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Imagem gerada por IA.

Gotas do Dhammapada

Posted on 02/06/202602/06/2026 by Edmir Ribeiro Terra

Dhamma

O Dhammapada é o texto mais conhecido e o mais respeitado do Tipitaka Pāli, as Sagradas Escrituras do Budismo Theravada. A obra está incluída no Khuddaka Nikaya (“Colecção Menor”) do Sutta Pitaka, mas a popularidade que ganhou elevou-a para as fileiras de um clássico do mundo religioso, muito acima do simples lugar que ocupa nas escrituras. Composta em antigo idioma pāli, esta sucinta antologia de versos constitui um compêndio perfeito de ensinamentos do Buddha, compreendendo em sua dissertação todos os princípios essenciais elaborados ao longo dos quarenta e tantos volumes do Cânone Pāli.

De acordo com a Tradição Budista Theravada, cada verso do Dhammapada foi originalmente proferido pelo Buddha como respostas a episódios específicos. Relatos destes, juntamente com a exegese dos versos são preservados no comentário clássico da obra, compilados pelo grande erudito Bhadantacariya Buddhaghosa no século V a.C., assente em textos que remontam a tempos muito antigos. O conteúdo dos versos, no entanto, transcende as circunstâncias limitadas e particulares da sua origem, alcançando através dos tempos, vários tipos de pessoas em diversas situações da vida.

Para o simples e humilde, o Dhammapada é um bom conselheiro; para o exigente intelectual, os ensinamentos claros e directos inspiram respeito e reflexão; para aquele que busca com sinceridade, funciona como uma fonte perene de inspiração e instrução prática. As compreensões que brilharam no coração do Buddha, cristalizaram-se nestes versos luminosos de pura sabedoria. Como expressões profundas de espiritualidade, cada verso é uma directriz para um viver correcto. O Buddha de uma forma inequívoca salientou que quem praticasse sinceramente os ensinamentos encontrados no Dhammapada, provaria da felicidade da libertação.

Devido à sua profunda importância, o Dhammapada tem sido traduzido em várias línguas. Só em inglês há várias traduções, incluindo edições de eruditos como Max Muller e Dr. S. Radhakrishnan. No entanto, quando apresentado a partir de uma perspectiva de referência não-budista, os ensinamentos do Buddha, inevitavelmente, sofrem algumas distorções. Isso, na verdade, já aconteceu com a nossa antologia: uma selecção infeliz de versões tem sugerido por vezes interpretações incorrectas, a par de alguns comentários críticos. A presente tradução foi escrita, originalmente, no final dos anos de 1950.

Alguns anos antes, consultada uma publicação do Dhammapada em língua inglesa, observou-se que as interpretações eram demasiado livres e imprecisas ou então muito académicas e, portanto, houve a necessidade de fazer uma nova tradução, evitando estes dois extremos, no sentido de servir um propósito valioso. O resultado final deste projecto, aqui apresentado, é uma humilde tentativa de um praticante seguidor do Buddha transmitir o espírito e conteúdo, bem como a linguagem e estilo, dos ensinamentos originais. A seguir alguns versos avulsos, comentados por Ajahn Munindo (tradição das florestas).

Dhammapada VERSOS 1, 76, 118, 122, 348, 387

(Verso 1) A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o seu criador, pois são todos forjados pela mente. Se uma pessoa fala ou age com uma mente impura, o sofrimento segue-a como a roda que segue o pé do boi.

(Verso 1) A mente é o precursor de todos os estados de ânimo.É ela que lidera o caminho. Assim como a roda do carro de bois segue a pegada do animal que a arrasta, também o sofrimento se seguirá quando falamos ou agimos impulsivamente, como consequência de um estado mental impuro. (versão Ajahn Munindo)

(Comentário)Pensar demasiado pode complicar a prática espiritual; pensar de menos pode restringir-nos. Aqui é-nos dado um exemplo de pensamento sabiamente direccionado. Ajuda-nos a ver que não somos uma pobre vítima das circunstâncias e a compreender que a intenção por detrás das nossas acções físicas e verbais determina a nossa maneira de ser. Isto oferecenos a possibilidade deempreendermos uma verdadeira mudança. Aceitando este ensinamento como o nosso campo de investigação, apreciamos o valor de praticar coibições conscientes e adquirimos uma confiança renovada e novas capacidades. A nossa mente-coração lidera o caminho.

(Verso 76) Se alguém encontrar um homem que aponta as falhas e que reprova, que pessoa tão sábia e sagaz seja seguida como um guia para o tesouro escondido. Cultivar tal associação é sempre melhor e nunca pior.

(Verso 76) Somente bênçãos poderão surgir quando procuramos a companhia de pessoas sábias e com discernimento, que oferecem conselhos e críticas, de forma inteligente, como que nos guiando a um tesouro escondido. (versão Ajahn Munindo)

(Comentário) Existem duas formas de abordarmos a nossa prática: uma é assumir que precisamos de obter algo mais; a outra é assumir que temos aquilo que precisamos mas que não conseguimos encontrá-lo. Neste verso o Buddha oferece-nos uma imagem de um tesouro escondido à espera de ser encontrado. Não o encontraremos fora de nós, mas sim dentro dos nossos próprios corações.
Não reconhecemos este tesouro porque temos demasiado apego e demasiada resistência. É uma profunda bênção encontrar alguém sábio, com discernimento, amadurecido pela compaixão, que esteja disposto a guiar-nos em direcção à libertação dos hábitos que nos obstruem.
Eles podem guiar-nos através dos lamacentos pânta- nos da dúvida ou por cima das assustadoras montanhas do desejo, mas apenas bênçãos podem surgir se honrarmos o seu exemplo e seguirmos a viagem até ao fim.

(Verso 118) Se uma pessoa fizer o bem, que o faça repetidamente. Que aí encontre prazer, pois abençoada é a acumulação do bem.

(Verso 118) Tendo praticado um ato virtuoso é bom repeti-lo. Saboreiam o prazer dessa memória. O fruto da virtude é o contentamento.(versão Ajahn Munindo)

(Comentário) O Dhamma encoraja-nos a trazer à consciência a memória de boas ações que tenhamos realizado através do corpo, da fala ou da mente e de nos deleitarmos no sentimento de contentamento que emerge com essa memória. Se fizermos isto com consciência não corremos o risco de nos tornarmos demasiado satisfeitos com nós próprios. Podemos da mesma forma contemplar os nossos erros e falhas, sem perder de vista a nossa virtude, se tivermos desenvolvido a qualidade de reflectir sabiamente.

O fato de sermos capazes de observar os nossos hábitos demonstra que somos muito mais que esses hábitos. O que é aquilo que observa? Este é o nosso refúgio – a consciência – o caminho para sair do sofrimento. Com esta mesma consciência podemos livremente deleitarmo-nos na alegria de uma recordação benéfica. E que alívio descobrir que podemos fazer erros e aprender com eles.

(Verso 122) Que não se pense levianamente acerca do bem, dizendo: “A mim ele não me tocará.” A água que cai em gotas enche um cântaro. Da mesma forma, o sábio, pouco a pouco, enche-se de bem.

(Verso 122) Não ignoreis o efeito da ação correcta dizendo «Isto não dará em nada». Assim como pela gradual queda de gotas de chuva o jarro de água se enche, também a seu tempo, os sábios tornam-se repletos de virtude. (versão Ajahn Munindo)

‘Maior é melhor’, ‘Quanto mais melhor’. Pouco a pouco, sabiamente, podemos começar a questionar este tipo de percepções. Confiem que cada pequeno momento de vigilância conta. Cada pequeno esforço para nos lembrarmos de voltar ao nosso centro, com uma consciência livre de julgamentos, deforma a recomeçar,faz a diferença. Tais esforços nunca são desperdiçados. Um dia descobrimos que já não ficamos impressionados por aquilo que anteriormente nos prendia. Em vez de reagirmos a algo que no passado nos aborreceria, libertamo-nos. A sabedoria conhece o caminho do verdadeiro bem.

(Verso 348) Deixa o passado, deixa o futuro, deixa o presente, e passa para a margem mais distante da existência. Com a mente plenamente livre, não regressarás jamais ao nascimento e à morte.

(Verso 348) Abram mão daquilo que está por vir, abram mão daquilo que já passou e abram mão daquilo que está entre ambos. Para o coração liberto não mais haverá morte e nascimento. (versão Ajahn Munindo)

Podemos facilmente perdermo-nos em pensamentos sobre o futuro. Podemos confortavelmente permanecer nas memórias do passado e rapidamente nos perdemos nas experiências do momento presente. Quando nos perdemos, sofremos. Mas o sofrimento não é a realidade última: existemcausasparaosofrimentoeexistealibertaçãodestascausas. Alcançar a liberdade requer que estejamos dispostos a abrir mão das circunstâncias que nos são conhecidas. Ouvimos a instrução do ‘abrir mão’ e pode parecer que nos está a ser pedido para nos livrarmos de algo ou que estamos errados por ser da maneira que somos. Mas se reconhecermos o poder da verdadeira consciência, apercebemo-nos que o abrir mão simplesmente acontece. Neste verso, o Buddha vai ao nosso encontro na realidade do nosso sofrimento e leva-nos à porta aberta para fora dele.

(Verso 387) Aquele que não tem qualquer apego de Mente e Corpo, que não se lamenta por aquilo que não tem – é verdadeiramente chamado de um monge.

(Verso 387) O sol brilha de dia, a lua brilha de noite. O guerreiro brilha na sua armadura. O homem santo (monge) brilha em meditação. O Buddha, porém, quer seja dia ou noite, brilha em glorioso esplendor. (versão Ajahn Munindo)

Quando existe plena atenção bem estabelecida, existe beleza, clareza e a possibilidade de aprofundar o entendimento. Quando existe uma constante vigilância, existe uma constante clareza. Durante todo o dia e toda a noite o nosso coração consciente brilha em glorioso esplendor.

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