Thanissaro 1Bhikkhu
Quando o Caminho é concluído, é nesse momento que você o deixa de lado. É aí que você desenvolve a percepção de um não-EU para todas as coisas, pois o caminho já cumpriu sua função. Você não precisa mais se apegar a ele.
Talvez você se lembre da analogia do Buda sobre atravessar o rio. A margem onde você está é perigosa. A outra margem é segura, mas não há barco para buscá-lo e levá-lo para o outro lado, nem ponte sobre o rio. Então, você precisa construir uma balsa. De que material você faz essa balsa? Das coisas com as quais você se identifica deste lado do rio: as formações corporais, as formações verbais e as formações Mentais. Você então se segura firmemente nessa balsa enquanto atravessa o rio navegando. Ao chegar à outra margem, é aí que você pode soltar a balsa. Em outras palavras, você percorreu o caminho até a felicidade suprema.
Não há mais nada a fazer. É por isso que o caminho é chamado de “o karma que põe fim ao karma“. Você desapega e então alcança a felicidade suprema. Portanto, é importante encarar o ensinamento sobre o karma como o ensinamento budista mais fundamental. Este é apenas um exemplo de como ele ajuda a dar sentido a todos os ensinamentos do Buda.
Isso significa que o kamma (ou karma em sânscrito) é poderoso de duas maneiras. Primeiro, no sentido de que o kamma, como conceito, ajuda a explicar tudo o que o Buda ensinou. Mas, o que é ainda mais importante, a realidade do kamma é que você tem o poder de não sofrer no momento presente. Se você aprender as habilidades relacionadas aos três tipos de formação, terá em suas mãos o poder de não sofrer. É claro que o poder traz responsabilidade; no entanto, embora essa responsabilidade exija algum esforço, os resultados compensam amplamente qualquer empenho que você dedique a isso.
Pergunta: O que é karma (ou kamma)?
Resposta: O karma (ou kamma) tem dois significados. O primeiro e principal significado é a ação intencional. A qualidade do karma — se é hábil ou inábil — é determinada pela qualidade da intenção.
O segundo significado é o resultado de uma ação intencional. Por exemplo, quando o Buda fala sobre karma antigo, ele está, na verdade, falando sobre os resultados de ações (karma) que você realizou no passado, ou em vidas passadas.
Pergunta: Isso traz à mente as percepções que outras pessoas próximas a você podem ter a seu respeito e o efeito dessas percepções — como elas acabam se tornando suas, de certa forma, e gerando muito sofrimento.
Resposta: O fato de outra pessoa ter uma percepção negativa sobre você é resultado de um kamma negativo do passado. Mas aceitar ou não essa percepção é o seu kamma presente. Se você tentasse mudar a percepção de todos para que fosse positiva, isso nunca teria fim. Portanto, você precisa se perguntar: “Até que ponto devo aceitar essas percepções? Se não consigo mudar a forma como me veem, como posso aprender a não adotar essas mesmas percepções? E como posso aprender a não sofrer pelo fato de eles terem essas opiniões sobre mim?” Aprenda a exercer seu poder de escolha nessa área.
Pergunta: Como manter o equilíbrio interior quando, ao nosso redor, prevalece a percepção de que o mundo parece estar desmoronando, com toda a crueldade e as coisas ruins acontecendo à nossa volta?
Resposta: Você precisa compreender que o kamma do mundo é o kamma do mundo (no sentido ser das pessoas e não do planeta).
O seu kamma é o seu kamma. Mesmo que o mundo pareça determinado a ir para o inferno, você ainda pode preservar o seu bom kamma. Você não precisa ir para o inferno junto com eles. Você pode cultivar as perfeições — desenvolvendo a benevolência, a persistência e a determinação. Busque oportunidades onde possa ser útil.
Há um sutta em que um rei vai visitar o Buda, e o Buda lhe pergunta: “De onde você vem a esta hora do dia?”
O rei é notavelmente sincero diz: “Ah, das coisas típicas de alguém obcecado por conquistar e manter o poder sobre um vasto território.” O Buda diz: “Suponha que alguém de confiança viesse até você e dissesse:
‘Há uma montanha enorme avançando do leste, esmagando todos os seres vivos em seu caminho.’ E outra pessoa de confiança dissesse: ‘Há outra montanha avançando do sul, esmagando todos os seres vivos em seu caminho.’ Duas outras pessoas de confiança dissessem: ‘Há outra montanha avançando do oeste e mais uma avançando do norte, esmagando todos os seres vivos em seus caminhos.’ Diante dessa terrível destruição da vida, o que você faria?”
O rei responde: “O que mais eu poderia fazer senão praticar o Dhamma (ensinamento)?”
Então o Buda diz: “Eu lhe digo: o envelhecimento, a doença e a morte estão avançando, esmagando todos os seres vivos em seu caminho. O que você vai fazer?” Responde o rei: “O que eu poderia fazer senão praticar o Dhamma?”
E quanto a você leitor(a), o que mais você fará? É o seu bom kamma que não pode ser esmagado; é o seu bom kamma que você leva consigo. Esse é o seu tesouro. Se outras pessoas estão jogando fora seus tesouros, isso não é motivo para você jogar fora os seus. E você não é o único que se beneficiará. Há as pessoas que você ajuda por meio de sua virtude e de sua generosidade, e há as pessoas que se inspiram no seu bom exemplo. Essa é a minha recomendação. Caminhe o bom caminho e faça méritos.
Pergunta: Se o kamma está predeterminado, então está determinado que temos de sofrer?
Resposta: Há algumas coisas ruins que acontecerão devido ao seu kamma passado e pode haver algumas coisas muito boas que acontecerão devido ao seu kamma passado. Às vezes, elas são inevitáveis, mas a questão de saber se você sofrerá com elas ou não depende da sua habilidade no momento presente. Essa é a parte que não está predeterminada.
Pergunta: Existe uma maneira de entender o kamma (das pessoas de forma coletiva) e como ele nos afeta? Por exemplo, pessoas que nascem em países diferentes, como algumas que nascem no Brasil ou em outros países: existe uma raiz kármica ou algo que leve a isso? Qual é a relação?
Resposta: O kamma é algo que você realiza individualmente, pois o kamma de cada pessoa baseia-se nas intenções individuais dessa pessoa. Pode acontecer que diferentes indivíduos, em lugares distintos, tenham cometido atos negativos muito semelhantes; mais tarde, todos acabam nascendo no mesmo lugar, e seu kamma negativo se manifesta simultaneamente.
Portanto, se algo ruim acontece com muitas pessoas no Brasil, isso não significa que todos os brasileiros tenham gerado esse kamma negativo. Pode haver pessoas nascidas aqui que, em uma vida passada, nasceram em outros lugares e acumularam seu kamma negativo individualmente nesses locais. Mas, depois, elas acabaram nascendo aqui e enfrentando um destino semelhante, todas ao mesmo tempo. É por isso que vemos um grande número de pessoas morrendo em acidentes ou desastres de diversos tipos.
Talvez eu não devesse ter mencionado o Brasil. As pessoas que nascem nos Estados Unidos atualmente carregam muito kamma negativo.
Pergunta: A pessoa que fez a pergunta estava se preparando para receber visitas. Ela estava refletindo sobre coisas que aconteceram na semana anterior. Por exemplo, ela foi a cinco lojas para resolver pendências e, dos cinco lugares onde parou, teve problemas em quatro deles. Primeiro, algo com o caixa; segundo, algo com o preço; terceiro, algo com a queda do sistema, e assim por diante. Parece ser algo recorrente para ela ao longo do tempo. As pessoas dizem que isso acontece com todo mundo, mas ela sente que é algo pessoal. Pode-se dizer que isso é uma questão cármica? Existem suttas ou algo que explique isso?
Resposta: O Buda disse que, se você tentar pensar sobre essas coisas, acaba enlouquecendo. Lembre-se apenas do princípio básico: se há alguma dificuldade, é porque houve ações não habilidosas no passado. Mas, quanto a quais foram exatamente essas ações, o Buda desencoraja pensar nisso. E, quanto a quanto tempo esse kamma negativo vai durar, você não sabe.
Algumas pessoas pensam que o kamma é como uma conta bancária e que o que você vê em um determinado momento é o saldo atual da conta. Mas não é bem assim. O Buda diz que é mais como ter um campo, e cada ação que você pratica é como plantar uma semente nesse campo. Você tem algumas sementes boas e algumas sementes ruins. Algumas brotam lentamente; outras brotam rapidamente. Talvez algumas sementes ruins estejam brotando agora, mas isso não significa que você não tenha sementes boas prontas para brotar em breve.
E o Buda diz que você pode regar as sementes boas com sua atenção, para que cresçam mais rapidamente. Isso significa que, quando você vê outra pessoa sofrendo, não deve dizer: “Bem, ela está sofrendo por causa de seu kamma negativo, então merece continuar sofrendo”. Talvez ela tenha sementes boas que ainda não estão brotando. Tente se colocar no lugar dessa pessoa. Se você estivesse sofrendo devido ao brotar de algum kamma negativo, não gostaria que alguém o ajudasse?
Portanto, esta é a sua chance de investir em bom kamma ajudando essa outra pessoa, se puder. No seu caso, agora, você tem algum carma negativo surgindo, mas isso não significa que esse seja o único carma que você possui. E lembre-se de que todos nós, no reino humano, temos uma mistura de kamma bom e ruim; portanto, não se envergonhe pelo fato de que algum carma negativo está surgindo atualmente no seu campo.
Pergunta: Gostaria de saber o que fazer quando se lida com formações mentais realmente intensas e turbulentas — uma raiva ou luxúria muito fortes — e você está a um passo de cometer uma ação prejudicial, mas não consegue simplesmente sentar e meditar. O que você deve fazer?
Resposta: É nesses momentos que você precisa de um remédio forte. Por exemplo, no caso da luxúria: imagine a pessoa que desperta seu desejo sem a pele. Você ainda sente luxúria? Algumas pessoas, em estado de grande desespero, podem ainda sentir luxúria; então, a questão passa a ser: “O que ainda alimenta a luxúria dentro de mim?” Às vezes, a luxúria não está focada no objeto ou na pessoa. Ela está focada na história que você conta a si mesmo: “Eu faço isso, depois faço aquilo, depois aquilo outro; e ela faz isso, e ela faz aquilo”. Em um caso assim, pergunte a si mesmo: “Por quanto tempo mais quero continuar caindo nessas mentiras que conto a mim mesmo?” Imagine sua luxúria rindo de você. Diga a si mesmo: “Só desta vez, vou dizer ‘não'”. Veja o que acontece.

