Thanissaro Bhikkhu
“Quando você medita, está praticando como morrer…”
“Há uma bela passagem no Cânon onde um homem está muito, muito doente, e sua esposa teme que ele vá morrer. Então ela vai até ele e lhe diz: “Veja, não se preocupe comigo; não se preocupe com as crianças. Eu tenho habilidades suficientes para cuidar de mim e delas. Continuarei praticando o Dhamma.” E seu sentido, repetido inúmeras vezes, é que é ruim se preocupar no momento da morte.
Afinal, a mente começa a se apegar às suas preocupações e então renasce em um desses estados intermediários, aqueles estados em que você está obcecado por algo e não consegue se desapegar. Em outras palavras, você fica fixado nisso. Você continua pensando nisso. Você precisa perceber, nesse ponto, que precisa se desapegar de todas essas responsabilidades. Você não pode mais se agarrar. Afinal, se você se agarra, você se torna um fantasma e passa a assombrar as pessoas com quem se preocupa. É claro que isso os assusta. Você não estará ajudando ninguém.
Você precisa entender que muitos desses pensamentos, mesmo que sejam responsáveis e convincentes, têm seu tempo e lugar. Quando esse tempo e lugar deixam de existir, você precisa aprender a desapegar. É por isso que meditamos e praticamos o desapego diariamente, ou seja, paramos de pensar nessas coisas. Você precisa morrer para o mundo.
Há aquela história que já contei antes sobre uma mulher que foi visitar Ajahn Fuang. Ela ia passar duas semanas no mosteiro, mas no segundo dia foi até ele e disse: “Preciso voltar para casa”. “Por quê?”, ele perguntou. “Bem, estou preocupada com meu marido e meus filhos. Não sei o que eles vão fazer, quem vai preparar a comida para eles, como eles vão se virar.” Ele disse: “Veja, diga a si mesma que você morreu. Eles vão ter que se virar.”
Então, quando você Medita, está praticando como morrer. Você morre para o mundo enquanto está sentado aqui. Todas as suas outras responsabilidades, você simplesmente as deixa de lado. Porque, afinal, quem sabe, aquele terremoto sobre o qual tanto falam pode acontecer antes de você chegar em casa. Antes do fim da sessão de meditação, o prédio pode desabar sobre nós, ruir, nos matar a todos. Seu corpo pode não aguentar a próxima hora. Nunca se sabe. A morte não vem com um aviso prévio, dizendo “X dias”, “às X horas”. Então você precisa estar sempre pronto para partir, mesmo sem aviso prévio.
Portanto, esta é uma habilidade importante: aprender a parar de pensar nas coisas. Se você for pensar em algo, pense em algo produtivo: este estado de espírito focado no momento presente, simplesmente estando consciente, no momento presente, do que está acontecendo no corpo, do que está acontecendo na mente. Apenas certifique-se de que a mente não siga por caminhos de pensamento improdutivos. No mínimo, certifique-se de que permaneça centrado e alerta no momento presente. Não precisa se preocupar com mais nada agora. Aprenda a desenvolver isso como seu modo padrão. Essa é uma habilidade muito importante.”
Samyutta Nikaya XII.64 – Atthi Raga Sutta – Quando existe a Cobiça
Em Savathi. “Existem esses quatro tipos de alimentos para a manutenção dos seres que já nasceram e para o sustento daqueles que estão em busca de um nascimento. Quais são os quatro? O alimento comida, grosseira ou sutil, o contato como o segundo, a volição mental como o terceiro e a consciência como o quarto. Esses são os quatro tipos de alimentos para a manutenção dos seres que nasceram e para o sustento daqueles que estão buscando o nascimento.
“Quando existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento comida, a consciência ali se estabelece e expande. Quando a consciência se estabelece e expande, a mentalidade-materialidade (nome e forma) é estabelecida. Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) é estabelecida, ocorre o crescimento das formações volitivas. Quando ocorre o crescimento das formações volitivas, ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro, há um futuro nascimento, envelhecimento e morte, juntamente, eu lhes digo, com tristeza, angústia e desespero.
“Quando existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento contato…
“Quando existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento volição mental…
“Como quando existe pigmento, laca, corante auricolor, índigo, carmesim – um pintor pintaria o retrato de uma mulher ou de um homem, completo em todas as suas partes, em um painel ou parede bem polida, ou num pedaço de tela; da mesma forma, quando existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento comida … contato … volição mental … consciência, a consciência ali se estabelece. Quando a consciência se estabelece, a mentalidade-materialidade (nome e forma) é estabelecida. Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) é estabelecida, ocorre o crescimento das formações volitivas. Quando ocorre o crescimento das formações volitivas, ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro, há um futuro nascimento, envelhecimento e morte, juntamente, eu lhes digo, com tristeza, angústia e desespero.
“Quando não existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento comida, então a consciência ali não se estabelece ou expande. Quando a consciência não se estabelece ou expande, a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida. Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida, não ocorre o crescimento das formações volitivas. Quando não ocorre o crescimento das formações volitivas, não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro. Quando não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro, não há um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim, eu lhes digo, não há tristeza, angústia e desespero.
“Quando não existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento contato…
“Quando não existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento volição mental…
“Quando não existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento consciência, então a consciência ali não se estabelece. Quando a consciência não se estabelece ou expande, a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida. Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida, não ocorre o crescimento das formações volitivas. Quando não ocorre o crescimento das formações volitivas, não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro. Quando não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro, não há um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim, eu lhes digo, não há tristeza, angústia e desespero.
“Como se houvesse uma casa coberta por um telhado, ou um salão coberto por um telhado com janelas na face norte, sul ou no leste. Quando o sol nascesse e um raio entrasse pela janela onde ele pousaria?”
“Na parede do lado oeste, senhor.”
“E se não houvesse uma parede do lado oeste, onde pousaria?”
“No solo, senhor.”
“E se não houvesse solo, onde pousaria?”
“Na água, senhor.”
“E se não houvesse água, onde pousaria?”
“Não pousaria, senhor.”
“Da mesma forma, quando não existe cobiça, prazer e desejo pelo alimento comida … contato … volição mental … consciência, então a consciência ali não se estabelece. Quando a consciência não se estabelece, a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida. Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) não é estabelecida, não ocorrerá o crescimento das formações volitivas. Quando não ocorre o crescimento das formações volitivas, não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro. Quando não ocorre a produção de um renovado ser/existir no futuro, não há um futuro nascimento, envelhecimento e morte. Assim, eu lhes digo, não haverá tristeza, angústia e desespero.

