Dr. Paul R. Fleischman
“A meditação Vipassana foi preservada na Ásia durante dois mil e quinhentos anos desde a sua descoberta por Sidharta Gautama, o Buda histórico. Sua técnica de vida foi denominada, pelo estudiosos ocidentais, “Budismo”, mas não se trata de um “ismo”, de um sistema de pensamento. É uma prática, um método, uma ferramenta de pessoas vivas. Não é o ponto final da busca de quem o pratica. Para mim, fornece uma bússola, uma lente de aumento, um mapa para novas viagens. Com a prática diária e retiros intensivos através dos anos, encontro o casamento de autonomia e tradição, da inclusão e da continuidade solitária. Vipassana são os binóculos – agora posso procurar o pássaro fugidio.
Antes de ter recebido instruções sobre como Meditar, minha viagem através da vida era predominantemente intelectual. Eu verificara que palestras e livros podiam ser uma inspiração, sugestivos, engenhosos porém evasivos. Era possível dar conselhos, era possível falar, era possível escrever. Porém, meditar é um modo de poder significar alguma coisa, de meditar como alguma coisa, não apenas com palavras, mas com a mente, o corpo e a vida.
Aqui está uma maneira de descer por etapas, protegido por professor, ensinamento, técnica e prática, ao fundo da luz e da escuridão que residem no meu interior. O Hitler e o Buda dentro de mim, a criança assustada de um mundo em holocausto, viajando em um ônibus lento pelas ruas escuras da cidade, e o jovem que caminha a passos largos, mochila nas costas, passeando por catedrais iluminadas pelo sol que brilha através dos pinheiros e que, gritando ou choramingando, se vale de todo o vocabulário das potencialidades humanas, do sadismo ao amor.
Agora posso ver que carrego o chicote e as botas do torturador, sofro com os despidos, bebo das correntezas que descem a montanha com poetas e exploradores. Todas essas vidas vivem em mim. E descubro maneiras, muitas vezes sutis e simbólicas, de expressar essas potencialidades psicológicas em mim como ações claras na minha vida diária. Tudo aquilo que sou, surge do universalmente humano. Eu sou a causa de mim mesmo, expresso a mim mesmo, à medida que as condições do mundo rolam através de mim. Vejo esse fato, quando medito, com a mesma clareza que vejo o impacto da história e a inspiração da visão. Medito em claro confronto com tudo que se impôs a mim e me levou a reagir, e me moldo.
A vida começa em um emaranhado de condições: meras reações a essas condições forjam limitações; a consciência e a resposta consciente às condições, produzem liberdade. Essa clareza com relação às minhas escolhas me permite voltar, de meditar, à ação, como um vetor mais focado, mais concentrado da vida que conhece, da vida em empatia.
Meditar, em si, transforma meus motivos de meditar. Comecei em minhas próprias circunstâncias históricas, mas, recebi uma técnica que tem sido útil em milhões de circunstâncias, há milhares de anos. Comecei com questões pessoais e recebi perspectivas atemporais, para expandir meu ponto de vista. Minha busca é particular, mas não é exclusiva. A transmissão dessa ferramenta tem tornado o meu trabalho possível. Porque outros se lançaram em busca de uma vida plenamente humana, porque outros seguirão, a minha própria fragilidade, ou covardia, pode se tornar significativa, porque eles são o solo de que preciso para crescer. E meus próprios esforços, por maiores que me pareçam, são sombreados pelos esforços muito maiores dos outros.
Posso florescer como um arbusto em uma floresta ilimitada de intermináveis ciclos de vida. Florescer, para um ser humano, é trabalhar na ciência da observação honesta que permite o surgir de um verdadeiro retrato da humanidade. Mesmo partindo de meu condicionamento de nihilismo e pavor, sem o conforto de crenças simples, consciente da terrível maldade e do terrível ódio humanos, de guerras que matam dezenas de milhões, posso ser, serei, uma expressão de fé sem complacência. Posso não ser grande coisa, mas posso investigar a fundo aquilo que é verdade, como vê-la e como transmiti-la.
Em resposta ao avassalador sentido de maldade, medo, falta de sentido e mania de privacidade paranóica dos meus tempos, em resposta à esperança, ao idealismo, ao sentido prenhe de eternidade de minha juventude, aprendi a Meditar, de modo a defender melhor o que considero mais verdadeiro. Isso me ajuda a viver de forma plena o que antes fora uma fé inconsciente.
Ajuda-me a expressar alguma coisa curativa, algo de útil (tanto na minha vida pessoal quanto na minha vida profissional) e significativo para mim, apesar de condições aparentemente absurdas, porque é uma conexão com o universal. Coloca-me em contato com aquilo de mais fundamentalmente humano que está presente em cada gesto meu, em cada ação dos outros, em cada momento que vai direto às emoções, ao conhecimento. Isso, por sua vez, permitiu que eu me juntasse à dança geradora da natureza. Pratico o autoconhecimento e faço disso a oficina do dia. Evito medir os acontecimentos com base na minha vida de minhoca. Com freqüência, esqueço do tempo e, desse modo, junto-me à história.”

