Ajahn Munindo
Dhammapada 20, 49, 143, 188, 189, 217, 341
(Verso 20) Por pouco que recite os textos sagrados, se o homem colocar o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e espírito livre, não se apegando a nada deste ou de qualquer outro mundo – ele realmente participa das bênçãos de uma vida santa.
(Verso 20) Ainda que recite pouco os textos sagrados, aquele que atua de acordo com o ensinamento (Dhamma), que abandona a luxúria, o ódio e a ignorância, que sabe verdadeiramente e tem uma Mente liberta, que não se apega a este mundo nem ao próximo, comungará dos frutos da vida santa. (Ajahn Munindo)
Comentários – Não importa que não saibamos tudo o que existe para saber acerca de Dhamma. O que conta é a forma como aplicamos os ensinamentos. Estamos vivendo integralmente de acordo com tudo o que aprendemos? Esta é a pergunta mais importante para fazermos a nós próprios do que ‘Quando poderei fazer outro retiro?’ ou ‘Se eu conseguisse estudar um pouco mais…’ Estas são perguntas válidas se nos levarem a libertarmo-nos dos nossos apegos, mas podem ser contraproducentes se forem uma mera expressão do nosso hábito de querer sempre ter ou ser algo mais. O esforço árduo para ter compreensões mais profundas podeser um obstáculo ao progresso se, na verdade, a necessidade for uma sutil mudança de direção da nossa atenção, de forma a estarmos mais presentes. Apenas um instante de realização desta verdade e experienciaremos por nós próprios o benefício de percorrer o Caminho. (Ajahn Munindo)
(Verso 49) Assim como a abelha recolhe o mel da flor sem ferir sua cor ou fragrância, assim vai o sábio (pindapata) na sua ronda a recolher comida na vila.
(Verso 49) Tal com as abelhas ao recolherem o néctar não danificam ou alteram a cor e a fragrância da flor, também assim o sábio se move na aldeia.
Comentários – O mundo é a nossa aldeia. Conseguimo-nos mover pelo mundo fora sem perturbar a sua beleza?
Sábios e renunciantes talvez vivam da oferenda de almas mas a maior parte dos seres humanos precisam de usar dinheiro. Não existe nada de inerentemente errado acerca do dinheiro. É um símbolo para a energia através da qual interagimos no nosso mundo. As diretrizes do Buddha acerca do cultivo do Modo de Vida Correto apontam para a não-violência e consideração no que diz respeito à utilização desta energia.
Quando nos esquecemos disso focamo-nos demasiado em quão bom será quando alcançarmos aquilo que queremos, sem avaliarmos o que fazemos para o alcançar. É necessário cuidado e atenção quer no que fazemos quer na maneira como o fazemos. (Ajahn Munindo)
(Verso 143) Raro é o um homem neste mundo que, comedido por modéstia, evita qualquer censura, como um cavalo puro-sangue evita o chicote.
(Verso 143) Raros são aqueles que através da modéstia e da disciplina não dão azo a reprimendas, tal cavalo que, devidamente treinado, evita ser chicoteado. (Ajahn Munindo)
Comentários – Será possível ter demasiada modéstia? É possível ter o tipo errado de modéstia quando, por exemplo, o refreio de uma avareza óbvia é ser manipulativo. Modéstia, frugalidade e disciplina. Tais palavras podem fazer-nos sentir pouco à vontade. Contudo elas contêm princípios intemporais. Quando somos verdadeiramente modestos procuramos as coisas na ‘medida e proporção corretas’. Estamos atentos à diferença entre tentar ser ‘bom o suficiente’ e ser demasiado tímido para não dar nas vistas. Com a devida disciplina encontramo-nos focados na tarefa a braços sem perder a sensibilidade. Quando já somos suficientemente experientes em termos de disciplina sabemos dizer ‘NÃO’ quando necessário, não através de julgamento ou meras preferências pessoais, mas através de diligência. (Ajahn Munindo)
(Verso 188) Exclusivamente levados pelo medo, os homens procuram refúgio em muitos lugares – montes, florestas, árvores sagradas e santuários.
(Verso 189) Esse de fato não é o refúgio seguro; não é o refúgio supremo. Não é recorrendo a tal refúgio que se livra de todo o sofrimento.
(Verso 188-189) Quando amedrontados, muitos são os sítios que os seres buscam como refúgio: montanhas, florestas, parque, jardins, árvores e lugares sagrados.
Mas nenhum destes refúgios é seguro, nenhum destes refúgios é supremo, pois quando o homem chega a tal refúgio não se liberta do sofrimento.
Comentários – É difícil sentir medo sem pensar que algo está a correr mal. Reagimos impulsivamente quando julgamos os outros ou a nós próprios, numa tentativa de escapar à dor do sofrimento. Não funciona, assim como também não funciona fugir para a floresta. Até mesmo os locais sagrados estão condenados a desapontar-nos se a eles nos dirigirmos motivados por um desejo de fuga. Contudo, se tomarmos refúgio no Dhamma, pode desencadear-se o interesse em compreender o medo e em aprender com ele. Será que podemos experimentar a sensação de medo sem ficarmos amedrontados? O medo continua a ser medo mas é reconhecido através de uma consciência expandida, menos encarquilhada e menos ameaçada. Podemos inclusive começar a perceber que também o medo ‘é o que é’. Um reconhecimento sem julgamento e íntegro, em corpo e em mente, da condição do medo, aqui e agora, pode transformar a nossa dor em liberdade. A vontade de reconhecermos o ponto em que nos encontramos é o caminho. (Ajahn Munindo)
(Verso 217) As pessoas prezam aquele que encarna a virtude e o discernimento, que tem princípios, que realizou a Verdade, e que faz o que deve fazer.
(Verso 217) Aquele que é virtuoso e que realizou a verdade, que se estabeleceu no Dhamma, que transmite a verdade e que executa os seus deveres, é naturalmente amado pelos demais. (Ajahn Munindo)
Comentários – Quando as ações do Corpo e da Mente são expressões de paz interior, as nossas relações tornam-se mais gratificantes. Não se trata de simplesmente seguirmos o desejo de sermos apreciados ou qualquer outra gratificação dos desejos que achamos que trará felicidade duradoura. Precisamos de compreender onde jazem as verdadeiras origens de tal contentamento. Quando nos agarramos demasiado a desejos, mesmo que estes sejam beneméritos, isso causará descontentamento. Fixarmo-nos em determinado desejo é o problema. Quando vemos claramente os nossos hábitos de apego, nesse mesmo instante também nos apercebemos que não temos de nos apegar – descobrimos a saída.
(Verso 341) Fluindo (vindo de todos os objetos) e regados pelo anseio, os sentimentos de prazer despontam nos seres. Presos aos prazeres e buscando o gozo, estes homens são vítimas do nascimento e da morte.
(Verso 341) Por natureza os seres experienciam prazer. Mas quando este é poluído pelo apego, a resistência em abandoná-lo cria frustração e um tedioso sofrimento se seguirá. (Ajahn Munindo)
Comentários – Com a correta qualidade de Atenção no momento certo, conseguimos perceber porquê e de que forma é que o fato de nos apegarmos à alegria e à dor, perpetua o sofrimento. Tornamo-nos interessados em como experienciar prazer sem o tornar pessoal ou um ‘EU’ que se está a deleitar. Uma reflexão cuidadosa mostra-nos que quando o apego não faz parte da experiência, a felicidade não diminui; na verdade ela é potencializada. Quando somos corretamente conscientes, a inteligência consegue funcionar ao serviço da compreensão. Quando percebemos que agarrarmo-nos ao prazer estraga a sua beleza, emerge uma serena maneira de estar. (Ajahn Munindo)

