em particular, mas surgem por mero acaso. (Savabhawa-Veda) Tal pessoa pode não se esforçar realmente para purificar-se, raciocinando que acidentes podem ocorrer repetidamente e trazer-lhe sofrimento. O Buda explicou, então, que todo estado mental surge da experiência sensorial e de nossas reações a tais experiências. Esse é um processo de condicionamento que ocorre desde a infância e nos impede de ver as coisas como elas realmente são — isto é, o que nós somos e o que é o mundo ao nosso redor. (Yathabutam) “O mal é simplesmente a resposta negativa do organismo a estímulos do ambiente, e não uma força que vem de fora.
O Budismo explica que ninguém é inerentemente mau. Se conseguirmos apenas observar os acontecimentos e processos, tanto internos quanto externos, e aprendermos a parar de reagir conforme nossas mentes condicionadas nos impelem a fazer, podemos nos tornar muito calmos e pacíficos. O sofrimento será, portanto, grandemente reduzido. Assim, vemos pessoas tensas e raivosas — que convencionalmente poderiam ser consideradas más — transformarem-se em pessoas gentis.
Indivíduos equilibrados devem pensar, agir e falar levando devidamente em consideração os outros. Tal estado de coisas pode trazer harmonia entre as pessoas e, assim, melhorar a condição humana — uma questão muito cara ao Buda e aos seus discípulos.
O Buda explicou que o conceito de “EU” ou “ego” é, na verdade, uma delusão, e isso deve ser compreendido com sabedoria, e não apenas intelectualmente. O “EU” é analisado em cinco agregados: forma, consciência, sensação, percepção e concepção. Esses cinco agregados são comuns a todos os seres humanos. O “EU” ou “ego” pode ser considerado um produto da Mente e, quando examinado cuidadosamente, esse “ego” — aparentemente inofensivo — revela-se responsável por tudo, desde agitações sociais até guerras mundiais. Associados ao “EU”, estão o desejo egoísta, o apego, o ódio, o egoísmo e muitos outros estados mentais impuros. O que precisamos é do crescimento ou da expansão da consciência. Devemos notar a ideia de “EU” quando a vemos surgir e desaparecer em nossas mentes. Quando desenvolvemos o desapego em relação aos componentes do “EU”, por meio de uma consciência ampliada, começamos a compreender o “EU” e o mal e o sofrimento que surgem do conflito do “EU” com a realidade.
Do ponto de vista budista, a solução para os problemas sociais só poderia ser alcançada através da transformação dos indivíduos, e não pela mudança da sociedade por meio de uma revolução social. Portanto, para nos livrarmos do mal, cada pessoa precisa cultivar a calma e a compreensão da ilusão do “EU”.
O Buda sempre nos incentiva a olhar para os nossos próprios problemas, e não para os problemas dos outros.
“Que ninguém busque as falhas dos outros, ou o que os outros fizeram ou deixaram de fazer,
mas sim as suas próprias ações, feitas ou não feitas.” Dhammapada 50
“A própria pessoa é o seu salvador; que outro salvador poderia haver?
Com a própria pessoa bem controlada, obtém-se um salvador — algo difícil de encontrar em outros.” Dhammapada 160
Antes de falecer, o Buda aconselhou Ananda (seu assistente): “Portanto, Ananda, empenhe-se em fazer de si mesmo a sua ilha (apoio), fazendo de si mesmo — e não de qualquer outra pessoa — o seu refúgio” (Digha Nikaya, Maha Parinibbana).
Um dos objetivos do Budismo é formar indivíduos completamente livres de estados mentais que conduzem ao sofrimento. O indivíduo totalmente livre do mal é chamado de Arahat (Ari = mal; Han = destruir). O Arahat é um ser humano que destruiu o mal e o sofrimento. Ele está livre da falsa ideia de um “EU” e livre do desejo de continuidade do Eu. Em última análise, ele alcança a emancipação completa de todos os apegos.
Do ponto de vista budista, Deus e o Diabo são expressões simbólicas do bem e do mal. A natureza do bem é personificada como Deus, e a natureza do mal é personificada como o Diabo. Mesmo ao ler o Evangelho de Cristo, um budista poderia compreender as palavras dele dessa maneira e ver Jesus como um budista. Quando Jesus falava de si mesmo como Filho de Deus, isso poderia ser entendido, em última instância, como “filho da bondade”.
Pegaram novamente em pedras para apedrejá-lo. Jesus respondeu-lhes: “Mostrei-vos muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais?” Os judeus responderam-lhe: “Não é por uma obra boa que te apedrejamos, mas por blasfêmia, porque tu sendo homem, fazes-te Deus”. Jesus respondeu-lhes: “Não está escrito na vossa lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’? Se ele chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada), dizeis vós, daquele a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo: ‘Blasfemas’, porque eu disse: ‘Sou o Filho de Deus’? Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim; mas, se as faço, ainda que não acrediteis em mim, crede nas obras, para que saibais e compreendais que o Pai está em mim e eu estou no Pai”. (João 10:31-39.)
Para o budista, fica muito claro que o que Jesus queria dizer com “Deus” é a natureza bondosa existente em si mesmo. Há outra passagem em que Jesus apontava para algumas pessoas, indicando que elas eram filhas do Diabo.
“Vós tendes por pai o Diabo e quereis satisfazer os desejos do vosso pai. Ele foi homicida desde
o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele.” (João 8:44)
Isso deixa bem claro para o budista que o Deus e o Diabo, na visão de Jesus, não passavam de formas personificadas do bem e do mal. Isso está em total acordo com a visão budista.

