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Diálogo entre o Buda e Māra sobre os Sentidos

Posted on 16/07/202616/07/2026 by Edmir Ribeiro Terra

O Fazendeiro – Kassaka Sutta (SN 4:19)

Diálogo entre o Buda e Māra sobre os Sentidos

Em certa ocasião, o Abençoado estava hospedado nas proximidades da cidade de Sāvatthī. Naquele momento, ele estava proferindo um ensinamento especial para os monges que ali se encontravam. O tema do discurso era a Libertação — ou seja, o caminho para se libertar do sofrimento e das amarras da existência condicionada.

O Abençoado não se limitava a simplesmente falar. Ele instruía os monges com orientações precisas, incitava-os a refletir profundamente, despertava-lhes a mente para verdades antes não percebidas e encorajava-os a perseverar na prática espiritual. Era um discurso completo, que abrangia todos os aspectos necessários para o despertar interior.

Os monges, por sua vez, estavam completamente entregues àquele ensinamento. Eles se mantinham atentos, sem deixar a Mente divagar. Demonstravam verdadeiro interesse pelo que estava sendo dito. Ouviam com toda a atenção, e suas consciências estavam totalmente concentradas naquele momento, sem qualquer distração. Dessa forma, eles absorviam o Dhamma (ensinamento) com dedicação plena.

Foi precisamente nesse contexto que Māra, o Maligno — a entidade que representa a tentação, o apego e todos os obstáculos à iluminação — teve um pensamento perturbador. Ele refletiu consigo mesmo: “Gotama, o contemplativo, está neste momento instruindo, incitando, despertando e encorajando os monges com um discurso sobre a Libertação. E os monges estão receptivos: atentos, interessados, ouvindo com cuidado e com a mente totalmente concentrada. Isso é perigoso para mim. Se eles compreenderem esse ensinamento e se libertarem, escaparão do meu domínio. Portanto, é melhor que eu vá até Gotama e tente turvar sua visão, criar confusão em sua Mente ou distraí-lo, para que o ensinamento não seja completado.”

Assim, Māra, o Maligno, decidiu agir. Para se aproximar do Abençoado sem ser imediatamente reconhecido, ele adotou uma forma disfarçada. Tomou a aparência de um simples agricultor (fazendeiro). Ele colocou sobre o ombro uma grande relha de arado, daquelas usadas para arar a terra, e carregava consigo uma longa vara de aguilhão, utilizada para guiar os bois. Seu cabelo estava despenteado e desalinhado, como alguém que tivesse trabalhado no campo o dia inteiro. Vestia roupas feitas de cânhamo grosseiro, um tecido áspero e simples, próprio dos camponeses pobres. Além disso, seus pés estavam salpicados de lama, dando a impressão de que acabara de sair de uma lavoura.

Disfarçado dessa maneira, Māra aproximou-se do Abençoado. Ao chegar diante dele, sem qualquer cerimônia, dirigiu-lhe a palavra com uma pergunta aparentemente inocente e prática:
— Ei, contemplativo! Você viu os meus bois por aqui? Estou procurando por eles e gostaria de saber se passaram por este lugar.

O Abençoado, porém, não se deixou enganar pela aparência. Ele conhecia a verdadeira identidade de seu interlocutor. Em vez de responder diretamente sobre bois, ele indagou com profundidade:
— E quais são os seus bois, Maligno? De que bois exatamente você está falando?

Percebendo que sua identidade já havia sido descoberta, Māra abandonou o disfarce e revelou o sentido oculto de sua pergunta. Ele explicou que os “bois” a que se referia não eram animais comuns, mas sim os sentidos e os objetos dos sentidos — aquilo que ele considera como sendo de sua propriedade e domínio. Ele assim respondeu:

— Meus são o olho, contemplativo. As formas visíveis que podem ser vistas — cores, imagens, paisagens — também são minhas. Além disso, a esfera da consciência visual e o contato que ocorre entre o olho, as formas e a consciência — tudo isso pertence a mim. É meu domínio. Da mesma forma, meu é o ouvido e os sons; meu é o nariz e os odores; minha é a língua e os sabores; meu é o corpo e as sensações táteis. E, por fim, meu é o intelecto, contemplativo. As ideias, pensamentos e conceitos que surgem na mente também são meus. A esfera da consciência mental e o contato entre o intelecto, as ideias e a consciência — tudo isso está sob meu controle. Portanto, diga-me: para onde você pode ir para escapar de mim? Em que lugar você poderia se refugiar que não estivesse sob meu poder? Os seus sentidos e tudo o que eles percebem estão dentro do meu domínio. Não há fuga possível.

Diante dessa provocação, o Abençoado respondeu com uma sabedoria que transcende o domínio de Māra. Ele não negou que os sentidos e seus objetos estivessem, de fato, sob a influência do Apego e da Delusão que Māra representa. Porém, ele apontou para uma dimensão além disso. O Abençoado então disse:

— É verdade, Maligno, que o olho é teu, e que as formas e a consciência visual e o contato visual também estão dentro do teu alcance. Isso é certo. No entanto, existe um estado onde não há olho, nem formas, nem consciência visual, nem contato visual. Onde não há qualquer vestígio dos sentidos ou de seus objetos — onde tudo isso se extingue completamente. Nesse estado, Maligno, você não pode entrar. Ali você não tem poder, não tem domínio, não tem acesso. O mesmo se aplica ao ouvido e aos sons, ao nariz e aos odores, à língua e aos sabores, ao corpo e às sensações táteis.

E, por fim, o mesmo vale para o intelecto: é verdade que o intelecto é teu, que as ideias são tuas, e que a consciência mental e o contato mental também fazem parte do teu domínio. Contudo, onde não existe intelecto, onde não existem ideias, onde não há consciência Mental nem contato Mental — nesse estado de completa transcendência, Maligno, você não pode ir. Esse é o domínio do Desperto, a libertação além de todos os condicionamentos. Para lá você não tem acesso.

Assim, com essa resposta, o Abençoado mostrou que a verdadeira libertação consiste em ir além dos seis sentidos (Mente, tato, olfato, audição, visão e paladar) além dos objetos que eles percebem, além da consciência que deles surge — alcançando uma esfera onde o poder de Māra não atua. E foi dessa maneira que ele dissipou a tentativa de obscurecimento, mantendo a clareza do ensinamento sobre a Libertação.

Māra:
“Quanto àquilo que dizem ‘isto é Meu’, e àqueles que dizem ‘Meu’:
Se o teu intelecto estiver aí, preso a essas noções, não poderás escapar de mim.”

O Buda:
“Aquilo de que falam não é meu, e não sou um daqueles que assim falam.
Fica sabendo disto, ó Maligno: não verás sequer os meus rastros.”

Então, Māra, o Maligno — triste e abatido ao perceber: “O Abençoado me reconheceu; o Iluminado me conhece” — desapareceu dali na mesma hora.

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