Ajahn Golf
Devoto: Ao cultivar a Atenção Plena, precisamos encontrar um ponto específico para nos concentrarmos na respiração?
Ajahn Golf: Se nossa vida diária é agitada e muitos pensamentos, turbulências mentais e emoções surgem, devemos inspirar e expirar profunda e longamente, acompanhando o fluxo da respiração enquanto ela entra e sai do corpo. Mas em dias calmos, com menos atividade mental, podemos simplesmente escolher um ponto e concentrar nossa atenção ali.
Agora mesmo, orientei a todos a respirarem longa e profundamente. Isso foi para ajudar a trazer a atenção plena (sāti) de volta ao nosso corpo. Podemos começar treinando inspirando profundamente, deixando o ar entrar no corpo e depois expirar. Uma vez estabelecida a atenção plena, não há necessidade de continuar respirando profundamente. Basta concentrarmos nossa atenção em um único ponto. Deixe a respiração se estabilizar nesse ponto sem forçá-la; simplesmente mantenha a atenção ali e respire naturalmente.
Se, em alguns dias, muitos pensamentos surgirem e não conseguirmos controlá-los, podemos prender a respiração temporariamente. Quando prendemos a respiração, a mente teme a morte e, assim, retorna ao presente. Se você não acredita nisso, pode experimentar agora mesmo: feche os olhos e observe se a atenção plena (sāti) retorna à mente. Ao prender a respiração, a mente se acalma e não consegue pensar em mais nada. Este é apenas um meio hábil (upāya) para trazer a atenção plena de volta, mas não significa que você deva prender a respiração continuamente durante toda a meditação.
Isso é semelhante à prática de recitar silenciosamente “Buddho”. Essa prática não é encontrada no Tipiṭaka, nem foi ensinada diretamente pelo Buda. No entanto, recitar “Buddho” também é um método para acalmar a mente. Se simplesmente “sabemos” sem recitação, nossas formações mentais (saṅkhāra) podem facilmente desviar nossa atenção para outros pensamentos. Em vez de deixar a mente vagar, é melhor trazê-la de volta à recitação e permanecer com “Buddho”. Por que recitar “Buddho”, o nome do Buda? Porque é uma forma de recordar o Buda (Buddhānussati). Recordar o Buda é muito melhor do que recordar outras pessoas.
Imagine se você pensasse no seu marido. Se você repetisse “Marido, marido, marido” sem parar, encontraria paz? Provavelmente, ficaria mais irritada, e durante a meditação a mente se torna cada vez mais tensa. Portanto, devemos recordar o Buda, porque ele é o Conhecedor (ñāṇa), o Iluminado, o Alegre. Recordar essas qualidades é recordar as virtudes do Buda. Também se pode recordar algo relacionado às Três Joias (Tiratana), como “Namo Buddhāya”. Se nos apoiarmos apenas na respiração, é como ter apenas uma linha de apoio. Mas se a combinarmos com uma recitação, ela se torna duas linhas de apoio, tornando a atenção plena mais estável. Isso funciona como objeto de meditação. Embora esse método não esteja explicitamente registrado nas escrituras, se ele traz paz, é considerado algo bom.
Você já ouviu a história do rambutan? Havia uma criança de cinco anos que foi a um mosteiro. Hoje, ela ainda está viva e se tornou um monge sênior. Naquela época, ela foi com seus pais oferecer comida a Luang Pu Khao. Ela viu alguns rambutans e desejou muito comê-los. Seus pais disseram: “Você não pode comer ainda; primeiro precisa ser oferecido à Sangha. Se quiser comer, espere um pouco e apenas recite ‘rambutan’ mentalmente.” Então, a criança continuou recitando “rambutan” mentalmente. Quando a oferenda terminou, ela já havia entrado em estado meditativo profundo (jhāna). Mesmo depois de Luang Pu Khao terminar de comer, a criança ainda não havia saído de sua meditação.
Então, o “rambutan” é mencionado em algum lugar nas escrituras?
Isso demonstra que qualquer coisa pode funcionar como objeto de meditação quando a mente consegue repousar plenamente sobre ela. Naquele momento, a mente da criança ainda era pura, livre de pensamentos complexos e impurezas pesadas (kilesā). Contudo, como adultos, não devemos recordar alimentos dessa maneira, pois a saliva começará a fluir e o desejo (taṇhā) aumentará. Nossos objetos de meditação e palavras de recitação são simplesmente meios hábeis para trazer a mente à paz.
Uma vez que a mente esteja calma, ela pode progredir em direção a uma quietude mais profunda. Em última análise, o “sabor” da quietude (samādhi) é o mesmo, independentemente do método utilizado, ou seja, é a paz. Não precisamos nos comparar com os outros nem nos dividir em diferentes seitas. Simplesmente escolha o caminho que lhe permita praticar com facilidade e conforto.
Assim como quando estamos doentes, se tomarmos o remédio certo, a recuperação se torna mais fácil.
Se chegar o dia em que a mente estiver fraca, não há problema algum. Nesses momentos, devemos praticar a meditação da quietude (samatha). Deixe a mente se concentrar na respiração (ānāpānasati) e ela gradualmente se aquietará em paz (passaddhi).
Nos dias em que a mente se sentir leve, tranquila e livre de emoções intensas, quando nos sentirmos verdadeiramente preparados, poderemos então desenvolver a sabedoria (paññā).
Podemos tomar o Dhamma que aprendemos e contemplar que todos os fenômenos são impermanentes (anicca), sofrimento (dukkha) e não-EU (anattā). Eventualmente, a mente se saturará com essas verdades e veremos claramente o Dhamma como ele realmente é.
Desapegar – A razão pela qual não conseguimos nos desapegar é que o Dhamma ainda não está firmemente estabelecido em nossas mentes. Mesmo quando “conhecemos” esses ensinamentos, se nos falta atenção plena (sāti), torna-se difícil permanecermos presentes em nossas experiências.
Se, nesses momentos, pudermos aplicar sāti para cultivar a sabedoria (paññā), o Dhamma gradualmente entrará e se estabelecerá em nossa mente. Quando pudermos ver com clareza, com conhecimento e visão, as coisas como elas realmente são (yathābhūta-ñāṇadassana), a mente percebe a lei de causa e efeito (kamma). Então, naturalmente, ela se torna disposta a se desapegar.

