Editoria
Sobre o que se trata
Esta passagem prepara o terreno para um dos discursos mais importantes do Buda. Descreve uma jornada onde o Buda e seus monges são seguidos por dois viajantes — um mestre e seu aluno — que estão tendo uma acalorada discussão sobre se o Buda, seus ensinamentos e sua comunidade merecem elogios ou críticas. Essa abertura cria a situação dramática que leva ao ensinamento do Buda.
O texto diz:
“Assim ouvi dizer: Em certa ocasião, o Abençoado viajava pela estrada entre Rājagaha e Nālandā com uma grande comunidade de monges, cerca de quinhentos monges. O andarilho Suppiya também viajava pela estrada entre Rājagaha e Nālandā com seu discípulo, o jovem brâmane Brahmadatta. Ali, o andarilho Suppiya falou de muitas maneiras depreciando o Buda, depreciando o Ensinamento e depreciando a comunidade; mas o discípulo de Suppiya, o jovem brâmane Brahmadatta, falou de muitas maneiras elogiando o Buda, o Ensinamento e a comunidade. Assim, esses dois, o mestre e o discípulo, falando em direta contradição um com o outro, seguiam de perto o Abençoado e a comunidade de monges.“
Entendendo este ensinamento – A fórmula de abertura
O texto começa com “Assim ouvi falar” — esta é a forma padrão como todos os discursos do Cânon Pāli começam. Essas palavras foram proferidas pelo Venerável Ānanda, assistente pessoal do Buda por vinte e cinco anos, que memorizou todos os ensinamentos que ouviu. O comentário explica que, ao dizer isso, Ānanda demonstra que não está alegando ter inventado esses ensinamentos. Ele está simplesmente relatando o que recebeu diretamente do Buda. Essa frase estabelece autenticidade e gera confiança — Ānanda está dizendo: “Isso veio diretamente da boca do próprio Buda, não da minha imaginação.”
O comentário observa que Ānanda foi elogiado pelo próprio Buda como o monge mais destacado em conhecimento, memória, resolução e atenção pessoal. Ao usar essa frase, Ānanda dissipa a dúvida e gera fé nos ouvintes.
O Tempo e o Lugar
O texto diz “Em uma ocasião” — essa frase indica um momento específico sem mencionar o ano, mês ou dia exato. O comentário explica que, embora Ānanda soubesse precisamente quando cada discurso foi proferido, especificar “em tal ano, em tal estação, em tal dia” tornaria os ensinamentos difíceis de memorizar e recitar. Assim, esta frase simples abrange todas essas informações de forma elegante.
O texto diz que “o Abençoado estava viajando pela estrada entre Rājagaha e Nālandā” — duas cidades importantes da Índia antiga. Rājagaha (atual Rajgir) era a capital do reino de Magadha, cercada por cinco colinas e lar de muitos mosteiros. Nālandā mais tarde se tornaria o local da famosa universidade budista. A distância entre elas era de cerca de uma yojana (aproximadamente 11 a 13 quilômetros), o que era considerado uma “longa jornada” na época do Buda.
O comentário fornece o contexto: o Buda estava hospedado em um dos dezoito grandes mosteiros ao redor de Rājagaha. Naquela manhã, após atender às suas necessidades físicas, ele foi pedir esmolas na cidade com seus monges. Depois da refeição, pediu aos monges que recolhessem suas tigelas e vestes, anunciou: “Iremos a Nāḷanda” e partiu por esta estrada.
O Buda e sua comunidade
O texto diz “junto com uma grande comunidade de monges, cerca de quinhentos monges” — o comentário explica que “grande” se aplica de duas maneiras: grande em qualidade (porque esses monges possuíam virtudes como contentamento, reclusão e disciplina moral) e grande em número (quinhentos). Esses não eram monges comuns — eram praticantes realizados, muitos deles iluminados.
O comentário pinta um quadro vívido dessa procissão: O corpo do Buda irradiava raios de seis cores que se estendiam por oitenta braços em todas as direções, fazendo com que o caminho na floresta parecesse salpicado de joias, ou como um pano dourado estendido, ou como o céu repleto de relâmpagos e estrelas. Seu corpo era adornado com as trinta e duas marcas de um grande ser, superando até mesmo a glória dos monarcas universais, do rei Sakka dos deuses e dos grandes Brahmās combinados.
Os monges que o seguiam eram descritos como “poucos em desejos, contentes, reclusos, não socializando, admoestadores, repreensores do mal, oradores, pacientes com as palavras, realizados em virtude, concentração, sabedoria, libertação e conhecimento e visão da libertação”. Naquele dia em particular, estavam presentes principalmente os oitenta grandes anciãos, vestindo túnicas cor de cinza sobre um ombro, carregando bengalas, parecendo elefantes-touro bem blindados — livres de impurezas, seus nós desfeitos, seus grilhões cortados.
O Andarilho Suppiya
O texto diz: “O andarilho Suppiya também viajava pela estrada” — a palavra “também” indica que ele fazia o mesmo que o Buda, viajando pela mesma estrada. O comentário identifica Suppiya como um “andarilho coberto” (channaparibbājaka), um Discípulo de Sañjaya, um dos seis famosos mestres não budistas daquela época.
O comentário explica que Suppiya também estava hospedado em um parque para viajantes perto de Rājagaha. Naquela mesma manhã, ele havia ido pedir esmolas com seus seguidores e, depois de comer, anunciou que iria a Nāḷanda — sem saber que o Buda estava seguindo o mesmo caminho. Se soubesse, não o teria seguido.
Mas, enquanto caminhava, olhou para cima e viu o Buda, resplandecente com a majestade do Buda, “como um pico dourado em movimento envolto em um manto vermelho”. Então, Suppiya olhou para seu próprio grupo de seguidores: carregavam vários itens pendurados em varas de bambu — sacos de farinha, penas de pavão, potes de barro, recipientes de água — uma multidão desorganizada e tagarela, “desagradável e desagradável de se ver”.
Ver esse contraste encheu Suppiya de arrependimento e ressentimento. O comentário explica dois motivos para sua hostilidade: Primeiro, sempre que um Buda aparece no mundo, outros mestres perdem suas oferendas e respeito — como vaga-lumes que perdem seu brilho ao nascer do sol. Segundo, quando Upatissa e Kolita (que se tornaram os principais discípulos do Buda, Sāriputta e Moggallāna) deixaram o grupo de Sañjaya para segui-lo, toda a comunidade de Sañjaya se desfez. Devido a essas perdas de apoio material e seguidores, Suppiya nutria constantemente inveja do Buda.
A Crítica
O texto diz: “O andarilho Suppiya falou de muitas maneiras depreciando o Buda, depreciando o Ensinamento, depreciando a Comunidade” — o comentário dá exemplos do que Suppiya poderia ter dito:
Sobre o Buda: “O asceta Gotama não tem conduta adequada para com os mais velhos, por isso é insípido, inútil. Ele ensina a inação, a aniquilação. Ele é repugnante, um disciplinador, um asceta, tímido. O asceta Gotama não possui estados sobre-humanos, nenhuma distinção de nobre conhecimento e visão. Ele ensina uma doutrina elaborada pelo raciocínio, seguindo sua própria investigação, sua própria inspiração. Ele não é onisciente, não conhece o mundo, não é supremo, não é a pessoa mais importante.”
Sobre o Ensinamento: “O ensinamento do asceta Gotama é mal proclamado, mal compreendido, não conduz à paz, não contribui para a paz.”
Sobre a Comunidade: “A comunidade de discípulos do asceta Gotama pratica de forma errada, pratica de maneira desonesta, pratica o caminho contrário, o caminho não-conformista, o caminho que se conforma ao não-Dhamma.”
O comentário observa que Suppiya estava “afirmando o que não era uma razão como se fosse uma razão” — em outras palavras, fazendo acusações infundadas.
A Resposta do Aluno
O texto diz: “mas Suppiya, o discípulo do andarilho, o jovem brâmane Brahmadatta, falou de muitas maneiras em louvor ao Buda, em louvor ao Ensinamento, em louvor à Comunidade” — a palavra “māṇava” (jovem) indica que Brahmadatta era um jovem, um estudante que vivia perto de seu mestre.
O comentário revela o sábio raciocínio de Brahmadatta: “Meu mestre está tocando o que não deve ser tocado, pisando no que não deve ser pisado. Ele é como alguém que engole fogo, empunha a lâmina de uma espada com as mãos nuas, tenta partir o Monte Sineru com o punho, brinca com dentes de serra, agarra um elefante enfurecido com as mãos. Ao falar mal das Três Joias, que merecem apenas louvor, ele encontrará a ruína e o desastre.”
Brahmadatta refletiu ainda: “Quando um mestre caminha sobre esterco, fogo, espinhos ou uma cobra negra, quando sobe em uma estaca, come veneno mortal, cai em água fervente e cáustica ou despenca no inferno, um aluno não deve seguir esse exemplo. Os seres são donos de seus atos; eles vão a destinos de acordo com suas próprias ações. Um pai não se guia pelos atos de um filho, nem um filho pelos de um pai. Um mestre não se guia pelos atos de um aluno, nem um aluno pelos de um mestre.”
Ele concluiu: “Meu mestre critica as Três Joias, mas insultar as nobres é muito repreensível.” Assim, “emergindo sabiamente” da visão errônea de seu mestre, “desprezando a doutrina de seu mestre” e “citando o que era de fato uma razão como razão”, ele começou a elogiar as Três Joias — “como convém a um jovem sábio de boa família”.
A Contradição Direta
O texto diz: “Assim, estes dois, mestre e aluno, falando em direta contradição um com o outro” — a expressão em páli “ujuvipaccanīkavādā” significa que eles falaram em “oposição direta”, sem qualquer concessão. O comentário ilustra isso vividamente: Quando o mestre criticava, o aluno elogiava. Então o mestre criticava novamente, e o aluno elogiava novamente.
O comentário compara isso ao mestre martelando uma estaca de madeira venenosa em uma tábua, enquanto o aluno a removia repetidamente com uma estaca de ouro, prata e joias. Eles iam e vinham, o professor criticando, o aluno elogiando.
Seguindo Atrás
O texto diz “seguiram de perto o Abençoado e a Comunidade de monges” — eles mantinham os olhos fixos no Buda e em seus monges, acompanhando seus movimentos, caminhando atrás deles sem perdê-los de vista. Isso cria a situação dramática: o Buda e sua pacífica comunidade… Seguindo em frente, enquanto atrás deles continua o acalorado debate sobre o valor das Três Joias.
Juntando tudo
Esta passagem inicial prepara magistralmente o terreno para todo o discurso. Temos o Buda, radiante, caminhando com quinhentos monges virtuosos, personificando tudo o que há de louvável na vida espiritual. Atrás deles caminha um mestre invejoso, amargurado pela perda de status e seguidores, criticando tudo o que o Buda representa. E ao lado desse mestre caminha seu próprio aluno, que tem a sabedoria e a coragem de contradizê-lo e dizer a verdade.
O contraste é impressionante: a procissão pacífica e silenciosa do Buda e dos monges versus a dupla argumentativa que os segue. O mestre, que deveria guiar seu aluno rumo à verdade, está, em vez disso, conduzindo-o à falsidade, enquanto o aluno demonstra mais sabedoria do que seu mestre.
Essa situação — o debate público sobre os méritos do Buda — levará o Buda a proferir ensinamentos sobre como seus seguidores devem reagir ao ouvirem críticas ou elogios às Três Joias. A configuração dramática nos mostra que, mesmo na época do Buda, havia aqueles que o criticavam injustamente, e que a resposta adequada a tais críticas não é a raiva, mas a sabedoria.
Termos-chave
– Abençoado (Bhagavā): Um título para o Buda que significa “afortunado” ou “dotado de bênçãos”; o comentário explica que indica que ele é digno de reverência de todos os seres devido às suas qualidades supremas.
– Comunidade (Saṅgha): A assembleia de monges; aqui, especificamente, os discípulos ordenados do Buda.
– Andarilho (Paribbājaka): Um tipo de asceta não budista que vagava de um lugar para outro; Suppiya era um seguidor do mestre Sañjaya.
– Jovem brâmane (Māṇava): Um jovem da casta brâmane; aqui, indicando que Brahmadatta era um jovem estudante.
– Desprezo (Avaṇṇa): Crítica, culpa, apontar defeitos. O oposto de elogio
– Elogio (Vaṇṇa): Agradecimento, falar de boas qualidades e virtudes
– Três Joias: O Buda, o Dhamma e a Comunidade (Saṅgha) — os três objetos de refúgio para os budistas

