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O sofrimento (dukkha) não é uma noção abstrata

Posted on 09/07/202609/07/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Guy Eugene Dubois

O sofrimento (dukkha) não é uma noção abstrata

Ele se revela no corpo e no coração — onde o medo se contrai e a vida se estreita em um pequeno e vulnerável “EU”.

Nessa experiência, o que o Buda chamou de Primeira Nobre Verdade torna-se visível: o fato simples e sem rodeios de que a existência, quando apropriada como “minha” ou “eu”, é inevitavelmente acompanhada de tensão, perda e insatisfação.

Contudo, essa experiência de dukkha não é um ponto final. É uma indicação. Quando permitimos que o sofrimento esteja presente com atenção cuidadosa, torna-se claro como ele surge do desejo (taṇhā) e do apego (upādāna), da busca por segurança, identidade e continuidade dentro daquilo que está fundamentalmente mudando.

Assim, a Segunda Nobre Verdade se desdobra: o sofrimento não se enraíza no mundo em si, mas na persistência em um senso de si contraído, estreitado pelo medo (bhaya).

E, no entanto, essa percepção carrega uma promessa silenciosa. Onde taṇhā afrouxa seu domínio e onde upādānacan relaxa, o sofrimento também se aquieta. Isso não é o desaparecimento da vida, mas o abandono da ficção da separação.

Aqui se toca a Terceira Nobre Verdade: a possibilidade de nirodha — a extinção do sofrimento — não por meio da aversão ou substituição, mas pelo fim do próprio apego. Este caminho não se desdobra pela força ou esforço, mas por um refinamento gradual do ver e do ser.

A Quarta Nobre Verdade, o Nobre Caminho Óctuplo, pode então ser compreendida como um canal de clareza, sintonia ética e quietude interior, dentro do qual esse desapego se aprofunda naturalmente. Não para se tornar outra pessoa, mas para repousar no que não é limitado.

Assim, dukkha se revela não um inimigo, mas um convite: um convite para sair da história do pequeno eu e descobrir que, quando o apego desaparece, nada e ninguém precisa permanecer separado.

Anurada Sutta (SN 22.86)

Ouvi que em certa ocasião o Abençoado estava próximo a Vesali, na Grande Floresta, no Salão com um pico na cumeeira. Naquela ocasião, o ven. Anuradha estava não muito distante do Abençoado numa cabana na floresta. Então, um grande número de errantes, membros de outra seita, foram até o ven. Anuradha e ao chegar eles se cumprimentaram. Depois da troca de saudações amigáveis e corteses, eles sentaram a um lado e disseram:

“Amigo Anuradha, o Tathagata – o homem supremo, o homem superlativo, que realizou a realização superlativa – ao ser descrito, ele é descrito de uma dessas quatro maneiras: o Tathagata existe após a morte; não existe após a morte; ambos, existe e não existe após a morte; nem existe, nem não existe após a morte.”

Quando isso foi dito, o venerável Anuradha disse para os errantes membros de outra seita, “Amigos, o Tathagata – o homem supremo, o homem superlativo, que realizou a realização superlativa – ao ser descrito, ele é descrito de uma maneira distinta dessas quatro: o Tathagata existe após a morte; não existe após a morte; ambos, existe e não existe após a morte; nem existe, nem não existe após a morte.”

Quando isso foi dito, os errantes membros de outra seita disseram para o ven. Anuradha, “Este bhikkhu é um novato, que não está na vida santa faz muito tempo; ou se for um bhikkhu sênior, ele deve ser tolo e incompetente.” Assim, os errantes de outra seita, tratando o ven. Anuradha como se ele fosse um novato ou um tolo, levantaram dos seus assentos e partiram.

Então, não muito tempo depois que os errantes de outra seita haviam partido, o seguinte pensamento ocorreu ao ven. Anuradha: “Se eu for novamente questionado por esses errantes de outra seita, como responderei de modo que fale de acordo com aquilo que foi dito pelo Abençoado, sem deturpá-lo com algo contrário aos fatos, explicando de acordo com o Dhamma, de tal modo que nada que dê margem à censura possa de forma legítima ser deduzido da minha declaração?”

Então, o ven. Anuradha foi até o Abençoado e depois de cumprimentá-lo sentou a um lado e disse: “Agora mesmo eu estava não muito distante do Abençoado numa cabana na floresta. Então, um grande número de errantes de outra seita vieram e…me disseram, ‘Amigo Anuradha, o Tathagata – o homem supremo, o homem superlativo, que realizou a realização superlativa – ao ser descrito, é descrito de uma dessas quatro maneiras: o Tathagata existe após a morte; não existe após a morte; ambos, existe e não existe após a morte; nem existe, nem não existe após a morte.’

“Quando isso foi dito, eu disse, ‘Amigos, o Tathagata – o homem supremo, o homem superlativo, que realizou a realização superlativa – ao ser descrito, é descrito de uma maneira distinta dessas quatro: o Tathagata existe após a morte; não existe após a morte; ambos, existe e não existe após a morte; nem existe, nem não existe após a morte.’

“Quando isso foi dito, os errantes de outra seita me disseram, ‘Este bhikkhu é um novato, que não está na vida santa faz muito tempo; ou se for um bhikkhu sênior, ele deve ser tolo e incompetente.” Assim, tratando-me como se eu fosse um novato ou um tolo, eles se levantaram dos seus assentos e partiram.

Então, não muito tempo depois que os errantes de outra seita haviam partido, o seguinte pensamento me ocorreu: “Se eu for novamente questionado por esses errantes de outra seita, como responderei de modo que fale de acordo com aquilo que foi dito pelo Abençoado, sem deturpá-lo com algo contrário aos fatos, explicando de acordo com o Dhamma, de tal modo que nada que dê margem à censura possa de forma legítima ser deduzido da minha declaração?”

“O que você pensa, Anuradha, a forma é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.

“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.

“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’? “Não, senhor.

“…a sensação é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… a percepção é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.
“… as formações volitivas são permanentes ou impermanentes?
“Impermanentes, senhor.
“O que você pensa, Anuradha, a consciência é permanente ou impermanente?
“Impermanente, senhor.

“E aquilo que é impermanente é sofrimento ou felicidade?
“Sofrimento, senhor.

“E é adequado considerar o que é impermanente, sofrimento, sujeito a mudanças como: ‘Isso é meu. Isso sou eu. Isso é o meu eu’?
“Não, senhor.
“O que você pensa, você considera a forma como sendo o Tathagata?
“Não, senhor.
“Você considera a sensação como sendo o Tathagata?
“Não, senhor.
“Você considera a percepção como sendo o Tathagata
“Não, senhor.
“Você considera as formações volitivas como sendo o Tathagata?
“Não, senhor.
“Você considera a consciência como sendo o Tathagata?
“Não, senhor.

“O que você pensa, você considera que o Tathagata está na forma? … Separado da forma? … Na sensação? … Separado da sensação? … Na percepção? … Separado da percepção? … Nas formações volitivas? … Separado das formações volitivas? … Na consciência? … Separado da consciência?”

“Não, senhor.

“O que você pensa, você considera que o Tathagata é o conjunto da forma-sensação-percepção-formações volitivas-consciência?
“Não, senhor.

“Você considera que o Tathagata não tem forma, não tem sensação, não tem percepção, não tem formações volitivas, não tem consciência?
“Não, senhor.

“Mas, Anuradha, quando você não consegue determinar o Tathagata como real e presente nesta mesma vida, é apropriado que você declare, ‘Amigos, o Tathagata – o homem supremo, o homem superlativo, que realizou a realização superlativa – ao ser descrito, é descrito de uma maneira distinta dessas quatro: o Tathagata existe após a morte; não existe após a morte; ambos, existe e não existe após a morte; nem existe, nem não existe após a morte.’?”

“Não, senhor.”
“Muito bem, Anuradha. Tanto antes, como agora, eu declaro somente o sofrimento e a cessação do sofrimento.”

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