Suttas
Não a opiniões, expectativas ou memórias, mas ao que se revela como é — sem adornos e sem cor.
O que é verdadeiro carrega consigo uma qualidade serena. Não muda com o tempo. Era verdade no passado, é verdade neste momento e permanecerá verdade muito depois de termos desaparecido. Akāliko.
Diz-se que esta prática é akaliko — atemporal. Os ensinamentos do Buda são atemporais. O fato de não haver desenvolvimentos em nossa prática se deve ao fato de termos tempos. O Buda diz “atemporal”. Nós dizemos que existem tempos. Nossos tempos são mais numerosos do que muitos. Tempo para isto, tempo para aquilo, tempos para caminhar, tempos para sentar, tempos para dormir, tempos para comer, tempos para conversar — são muitos. Nossa vida se torna nada além de tempos.
Então, vamos tentar praticar de uma forma que se torne atemporal. A verdade então aparecerá em nossas mentes — em cada um de nós. Tudo o que está pronto para se desenvolver já está lá. Não precisamos buscá-lo em nenhum outro lugar. A própria consciência — o “saber” na mente — já está dentro de nós. Portanto, use sua atenção plena para manter a respiração em mente, para que o que já está lá apareça com clareza, continuamente — e os desenvolvimentos na mente também aparecerão.
Quando olhamos verdadeiramente, percebemos quão pouco resta que corresponda a essa simplicidade. A maior parte do que nos ocupa surgiu do hábito, do desejo, do medo ou da ânsia por afirmação. São imagens que surgem na mente, projeções que adquirem significado por meio do condicionamento — histórias em que acreditamos porque são familiares, não porque são verdadeiras.
O Dhamma nos convida a deixar tudo isso repousar suavemente. Não por aversão, mas por clareza. Não para negar, mas para ver. Tudo o que não está em conformidade com a lei natural desta existência — o surgimento e o desaparecimento de todos os fenômenos condicionados — não tem fundamento.
Quando comparamos o Dhamma com outras religiões ou filosofias, muitas vezes nos enredamos em semelhanças que existem apenas em nosso pensamento. O Dhamma não é um sistema de crenças; é um caminho de discernimento, uma abertura do coração para a realidade que se desdobra momento a momento. Qualquer coisa que contradiga isso se dissolve por si só quando é vista claramente.
O Dhamma — nosso tema de meditação — é algo que todos nós temos dentro de nós, cada um de nós. É algo que praticamos enquanto estamos aqui sentados. Estamos praticando, treinando. A questão é como podemos pegar o que já existe e torná-lo mais completo. Precisamos nos esforçar para usar nossa capacidade de observação a fim de nos familiarizarmos com o que já está presente.
Nossos mestres simplesmente nos dizem, apontam o caminho. Quanto a nós, precisamos nos treinar para usar nossa capacidade de observação interior: para conhecer em consonância com a verdade que reside em nós. Uma vez que percebemos que é verdade, cuidamos disso para que se desenvolva — continuamos cuidando disso o máximo possível, e não há outra maneira: simplesmente terá que progredir.
É por isso que o Buda nos pede para não acreditarmos, mas para indagarmos. Nas últimas horas de sua vida, ele apontou para o Ensinamento e a Disciplina — não como um dogma, mas como um guia confiável para aqueles que verdadeiramente desejam ver:
❛Que o Ensinamento e a Disciplina, ensinados e explicados por mim, sejam seus mestres após a minha partida.❜ Foi o que Buddha disse antes de entrar no Parinibbāṇa.
E em outros trechos dos suttas, a mesma simplicidade se expressa novamente: ❛O Dhamma é proclamado de forma excelente: visível aqui e agora, atemporal, convidando a vir e ver, conduzindo adiante, para ser realizado individualmente pelos sábios.❜
Como a sabedoria ou discernimento é o principal instrumento da iluminação, o Buda sempre pediu a seus discípulos que o seguissem com base em seu próprio entendimento, não por obediência ou confiança inquestionável. Ele chama seu Dhamma de ehipassiko, que significa “Venham e vejam por si mesmos”. Ele convida os buscadores a investigarem seus ensinamentos, a examiná-los à luz de sua própria razão e inteligência, e a obterem a confirmação de sua verdade por si mesmos. Diz-se que o Dhamma é paccattam veditabbo viññuhi, “para ser compreendido pessoalmente pelos sábios”, e isso requer inteligência e investigação constante.
Quando você permite que isso o permeie completamente, resta uma orientação tranquila: voltar-se para a verdade, sem luta, sem resistência, sem misturá-la com nada que a obscureça.
O caminho não exige limites, mas clareza. Não exige rejeição, mas sim compreensão. Não exige dogma, mas sim confiança naquilo que se revela àqueles que olham com serenidade suficiente.
Nesse silêncio, o campo de atuação de Māra (personificação do Mal) se desfaz — não por aversão, mas por discernimento. O que é falso não pode perdurar na clareza. A verdade não precisa de defesa. Basta que seja vista.

